Algumas pessoas cozinham para matar a fome e há quem cozinhe para celebrar. Mas existe um instante muito anterior ao prato servido que quase ninguém percebe: aquele em que a cozinha deixa de ser um cômodo da casa para se tornar um território da alma. E de repente por esse motivo, talvez as receitas mais inesquecíveis nunca estejam escritas apenas no papel. Elas acontecem.
Vivemos num tempo em que tudo precisa ser rápido: o café é para viagem, a conversa cabe em mensagens de segundos, os afetos são medidos por notificações e até o silêncio ganhou fama de desperdício. E, no entanto, basta colocar uma panela no fogo para que outra lógica comece a existir. Pelo menos aqui dentro, para mim e os meus – o ato de cozinhar ainda é de uma preciosidade sem fim até mesmo quando simples. No arroz e feijão do cotidiano há tempo e amor.
A cozinha não aceita ansiedade. A cebola tem seu tempo para dourar. A massa tem seu tempo para descansar. O pão exige paciência antes de merecer o forno. Há uma sabedoria quase que insolente nesses pequenos rituais: nada floresce porque foi apressado, tampouco o fogo aumenta se for assoprado. E escrever também funciona assim: uma boa frase não nasce quando a exigimos. Ela amadurece, fermenta. Recusa a pressa, assim como um molho que precisa reduzir lentamente para concentrar seus aromas e sabores. No texto também é preciso evaporar excessos até revelar sua essência.
Sempre soube que cozinhar e escrever são dois modos de praticar a mesma meditação, pois em ambos, as mãos trabalham enquanto alguma coisa silenciosa reorganiza os sentidos pelo lado de dentro. E tudo tem uma lógica, um modo de se desenvolver. Existe um momento, enquanto cortamos ervas, mexemos uma colher de pau dentro da panela ou ouvimos o tilintar do açúcar a borbulhar… em que apenas deixamos de pensar no mundo e começamos, finalmente, a escutar a nós mesmos. E isso não é distração, é presença inteira.
Um tempo onde a mente encontra descanso quando o corpo realiza uma tarefa aparentemente simples para permitir que os pensamentos se acomodem sem violência. É por isso que tantas respostas aparecem diante do fogão. Não é porque a comida tem poderes mágicos, mas porque a repetição dos gestos desacelera o ruído. Poucas coisas são tão revolucionárias nos dias de hoje quanto fazer apenas uma coisa. Uma única coisinha, em um só momento. E cozinhar nos devolve esse privilégio.
Enquanto o alho perfuma o azeite da conserva ou naquela hora em que baunilha toma conta de tudo (no meu caso, até na pele ela está marcada para não esquecer que é uma paixão!) a vida deixa de ser uma sucessão de urgências para voltar a ser uma coleção de pequenos grandes acontecimentos… A água que começa a ferver formando pequenas bolhas lindas e dançarinas no mesmo segundo em que o vapor sobe. Um cheiro que invade a casa – e o tempo, enfim, volta a ter espessura.
E nós também.
Isso sem contar na delicadeza imensa e quase esquecida de preparar um alimento pensando em alguém. Não importa se é um jantar 5 estrelas ou um café passado no coador de pano com um único grãozinho de cardamomo dentro, na hora certa que aquele alguém costumava o fazer…Servir continua sendo uma das formas mais sofisticadas de dizer “eu me importo”.
Não por acaso, as grandes lembranças afetivas quase sempre chegam acompanhadas de um aroma e de um sabor. A sopa da avó, os bolos que esperavam sobre a mesa, a feijoada de sábado e o gnocchi de domingo, os banquetes árabes, a comida alemã, polonesa, marroquina, o suco de uva integral (Ah, que saudade! Elas eram amassadas com os próprios dedos), os doces mil, o cheiro de pão antes mesmo de a porta da casa se abrir – a memória guarda sabores porque o amor encontrou neles um lugar de morada.
Servir: verbo profundamente psicológico. Quem serve oferece muito mais do que alimento. Entrega tempo: o bem mais escasso dessa época apressada, de uma sociedade obcecada por performance… Preparar uma refeição para outra pessoa nesse mundinho contemporâneo e descontrolado pode ser um dos últimos gestos gratuitos de generosidade. É que cozinhar não produz apenas comida – produz encontro, pausa e pertencimento.
Por isso tantas conversas difíceis terminam na cozinha e outras tantas celebrações começam ao redor de uma mesa. Os alimentos alimentam o corpo, mas o ritual de prepará-los alimenta aquilo que não aparece nos exames médicos: a esperança, o vínculo, a sensação do existir junto.
Cozinhar nos ensina o que insistimos em esquecer: que o essencial não acontece depressa, o cuidado tem cheiro, o amor quase nunca faz barulho e algumas das mais belas obras humanas não estão penduradas em museus e nem publicadas em livros. Elas chegam fumegantes à mesa, preparadas por mãos que compreenderam que alimentar alguém é, antes de tudo, uma forma silenciosa de dizer “eu te vejo”.
Acho que minha verdadeira receita não modifica ingredientes em pratos, mas transforma o tempo em afeto, o dia a dia em prosa e verso… O simples ato de servir em uma das mais elegantes maneiras de amar. Agora, tenho a nobre missão de preencher um caderninho de receitas para meus filhos, a pedido da mais velha (que cozinha divinamente!).
Iniciar essa tarefa, me deixou tão, mas tão feliz que tive vontade de escrever sobre isso. Vai virar receita, mas antes, se fez tempo em escrita. Entrega e devoção. É amor, e só. Um dia conto mais sobre as histórias desse caderno de nossas vidas. Lembranças que fazemos questão de manter vivas em nós a cada encontro (como se fosse uma grande celebração para degustar em doces colheradas).
