A vida girava em vinil em 1979

Imagem mostra uma tatuagem escrito 1979 no braço de uma mulher.
Foto: Crônicas do Imprevisível.

Um ano musical tremendo! Mas precisariam milhares de linhas para que pudesse contar da imensidão de 1979 – o mundo parecia girar no ritmo de guitarras elétricas, baladas de amor e sonhos juvenis. Portanto, seguem algumas delas: foi quando o Kiss lançou o eu-lírico mais lindo de todos os tempos, do disco Dynasty – “I Was Made For Lovin’ You” deixou para sempre um registro de como o rock podia dialogar com a discoteca e fazer um grande sucesso nascido da teimosia criativa do gênio Paul Stanley, que buscava provar que também sabia escrever um hit dançante. E assim o fez!

Gravada com o pulso do disco dominando as pistas, a música contou com Gene Simmons no baixo, Ace Frehley na guitarra e Anton Fig na bateria apenas em gravação e também Peter Criss (ainda que boa parte da percussão no estúdio tenha sido auxiliada por bateristas de sessão) na capa e vídeo gravado em junho do mesmo ano. A produção incorporou linhas sintetizadas, arranjos pulsantes e backing vocals densos, capturando o espírito da época em que luzes de neon e bolas espelhadas faziam parte da imaginação coletiva. Ali estava uma lenda do rock ‘n’ roll fazendo história e provocando puristas ao contagiar quem tivesse uma alma que não soubesse ficar quieta ou deixar de acreditar no amor.

Também o The Police surgia ensaiando seu domínio do mundo com “Message in a Bottle”. Sting, Stewart Copeland e Andy Summers encontraram o equilíbrio improvável entre reggae, punk e new wave, e colocaram numa garrafa metafórica as angústias do isolamento moderno e a busca por conexão com uma batida quebrada, um baixo hipnótico e uma voz melódica nessa narrativa de pedido de socorro de um homem jogando sua mensagem de amor ao mar. Dessa forma, a canção encontrou seu destino e pertencimento (assim como o homem que depois de um ano percebeu que tem tanta gente que passa por situações semelhantes), tornando-se uma das grandes faixas da virada dos anos 70 para os 80, consolidando a banda no cenário internacional.

E o que dizer da diva Gloria Gaynor que nos entregou “I Will Survive” no finalzinho do ano anterior mas tocou 79 inteiro reinando absoluta ultrapassando o território da música para transformar essa letra na mais expressa declaração universal de resistência? Gravada com arranjos de cordas, piano e uma base dançante impecável, a faixa tornou-se o hino dos que se recusam a sucumbir aos tropeços da vida – sejam eles amorosos, sociais ou íntimos. Um lembrete de que as músicas têm o poder absoluto de reerguer quem cambaleia em toda e qualquer situação, além de que sim, somos capazes de seguir íntegros por mais obscuro que seja enxergar o caminho em baixa claridade.

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Mas…. Enquanto tudo isso ecoava pelas rádios, televisões e pistas de dança, a vida seguia crescendo e aprendendo a se adaptar. Das fitas que embolavam e exigiam paciência, lápis ou caneta para voltarem ao eixo, às cassetes que guardavam memórias borradas ou precisavam ser rebobinadas (mas permaneciam ali, felizes). Dos CD´s e MD´s, do walkman que passeava no bolso e do discman que tremia a cada passo mais apressadinho… Dos LP´s guardados com carinho, da vitrola e das caixas de som que espalhavam timbres, melodias e letras capazes de conduzir histórias inteiras, e que nos conduziram… Cada mídia respondia por uma era, e cada era respondia por um pedaço da gente.

Nesse tempo, o mundo mudou e o coração permaneceu igual: ainda crente no amor ressonante, no reencontro possível, talvez como nos filmes vistos na Sessão da Tarde, das lagoas, de amores que atravessavam vidas sem cruzar caminhos – esbarrando e dispersando a oportunidade de felicidade. Ações, aventuras e também ficções.

Ainda temos nossos heróis para acreditar? Te digo que sim! Tudo o que povoou o inconsciente e o crescimento. Também houveram os tempos difíceis. Adaptamos das agendas de papel que guardavam desejos às telas que piscam sem parar. Do português, da demora dos encontros à ansiedade do imediatismo: videochamadas, reuniões infinitas, dos amores leais aos líquidos como diz Bauman, do orelhão que virou celular, da vida brincada na rua que virou quarto e luz azul. Tudo é fragilidade nos laços humanos.

Do amanhecer visto ao lado dos melhores amigos que foi dando espaço para a tentativa teimosa de enfrentar sozinho todos os medos que chegam com a mudança. De 1979 pra cá, tanta felicidade aconteceu! E tanta coisa imensa também se concretizou, não é? Se fomos capazes de tantas transformações internas e externas em tão pouco tempo, talvez tudo realmente seja possível. Se pararmos para pensar – 1979 é um número quase cabalístico, poético por assim dizer: é o valor da sabedoria, do altruísmo, do amor universal, do que é profundo e também da compaixão. Não é pra gente rasa!

Esse povinho do dia 9 de 1979 tem um quê de lindo que ainda me dá um bocado de fé na humanidade. E gosto de pensar que o mundo pode ser um lugar melhor. Sim, ele é: estás nele. Não esqueças disso. Inclusive, um outro bom bocado de gente desse mesmo mundo deveria aprender com teu testemunho diário de fé no amor desmedido, construído e verdadeiro. Puro! Acho que isso sim, é relevante de se viver. O resto, talvez nem importe. Algumas histórias têm data de validade e isso não invalida a importância delas em nosso caminho.

Acontece que o extraordinário do hoje e das novas histórias nos espera em coragem e passo dado. Ah, esta crônica não é um e-mail – que também aconteceu nesse meio tempo de 46 anos pra cá – mas de todo coração, espero que ela te encontre em um segundo de paz para te ajudar a caminhar além. Porque é só o que emanas. Acredite! A vida pode e deve girar assim como um vinil. E que seja a tua música mais vibrante.

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