Dias são feitos de encontros. Não apenas dos que cabem em fotografias ou dos que rendem histórias repetidas em mesas de bar, mas também daqueles silenciosos, quase invisíveis, que passam como um sussurro e ainda assim deslocam algo por dentro.
Há encontros bons e luminosos: tão quentes como manhãs de céu aberto. São aqueles que chegam sem pedir licença e, de repente, transformam dias comuns em capítulos memoráveis de um viver. Um olhar que acolhe, conversa que flui sem esforço, presença que parece antiga mesmo sendo nova. Esses encontros ampliam o mundo. Fazem a estrada parecer mais larga, fértil – e, quem sabe – até mesmo, mais possível.
Existem encontros médios que cumprem função sem alarde. Não arrebatam, não ferem. São pontes provisórias, companhias de percurso. Às vezes ensinam algo simples: uma habilidade, uma perspectiva, um jeito diferente de organizar os pensamentos. Não ficam gravados, mas ajudam a sustentar o caminho. Assim como postes à beira da estrada: não são o destino, mas permitem que sigamos adiante. Acontecem muito nas conexões de trabalho.
E há também aqueles ruins que chegam carregados de desencontro, ruído, expectativa quebrada. Nos ensinam pela fricção, revelam limites, fragilidades, ilusões e mostram o que não queremos repetir. Doem e esculpem (porque a estrada também se faz em pedras que nos obrigam a aprender a pisar com mais consciência).
Acontece que piores ainda são os encontros péssimos que gostaríamos que nem tivessem acontecido. Esses deixam marcas que desorganizam e nos confrontam com a própria vulnerabilidade. Mas, paradoxalmente, também podem nos surpreender. Depois do abalo sísmico, tudo se rearranja e num caminho quebrado, surgem novas bifurcações.
Sem esquecer, dos encontros que não nos dizem nada. Não fazem cócegas, não aceleram o coração, não alteram o rumo. Passam como meros desconhecidos na fila do mercado. E, ainda assim, compõem o tecido da existência. Afinal, viver é também conviver com o ordinário, o neutro, o que não marca, mas sustenta o ritmo do mundo.
Particularmente, sou fã das potências que transformam as horas, mudam as cores dos segundos, reorganizam prioridades e alteram os calendários. São aqueles que passam a fazer parte das orações diárias até para quem não reza. Viram nome sussurrado antes de dormir, pensamento recorrente no meio da tarde, desejo silencioso de cuidado e permanência.
Outros despertam em nós a vontade de laço profundo. Gostaríamos que se tornassem raízes e atravessassem o tempo, que crescessem conosco. Nem sempre isso acontece! Às vezes o encontro é intenso, mas breve. E precisamos aceitar que nem tudo o que floresce está destinado a permanecer. Frustração também se faz em aprendizado.
Cada encontro desde que nascemos – seja bom, médio, ruim, péssimo ou indiferente – participa da construção do ser que somos e do que ainda seremos. Somos feitos de presenças, diálogos, silêncios compartilhados, despedidas, do que nos espelha, nos desafia, nos amplia ou nos limita. E, ao atravessar essas experiências, vamos nos tornando alguém diferente a cada caminhar ouânsia.
O futuro é sempre imprevisível. Não temos a certeza do que cruzará o nosso destino no amanhã, tampouco qual encontro mudará tudo, qual apenas passará, qual nos ensinará pela alegria ou pela dor. O tempo não revela seus planos. Ele só segue nos abrindo às possibilidades inesperadas, atalhos, retornos. E são os encontros que nos dão forma. Sem eles, seríamos apenas viajantes solitários de território de vazios. Com eles, tornamo-nos histórias em movimento.
No fim, talvez a sabedoria esteja em compreender que nenhum encontro é totalmente em vão. Cada traço, visível ou não de nossa paisagem interior é uma somatória dos traços que nasceram da potência de outrém e dos vínculos que criamos. O que somos agora nasceu ontem – e quem, um dia ainda nos tornaremos, somente será após um simples encontro. Tão lindo, poético, filosófico, literal e transformador!
