NOTA: ★★★★½
O cinema de Joachim Trier sempre teve uma obsessão elegante: a anatomia da melancolia urbana e o peso do que não é dito. Em Valor Sentimental, vencedor do Oscar de Filme Internacional, essa investigação atinge o ápice da maturidade técnica ao abrir com uma das sequências mais asfixiantes do ano passado. Nora, interpretada por uma Renate Reinsve (indicada ao Oscar) que confirma o gigantismo revelado em A Pior Pessoa do Mundo, atravessa uma crise de ansiedade minutos antes de estrear uma peça. São quase dez minutos de uma tensão contínua, na qual Trier nos trancafia na psique da personagem, forçando o espectador a respirar no mesmo ritmo entrecortado de quem está prestes a desmoronar sob os refletores.
Essa ansiedade não é um surto isolado, mas a base da existência de Nora. Ela parece incapacitada de encarar seus fantasmas de frente, preferindo o desvio e a fuga como mecanismos de preservação. O epicentro desse abalo sísmico emocional é Gustav, seu pai, um cineasta veterano que Stellan Skarsgård compõe com uma sensibilidade cortante. Skarsgård, mestre em transitar entre blockbusters como Duna e Thor e a crueza dramática de Lars von Trier, entrega aqui um homem que transborda um egoísmo afetuoso, alguém que silencia o que sente para poder transformar a dor alheia em matéria-prima cinematográfica. O reencontro deles no velório da mãe não é um acerto de contas, mas o início de uma simbiose tóxica entre realidade e ficção.
No outro espectro da família, Agnes (a ótima Inga Ibsdotter Lilleaas, indicada ao Oscar) surge como o contraponto necessário: a estabilidade funcional que, por ironia, só ressalta a inadequação crônica de Nora. Enquanto Agnes constrói abrigos, Nora habita ruínas. E o palco principal dessas ruínas é a casa da família, um cenário que Trier filma com uma frieza quase clínica, tratando as paredes como um arquivo vivo de ressentimentos acumulados. Cada cômodo parece saturado de silêncios antigos, funcionando como um personagem mudo que retém os personagens em um passado do qual eles não conseguem – ou talvez não saibam – se desvincular.
A metalinguagem do roteiro, escrito por Trier em parceria com seu colaborador habitual Eskil Vogt, ganha contornos psicológicos fascinantes com a chegada de Rachel Kemp (a também indicada ao Oscar Elle Fanning). Rachel é a estrela de Hollywood que aceita o papel que Nora recusou no novo filme de Gustav. Fanning, que vem refinando sua capacidade de emular vulnerabilidade e cálculo, interpreta a atriz que se deixa moldar como uma substituta simbólica da filha real. É um jogo perigoso de projeções, no qual a busca pelo valor sentimental de um papel acaba por esvaziar a identidade da própria intérprete, evidenciando como a arte de Gustav é, na verdade, uma forma predatória de afeto.
Há uma reverência clara a Ingmar Bergman na forma como Trier isola os rostos e explora os silêncios que dizem mais que os diálogos. No entanto, o filme encontra sua própria voz ao refletir sobre o papel do criador que prefere filmar a vida a vivê-la. Quando Nora finalmente aceita atravessar a narrativa do pai, o que vemos não é uma encenação, mas um desnudamento. A sequência final, de uma precisão cirúrgica, encerra a obra com um impacto emocional devastador, consolidando Valor Sentimental como um dos grandes triunfos do cinema contemporâneo sobre a impossibilidade de cura completa dentro dos laços de sangue.
VALOR SENTIMENTAL
- Direção: Joachim Trier
- Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas e Anders Danielsen Lie.
- Gênero: Drama / Comédia Dramática
- Duração: 133 minutos
- Onde Assistir: Disponível no MUBI e para aluguel nos serviços de streaming
