Tubarão: 50 anos do filme que mudou a indústria

Há filmes que simplesmente passam. Outros, permanecem. E há aqueles que redefinem tudo o que veio depois. Tubarão, de 1975, é esse último tipo. Dirigido por um então promissor Steven Spielberg, o filme não apenas se consagrou como um dos maiores clássicos da história do cinema – ele mudou para sempre a maneira como o público consome entretenimento nas salas de cinema. Um feito notável para alguém que, aos 28 anos, estava apenas começando a moldar o futuro da indústria.

Na época, Spielberg já havia chamado atenção com Encurralado (1971), um suspense tenso feito para a televisão que acompanhava um motorista perseguido por um caminhão numa estrada deserta. Ali, ele já demonstrava domínio da tensão e da sugestão. Mas foi com Tubarão que sua carreira deu um salto definitivo. A produção foi caótica: o tubarão mecânico raramente funcionava, o cronograma estourou, o orçamento triplicou, e a pressão era tanta que muitos consideravam o filme fadado ao fracasso. No entanto, o que parecia um desastre técnico se transformou em um triunfo criativo.

A solução encontrada para os problemas práticos – esconder o monstro o máximo possível – tornou-se justamente o maior trunfo do filme. O medo vem da ausência, da sugestão. O mar, antes espaço de lazer e liberdade, se transforma em território hostil, onde algo invisível e irracional espreita. E quando ouvimos pela primeira vez os acordes repetitivos e crescentes de John Williams, entendemos que o verdadeiro protagonista é o medo. Medo primitivo, ancestral, que se instala quando a lógica já não serve mais. O sucesso foi imediato. O filme se tornou o primeiro a ultrapassar a marca dos 100 milhões de dólares em bilheteria nos Estados Unidos e inaugurou, oficialmente, o conceito de blockbuster: um lançamento de verão, com apelo de massa, marketing pesado e filas dobrando quarteirões.

Mas Tubarão vai além da fórmula que ajudou a criar. Depois de estabelecer com maestria seu terror aquático, o filme muda de rumo – e acerta novamente. A partir da segunda metade, a história se transforma em uma aventura clássica, quase um épico de caça, que joga seus três protagonistas em mar aberto: o chefe Brody (Roy Scheider), policial de cidade pequena marcado pela culpa da morte de um garotinho; o oceanógrafo Hooper (Richard Dreyfuss), fascinado pela criatura como um cientista diante de uma máquina perfeita de matar; e o pescador Quint (Robert Shaw), sobrevivente do naufrágio do USS Indianapolis, para quem o tubarão representa uma obsessão quase bíblica. Juntos, formam um trio improvável que aos poucos aprende a respeitar os próprios limites e a natureza impiedosa do que enfrentam.

O ponto alto desse arco é o monólogo de Quint, escrito na véspera da filmagem e interpretado com intensidade visceral por Robert Shaw. Ele relembra o horror real do naufrágio que deixou centenas de marinheiros à deriva, vítimas dos tubarões. É um momento que suspende o filme no tempo, revelando um passado traumático que ecoa na presença silenciosa do predador. É também um lembrete de que o medo, quando fundamentado na realidade, ganha ainda mais força.

Hoje, passados 50 anos de seu lançamento, Tubarão continua tão eficiente quanto em 1975. O impacto cultural foi imenso: praias esvaziaram, o medo do mar se espalhou, e o cinema nunca mais foi o mesmo. A partir dali, a indústria entendeu o poder do evento cinematográfico. Spielberg, por sua vez, consolidou-se como um dos grandes nomes do cinema mundial, comandando obras como Contatos Imediatos de Terceiro Grau, E.T., Indiana Jones, A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan. Mas foi no terror invisível e implacável de Tubarão que ele mostrou, pela primeira vez, o alcance de seu talento para transformar o ordinário em extraordinário.

Mais do que um filme, Tubarão é uma virada de chave na história da cultura pop. Um lembrete de que o verdadeiro terror não precisa de dentes à mostra – basta uma batida soturna e a certeza de que há algo à espreita, pronto para atacar quando você menos espera. Desde então, o mar nunca mais foi o mesmo.

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