Gosto do quadrinho original Supergirl: Mulher do Amanhã e guardava uma boa lembrança dele. Já escolado no tema, não esperava uma adaptação literal. Alterações fazem parte de qualquer adaptação, e não vejo motivo para transformar cada mudança em uma questão de fidelidade. Meu problema com este Supergirl não está no visual rasteiro ou nas mudanças da história. Eu aceitaria tudo isso sem dificuldade se o filme soubesse construir boas cenas de ação. E é justamente aí que ele desmorona.
As sequências de ação são, sem discussão, o ponto mais fraco da produção. A montagem é confusa, a câmera nunca estabelece o espaço da cena e, em muitos momentos, é difícil entender onde os personagens estão ou o que exatamente está acontecendo. Não há tensão, catarse ou suspense. Em muitos momentos, a sensação era de assistir àquelas versões editadas para exibição em aviões, em que tudo parece resumido e cortado às pressas. É um paradoxo curioso: Supergirl funciona razoavelmente bem enquanto não precisa ser um filme de ação. Quando lembra disso, é um desastre.
E não estamos falando de um detalhe secundário. Em um filme de super-heróis, a ação não deveria ser apenas uma obrigação contratual entre duas sequências de diálogos. É por meio dela que o espectador precisa compreender as habilidades dos personagens, a dimensão dos perigos e as consequências de cada confronto. Quando a montagem embaralha os acontecimentos e a câmera não consegue organizar o espaço, o resultado é uma sucessão de imagens que pode até parecer movimentada, mas dificilmente provoca alguma emoção.

O restante também transmite uma forte sensação de familiaridade, o que, no caso aqui, não é algo muito bom. A história, o humor, a ambientação e até os vilões parecem ecos do especial de Natal dos Guardiões da Galáxia. A seleção musical, isoladamente, é boa, como costuma acontecer nos filmes produzidos por James Gunn, mas a trilha mesmo nunca conversa de fato com as imagens. Dá a impressão de que as composições pertencem a outro filme.
É curioso porque a produção parece querer aproveitar a personalidade mais irreverente do universo criado por Gunn, mas sem encontrar uma identidade própria. A aventura cósmica, os personagens excêntricos e as situações absurdas poderiam funcionar muito bem em uma história sobre uma heroína que não se encaixa exatamente no modelo tradicional de salvadora do universo. O problema é que a familiaridade acaba substituindo a criatividade. Em vez de construir um universo com personalidade, o filme parece recorrer a uma coleção de elementos que já vimos funcionar em outras produções.
Quem realmente sustenta a produção é Milly Alcock, que entrega uma atuação cheia de carisma e presença. É, de longe, o melhor elemento do filme. E não é pouca coisa. A atriz australiana ganhou projeção internacional como a jovem Rhaenyra Targaryen em A Casa do Dragão, depois de construir uma carreira em produções australianas como Upright, na qual já demonstrava uma combinação interessante de vulnerabilidade, humor e personalidade. Sua passagem pela série da HBO revelou uma atriz capaz de transmitir ambição, insegurança e força sem depender exclusivamente de grandes gestos dramáticos.
Em Supergirl, Alcock encontra uma personagem que também carrega uma boa dose de contradições. Sua Kara não é a heroína perfeitamente ajustada ao papel que lhe foi destinado. Existe nela uma mistura de ressentimento, impulsividade e dificuldade de lidar com o próprio passado que poderia render uma personagem muito mais interessante do que a protagonista convencional de uma aventura de super-heróis.
E é justamente aí que a atriz demonstra seu talento. Mesmo quando o roteiro parece perdido, Alcock consegue manter a personagem viva, conferindo-lhe uma personalidade que vai além das falas e das situações previstas pela narrativa. Seu carisma é espontâneo, e existe uma presença de tela que faz com que o espectador queira acompanhá-la, mesmo quando o filme não oferece motivos suficientes para isso.

Mas nem ela consegue salvar uma narrativa que tem um cachorro à beira da morte como principal motivação dramática e, ainda assim, não consegue emocionar. E, para completar, ainda recorre ao velho clichê da protagonista com superpoderes que só veste o uniforme no clímax porque finalmente “descobriu o que significa ser uma verdadeira heroína”.
O problema não está em utilizar Krypto como elemento emocional da história. Pelo contrário, a relação entre Kara e seu cachorro poderia ser uma maneira interessante de revelar a dimensão mais íntima da personagem. O que incomoda é a maneira como o roteiro tenta transformar essa relação em um atalho para a emoção, como se bastasse colocar um animal em perigo para que o espectador se envolvesse automaticamente com o drama.
E isso é particularmente frustrante porque o próprio material de origem oferece possibilidades muito mais interessantes. Mulher do Amanhã apresenta uma Supergirl marcada por uma experiência traumática, alguém que não compartilha exatamente do mesmo otimismo de Superman e que precisa lidar com uma relação bastante complicada com o próprio passado. A jornada de Kara poderia ser uma investigação sobre luto, ressentimento e a dificuldade de encontrar algum sentido depois de uma perda irreparável.
Craig Gillespie, que já havia feito os ótimos Eu, Tonya e Cruella, aqui erra a mão de forma bizarra. O diretor australiano construiu uma carreira interessante justamente por sua capacidade de explorar personagens excêntricos e figuras femininas que desafiam as expectativas ao seu redor. Em Eu, Tonya, a trajetória da patinadora Tonya Harding é apresentada como um retrato ácido de uma mulher que tenta escapar sem sucesso de um ambiente de violência e exploração. Já Cruella demonstra sua habilidade para construir uma protagonista que transita entre o carisma e a perversidade, com uma identidade visual bastante marcada.
O resultado, porém, é um filme visualmente feio, tentando emular o humor típico de James Gunn e falhando miseravelmente. A direção parece incapaz de estabelecer uma identidade própria, como se estivesse mais preocupada em reproduzir uma fórmula do que em encontrar uma maneira particular de contar essa história. E, quando chega a hora de colocar essa aventura em movimento, Gillespie demonstra uma dificuldade surpreendente para organizar as cenas e criar qualquer sensação de perigo.
A participação especial de Jason Momoa como Lobo resume bem essa falta de personalidade. O personagem está ali só para dizer que esteve, funcionando mais como uma piscadela para os fãs do que como um elemento realmente importante para a narrativa. É o tipo de aparição que parece ter sido concebida para provocar uma reação imediata do público, mas que pouco acrescenta à história.
No fim, Supergirl é uma decepção justamente porque tinha elementos suficientes para ser muito melhor. O material de origem oferece uma protagonista complexa, Milly Alcock demonstra carisma e talento, e Craig Gillespie já provou que sabe trabalhar com personagens que fogem do convencional. Faltou transformar tudo isso em um filme que tivesse personalidade, emoção e, principalmente, boas cenas de ação.
Decepcionante. Milly Alcock merecia um filme melhor.
SERVIÇO
- Filme: Supergirl (2026)
- Direção: Craig Gillespie
- Elenco: Milly Alcock, Eve Ridley, Matthias Schoenaerts e Jason Momoa
- Gênero: Ação, fantasia e ficção científica
- Onde assistir: HBO Max
