PodClássicos | Os 50 anos de Carrie – A Estranha

Brian De Palma sempre foi um mestre do espetáculo visual e um herdeiro direto da gramática de Alfred Hitchcock, utilizando seu estilo operístico e assumidamente excessivo para expor as mais profundas neuroses humanas. Em Carrie – A Estranha, ele encontrou o material perfeito para exercitar esse olhar voyeurista e técnico, transformando o romance de estreia de Stephen King em um pesadelo que explora a geometria das cenas com uma precisão cirúrgica.

Ao longo de sua carreira, De Palma se consolidou como um cineasta da obsessão, cujas obras, a exemplo de Vestida para Matar e Um Tiro na Noite, utilizam o suspense não apenas como gênero, mas como uma ferramenta metalinguística para manipular a percepção do espectador por meio de enquadramentos rigorosos.

A escolha de adaptar Stephen King em 1976 foi um movimento certeiro, pois o escritor já demonstrava a habilidade ímpar em transformar traumas cotidianos e o ambiente escolar em cenários de horror absoluto, pavimentando um caminho que o consagraria como o mestre do horror contemporâneo.

Embora as adaptações cinematográficas da obra de King variem drasticamente em qualidade, este filme permanece como um exemplo raro de tradução perfeita, capturando a essência da repressão que o autor tanto preza e elevando-a a um nível de crueldade estética que só o cinema permite. King não escreve apenas sobre o sobrenatural, mas sobre a escuridão que reside no vizinho ao lado, e De Palma soube como ninguém transpor essa perversidade para a tela.

A longevidade da obra, que já ultrapassa os cinquenta anos de impacto cultural ininterrupto, deve-se muito ao equilíbrio entre o elemento fantástico da telecinese e a crueza da realidade social. Enquanto o cinema de terror daquela década começava a explorar os poderes mentais como uma ferramenta de choque – caminho que o próprio De Palma trilharia novamente em A Fúria e que David Cronenberg elevaria ao nível do horror corporal em Scanners – aqui esses poderes são apenas a manifestação física de uma puberdade violentamente interrompida.

A cena inicial no banho é um marco desse terror psicológico, no qual o bullying visceral das colegas que jogam absorventes em uma Carrie desesperada revela uma ingenuidade absoluta e desesperadora da protagonista, talvez uma das figuras mais trágicas da história do cinema.

Este início brutal é o retrato fiel de como Margareth White, ao acreditar piamente que estava preservando a filha das garras do “pecado”, acabou por entregar ao mundo uma jovem sem qualquer estofo psicológico para enfrentar uma sociedade que não demonstra piedade por ninguém. Sissy Spacek entrega aqui uma performance milimétrica, transitando entre a fragilidade de uma criança perdida e o olhar gélido de um anjo vingador que finalmente compreende seu lugar no mundo.

Ao seu lado, Piper Laurie atua em um registro quase satírico e grandiloquente, admitindo anos depois que acreditava estar em uma comédia de horror, o que gera um contraste magnífico e perturbador com o tom introvertido e doloroso adotado por Spacek.

No lado dos algozes, o filme nos apresenta uma jovem Nancy Allen – que se tornou esposa do diretor – personificando a psicopatia juvenil com uma frieza assustadora e um John Travolta em um de seus primeiros papéis de destaque, entregando a dose certa de imbecilidade agressiva. Antes de se tornar o ícone da era disco em Grease e ser ressuscitado por Tarantino em Pulp Fiction, Travolta já demonstrava aqui aquela presença física capaz de transitar entre o carisma magnético e a ameaça brutal.

Esses personagens formam um ecossistema de figuras desprezíveis que reforçam a visão ácida de De Palma sobre a juventude, construindo um retrato da crueldade juvenil que chega a ser mais implacável e amargo do que o estabelecido pelo próprio King no livro original.

O diretor faz uso maduro e inteligente de seus recursos visuais mais conhecidos, como o split-screen e o split-diopter, para subverter o tradicional momento do baile de formatura americano, transformando o que deveria ser um rito de passagem em um palco de dor absoluta para aqueles que não fazem parte da “nata” da escola. Não há a menor possibilidade de redenção para nenhum personagem neste universo, onde até mesmo as figuras de autoridade são falhas.

Temos desde o diretor que sequer se importa em saber o verdadeiro nome de Carrie até a jovem Sue Snell, interpretada por Amy Irving, cuja tentativa de bondade parece ser muito mais um exercício narcisista para reduzir o peso da própria consciência do que uma empatia genuína.

Talvez o único personagem autêntico em sua relação com a protagonista seja Tommy Ross, vivido por William Katt, que se fascina ao descobrir a pessoa doce por trás da máscara de estranha que a escola lhe impôs. A cena em que ambos dançam no baile, isolados em um instante mágico e sublime, é também um dos momentos mais impiedosos do filme, pois De Palma nos envolve em um transe romântico apenas para nos arremessar de volta ao balde de sangue de porco que paira sobre o casal. A morte prematura de Tommy é carregada de simbolismo: ele é o primeiro a morrer para que não veja sua parceira de baile liberar todo o ódio e o ressentimento acumulados sobre aqueles que ela acredita estarem rindo de sua desgraça.

Os simbolismos religiosos e sexuais permeiam toda a narrativa, desde a imagem do santo sacrificado que habita o armário de castigo até o momento em que Margareth White começa a decepar uma cenoura em um gesto nítido de castração doméstica. Esse subtexto atinge seu ápice perturbador na hora da morte da matriarca, quando ela é trespassada por diversas facas e Piper Laurie entrega um rosto de puro êxtase, transformando o martírio físico em um momento de gozo religioso e libertação moral. Com um domínio absoluto de cena, De Palma prepara toda a sua narrativa para o massacre final, no qual o uso das cores saturadas e da tela dividida transforma o caos sanguinário em uma pintura trágica e inesquecível.

Encerrando com um susto final antológico que se tornou referência absoluta no gênero, Carrie permanece como um retrato ácido das consequências devastadoras da repressão moral e sexual dentro de uma sociedade hipócrita. O filme não oferece saídas fáceis e não perdoa seus personagens, deixando a triste e ensanguentada figura de Carrie White marcada para sempre no subconsciente de quem assiste.

É o cinema de gênero em sua forma mais pura, no qual a técnica magistral de Brian De Palma e a escrita visceral de Stephen King se fundem para criar uma obra que, mesmo após cinco décadas, continua sendo um dos estudos mais provocativos sobre o trauma e a vingança.


SERVIÇO

  • CARRIE – A ESTRANHA
  • Direção: Brian De Palma
  • Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, William Katt, John Travolta e Nancy Allen.
  • Gênero: Terror / Drama Psicológico
  • Duração: 98 minutos
  • Onde Assistir: Prime Video, Mubi

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