Lá se foram quatro décadas desde que Seth Brundle entrou na cápsula de teletransporte com aquela mosquinha inconveniente. Quem me conhece sabe que sou absolutamente apaixonado por este filme, e revisitá-lo é sempre um soco no estômago.
Eu tinha pouco menos de 20 anos quando o vi pela primeira vez e, ao término da sessão, tinha a certeza de que aquela havia sido a experiência mais aterrorizante da minha então curta jornada cinematográfica. Cronenberg não apenas dirigiu um filme de gênero; ele entregou uma das experiências mais viscerais de horror que o cinema já viu, equilibrando com maestria uma trágica história de amor com uma ficção científica das mais maduras.
O filme é o ápice do que define o body horror, subgênero que o diretor canadense ajudou a moldar nos anos 70 e 80 com obras como Scanners e Videodrome. Entretanto, aqui ele abandona as tramas conspiratórias para focar em uma descida psicológica muito mais íntima e cruel. Cronenberg, tendo como base o clássico de 1958, refina sua eterna discussão sobre a relação entre o homem e a tecnologia, mostrando como a soberba em dominar o conhecimento, aliada a uma evidente dificuldade em lidar com emoções, leva à tragédia. A tecnologia, que prometia o avanço, torna-se a ferramenta que destroça a carne, algo que o cineasta deixa bem claro logo no primeiro experimento com o babuíno.

Na época de seu lançamento, em pleno auge da década de 80, o filme foi amplamente lido como uma metáfora sobre a AIDS e os efeitos devastadores da epidemia na sociedade. Contudo, o próprio Cronenberg sempre tratou de ampliar essa visão, afirmando que a obra é, na verdade, um olhar sobre a própria condição humana, a velhice e a inevitável decadência física. É uma análise crua de como essa degradação é sentida tanto por quem a sofre na própria pele quanto por quem acompanha o processo de definhamento, transformando o horror corporal em um espelho da finitude que todos nós, eventualmente, teremos que encarar.
Essa vulnerabilidade humana é explorada de forma magistral na sequência do pesadelo em que Veronica sonha em dar à luz uma larva imensa. É um momento que transcende o horror visual para tocar em nervos expostos da psique; a imagem remete diretamente aos pesadelos de invasão e perda de autonomia frequentemente relatados por vítimas de abuso. Ao inserir essa cena, Cronenberg demonstra uma habilidade rara de ir fundo nos traumas mais fortes do ser humano, usando o nascimento de algo monstruoso para simbolizar o medo de carregar consigo a herança de uma violência ou de uma contaminação que não se pode controlar.

A transformação de Brundle, interpretado por um Jeff Goldblum magnífico, foge do maniqueísmo fácil. O cientista começa como um homem simpático, meio desajeitado e sem trato social, mas a simbiose com a máquina o torna confiante, flertando com uma arrogância perigosa antes da queda final. É fascinante como Cronenberg subverte os papéis: até o Stathis Borans de John Getz, que inicia a trama como um canalha stalkeador, termina como um herói involuntário e mutilado. No centro dessa espiral está a personagem de Geena Davis, que registra com horror e incredulidade a deterioração física e mental do homem que ama.

Nesse cenário, os efeitos práticos de Chris Walas são um capítulo à parte, representando o ápice da maquiagem protética antes da era digital. Em sequências ousadas para um blockbuster, o nojo e o horror se misturam de forma orgânica e repulsiva, sem nunca parecerem gratuitos. A transformação não é imediata e pontual como no filme original de 1958, mas vagarosa e total, expondo a fragilidade do nosso invólucro humano. É um trabalho de excelência que, aliado à fotografia, estabelece um clima de opressão crescente que sufoca o espectador a cada nova etapa da mutação.
A fotografia, inclusive, trabalha em um crescendo cirúrgico, abandonando a curiosidade científica do início para mergulhar em tons sombrios que acompanham a perda da identidade de Seth. Tudo isso culmina em dez minutos finais que são, simultaneamente, horríveis e trágicos como poucas obras conseguiram ser. A cena em que a criatura, já fundida ao metal da máquina, clama por uma morte piedosa é o fechamento de uma ópera de tons grandiloquentes, amplificada pela trilha sonora magistral de Howard Shore.
Um dos pontos mais irônicos e cruéis da trama reside na forma como o filme trata a tecnologia que fazia Brundle se sentir tão confiante e autossuficiente. É justamente essa inteligência artificial o primeiro equipamento a não mais reconhecê-lo como humano; no momento em que sua voz se torna gutural e indistinguível, o sistema o rejeita. É a desumanização completa mediada pela própria criação. Essa herança cultural é tão forte que o cinema contemporâneo continua a reverenciá-la, como no recente A Substância, que traz uma cena aludindo diretamente a A Mosca quando a protagonista começa a arrancar as próprias unhas, um dos momentos mais perturbadores do cinema recente.

Quem se dispuser a olhar para além da escatologia e dos fluidos corporais encontrará um drama existencialista profundo que referencia Kafka, Lovecraft e Poe. Brundle é um personagem kafkiano moderno, preso em um processo de metamorfose que ele mesmo desencadeou, mas que não consegue interromper. A tragédia não reside apenas na deformidade física, mas na consciência de que a sua humanidade está escorrendo pelos dedos. É um filme que nos obriga a confrontar a nossa própria mortalidade e a futilidade da nossa arrogância diante das leis imutáveis da biologia.
No fim das contas, a paixão que sinto por esse filme não nasce do choque, mas da honestidade com que ele trata a dor. Resta a Veronica Quaife dar a Seth o momento de paz que ele tanto anseia, encerrando uma história de amor que termina em secreções e metal, mas que guarda uma dignidade rara no horror. É um testamento de que o cinema pode ferir e fascinar ao mesmo tempo, deixando uma cicatriz permanente em quem se atreve a testemunhar essa simbiose. Por isso, a revisão anual é sagrada: para lembrar que, no universo de Cronenberg, o novo homem nasce do caos e da destruição.
Rever A Mosca 40 anos depois é perceber que o filme não envelheceu um dia sequer; nós é que ficamos mais conscientes da nossa própria fragilidade. É uma obra-prima absoluta, um soco no estômago que continua ecoando e provando que David Cronenberg é o mestre absoluto dos nossos piores e mais viscerais pesadelos. Se você ainda não viu, prepare o estômago e o coração, porque o que Seth Brundle encontra dentro daquelas cápsulas é muito mais do que um erro genético – é o reflexo mais sombrio e honesto da nossa própria condição humana.
A MOSCA (1986)
Direção: David Cronenberg
Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz
Gênero: Horror / Ficção Científica
Duração: 96 minutos
Onde Assistir: Disney+ (Star+)
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