Visto hoje, três décadas e meia depois de seu lançamento, O Silêncio dos Inocentes parece um fenômeno inevitável. Mas, em 1991, nada ali apontava para um sucesso. A Orion Pictures apostava em um thriller sombrio, centrado em diálogos claustrofóbicos e em um assassino canibal de inteligência superior. Não havia estrelas óbvias de bilheteria, não havia ação espalhafatosa, não havia concessões fáceis. Havia risco. Mas também havia muita precisão.

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A trama é, em essência, simples e perturbadora. Clarice Starling é uma jovem estagiária do FBI, ainda em treinamento, convocada para entrevistar o psiquiatra e assassino canibal Hannibal Lecter, preso em uma ala de segurança máxima. O objetivo é que ele a ajude a traçar o perfil de outro serial killer em atividade, conhecido como Buffalo Bill, responsável pelo assassinato de diversas jovens mulheres, cujos corpos aparecem com a pele parcialmente removida. Quando a filha de uma influente senadora é sequestrada, a pressão política acelera a investigação. Clarice se vê no centro de uma corrida contra o tempo, dependendo das pistas enigmáticas fornecidas por um homem que parece sempre saber mais do que revela.

Hoje uma unanimidade, Anthony Hopkins vinha de uma carreira sólida, iniciada nos anos 1960, marcada por trabalhos no teatro e no cinema britânico, como no clássico O Leão no Inverno. Atuou também em O Homem Elefante, de David Lynch, consolidando-se como um intérprete de densidade dramática. Ao longo de sua carreira, porém, enfrentou problemas com alcoolismo que quase comprometeram sua trajetória. Antes de entrar em O Silêncio dos Inocentes, era considerado muito mais um veterano cuja carreira não havia decolado – seu último sucesso moderado havia sido Nunca te Vi, Sempre te Amei, de 1987. Quando surge como Lecter, parecia um grande ator à margem de um grande papel. Com menos de 18 minutos de tela, entretanto, criou um dos personagens mais icônicos da história do cinema, redefinindo sua carreira e o imaginário popular.

Jodie Foster, por sua vez, carregava uma trajetória igualmente singular. Começou ainda criança em produções da Disney como Sexta-Feira muito Louca e O Segredo da Mansão, entre outros. Adolescente, impressionou o mundo em Taxi Driver, de Martin Scorsese, papel que lhe rendeu indicação ao Oscar. Anos depois, finalmente venceu a estatueta por Acusados. Mesmo assim, não era vista como estrela de blockbuster ou um nome claramente rentável. Em Clarice, Foster encontrava um ponto de maturidade raro. Sua personagem inicia a narrativa como alguém que ainda busca seu lugar. Em um ambiente marcadamente masculino e misógino, permeado por olhares invasivos e comentários velados, ela precisa se posicionar. Cada sala em que entra parece lembrar que aquele não é um espaço feito para ela.

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O diretor Jonathan Demme, por sua vez, conhecido até então por obras levemente despirocadas como Totalmente Selvagem e De Caso com a Máfia, surpreende ao assumir um thriller psicológico com rigor quase cirúrgico. Sua escolha de filmar diálogos com a câmera frontal, com atores encarando diretamente o espectador, cria uma intimidade até hoje desconfortável. No primeiro encontro entre Clarice e Lecter, a descida por corredores subterrâneos funciona como metáfora evidente, mas eficaz, de uma iniciação ao inferno. A fotografia de Tak Fujimoto e a trilha contida de Howard Shore, parceiro eterno de David Cronenberg, ampliam essa sensação de clausura.

A jornada de Clarice é também de autoconhecimento. Para obter informações, ela precisa expor traumas da infância, falar sobre o pai morto, sobre os cordeiros que gritam em sua memória. Ao compreender a mente de um assassino, passa a entender os mecanismos internos que a movem. A empatia, que poderia ser vista como fragilidade em um universo machista, torna-se sua principal ferramenta investigativa. Ela amadurece não apenas como agente, mas como indivíduo. Quando finalmente enfrenta Buffalo Bill em sua casa, no escuro absoluto, já não é a estagiária insegura do início. É alguém que encontrou sua própria voz – e que mesmo assim, pode perdê-la por simples capricho do destino.

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É um filme que contém sequências profundamente perturbadoras. Os corpos mutilados, o poço no porão de Buffalo Bill, a fuga sangrenta de Lecter, tudo é mostrado com uma frieza e uma certa crueldade bem calculadas. Demme manipula deliberadamente o espectador pelo menos duas vezes de maneira brilhante, conduzindo a montagem para sugerir uma invasão policial em um endereço enquanto a verdadeira ação ocorre em outro. É um jogo consciente com nossas expectativas. O horror não está apenas no que vemos, mas na maneira como somos levados a ver.

O sucesso do filme abriu caminho para uma onda de thrillers centrados em serial killers. Vieram Se7en, de David Fincher, O Colecionador de Ossos e tantos outros que exploraram o fascínio pela mente criminosa. O universo de Thomas Harris também se expandiu em continuações e prequels como Hannibal, Dragão Vermelho. Anos depois, a série Hannibal, protagonizada por Mads Mikkelsen, reinterpretou o personagem com sofisticação estética e elementos ainda mais bizarros. O assassino culto e brilhante tornou-se figura recorrente no universo pop.

Na prática, existe uma razão para essa fascinação. Vilões inteligentes representam o medo da razão dissociada da ética. Hannibal Lecter não é apenas violento, ele é intelectualmente superior, elegante, irônico. Ele nos observa como se já soubesse nossas fraquezas. O público sente repulsa e admiração simultâneas. Talvez porque exista algo sedutor na ideia de alguém que compreende o mundo em profundidade e o manipula com precisão cirúrgica. Lecter nos desafia intelectualmente, e isso é raro no horror.

O filme estrou em 14 de fevereiro de 1991, período normalmente estabelecido para lançamentos sem muita importância, longe da temporada de premiações e do período mais lucrativo do verão. Na cerimônia do Oscar de 1992, o filme mostrou sua força e venceu os cinco principais prêmios – Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro Adaptado. Um feito histórico, ocorrido apenas duas vezes antes, com Aconteceu Naquela Noite, de 1934 e O Estranho no Ninho, de 1975. Não era apenas um thriller de sucesso, mas uma obra legitimada como grande cinema.

Trinta e cinco anos depois, continua intacto. Não apenas como marco cultural, mas como experiência. Um filme que nos encara sem piscar. E que, de alguma forma inquietante, ainda parece saber exatamente quem somos.


SERVIÇO

Nome: O Silêncio dos Inocentes
Direção: Jonathan Demme
Ano de Produção: 1991
Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine
Duração: 118 minutos
Disponível no Paramount+ e na Netflix


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