Oscar 2026 | Marty Supreme e o nervoso charme do fracasso

NOTA: ★★★★1/2

Dirigido por Josh Safdie e estrelado por Timothée Chalamet, Marty Supreme passa longe de ser o filme que a audiência média poderia imaginar. Quem esperava algo na linha de Rocky, seguindo a velha fórmula do azarão carismático que supera limites, pode se surpreender negativamente. O que temos aqui é o toque frenético e desconfortável dos Safdie aplicado ao improvável universo do tênis de mesa. É quase como se a tensão de Joias Brutas tivesse sido transportada para o cenário das mesas verdes, mudando completamente a dinâmica do que entendemos de uma cinebiografia esportiva convencional.

O filme conta a história de Marty Mauser, que com apenas 23 anos já carrega o peso de ser um dos nomes mais conhecidos do esporte americano. Após perder o campeonato em Londres para o atleta japonês Koto Endo, interpretado por Koto Kawaguchi, ele transforma sua existência em uma obsessão cega por revanche. O próximo torneio no Japão vira sua única razão de viver, mas o roteiro deixa claro que essa fixação não vem acompanhada de maturidade. Pelo contrário: quanto mais ele tenta controlar o próprio destino e validar sua genialidade, mais ele afunda em uma espiral de decisões erradas e comportamentos erráticos.

O ponto central da obra reside no contraste de sua personalidade: Marty é um talento nato com a raquete, mas um desastre absoluto como ser humano. Ao longo da projeção, ele ignora os amigos que tentam ajudá-lo e despreza conhecidos com uma arrogância juvenil. Sua relação com as mulheres é especialmente sintomática de seu desajuste: ele trata a amante grávida, vivida por uma surpreendente Odessa A’zion, como um detalhe inconveniente em sua agenda. Nem mesmo a mãe, interpretada pela sensacional Fran Drescher, consegue extrair dele o mínimo de atenção que implora para receber.

Josh Safdie constrói a narrativa como uma sucessão de pequenos causos caóticos, cada um mais constrangedor – e estranhamente divertido – que o anterior. Não existe aqui uma escalada tradicional rumo à glória ou uma montagem de treinamento inspiradora. O que testemunhamos é uma coleção de impulsos impensados que empurram o personagem para situações embaraçosas. É o tipo de cinema que provoca taquicardia e vergonha alheia simultaneamente – o espectador sabe que o tombo é inevitável, mas a direção é tão magnética que se torna impossível desviar o olhar.

Assim como o joalheiro de Adam Sandler de Joias Brutas, Marty acredita piamente que está destinado a uma elite que nunca o aceitará de fato. Com seu bigodinho característico e um visual que remete aos galãs de filmes B, ele se hospeda em hotéis de luxo sem ter um centavo para pagar a conta. Ele se envolve com a esposa de um grande empresário, papel defendido com uma dignidade cortante por Gwyneth Paltrow, como se o adultério fosse um troféu de status social. Para Marty, a vida é uma performance contínua, enquanto para o resto do mundo ele beira o patético, sobrevivendo de golpes e situações vexatórias.

Um dos pontos altos da fita é a precisão do elenco secundário, que dá estofo ao mundo de Mauser. Há uma sequência deliciosa envolvendo o desaparecimento de um cachorro, cujo dono é interpretado com uma energia indignada pelo cineasta Abel Ferrara. São esses momentos que mostram a sensibilidade de Safdie em construir figuras periféricas marcantes. Mesmo com pouco tempo de tela, cada personagem reflete e amplifica as falhas do protagonista, servindo como espelhos de uma realidade que ele se recusa a enxergar.

Tecnicamente, a reconstituição da década de 50 é impecável, fugindo do óbvio ao misturar figurinos de época com uma trilha sonora repleta de clássicos dos anos 80. Embora a escolha musical pudesse soar deslocada em mãos menos habilidosas, aqui ela funciona como uma luva, especialmente nas cenas em que Marty se imagina maior do que realmente é. A música reforça com precisão cirúrgica essa sensação de delírio de grandeza, servindo como o hino interno de um homem que vive em uma cronologia própria.

O filme escancara, sem qualquer romantização, a ideia da mediocridade das pessoas geniais. Chalamet entrega uma atuação intensa e desconfortável, cheia de nuances que tornam difícil gostar de Marty, mas impossível ignorá-lo. Mesmo quando o roteiro parece flertar com uma resolução clássica ou redentora, resta uma ironia fina no ar. Não se trata de transformação real, mas de mais uma camada de autoengano. Marty Supreme pode até usar o pingue-pongue como pano de fundo, mas é, na essência, um estudo nervoso sobre obsessão, ganância e a necessidade infantil de ser gigante em um mundo que te enxerga como pequeno.


SERVIÇO

  • Marty Supreme
  • Direção: Josh Safdie
  • Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Fran Drescher, Odessa A’zion e Abel Ferrara.
  • Gênero: Drama / Biografia
  • Duração: 150 minutos


Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google
Voltar ao topo
O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Ao comentar na Tribuna você aceita automaticamente as Política de Privacidade e Termos de Uso da Tribuna e da Plataforma Facebook. Os usuários também podem denunciar comentários que desrespeitem os termos de uso usando as ferramentas da plataforma Facebook.