NOTA: ★ ★ ★ ★1/2
Talvez o aspecto mais perturbador do cinema de terror contemporâneo seja a sua capacidade de extrair o horror não daquele sobrenatural intocável, mas das fissuras mais banais das relações humanas. Em Obsessão, o diretor Curry Barker compreende essa premissa com uma precisão cirúrgica. O medo que emana da tela não nasce de monstros ocultos em armários, mas sim dos anseios, das inseguranças e dos desejos mais egoístas que alimentamos em silêncio. À medida que a trama avança, o que parecia ser um drama juvenil ganha camadas de tensão e de um horror psicológico quase insuportável.
Barker é mais uma grata surpresa de uma safra recente de cineastas que construíram suas carreiras na comédia de internet e migraram com maestria para o horror. Após chamar a atenção com o micro orçamento experimental de Milk & Serial – que você consegue encontrar no Yutube –, o diretor alcança aqui o status de criador de um dos candidatos legítimos a melhor filme de terror do ano.
Guardadas as devidas proporções de estilo, Barker faz um movimento semelhante ao de Jordan Peele ao pegar uma estrutura narrativa clássica e subvertê-la completamente, como na insuspeita visita aos pais da namorada em Corra. A base de Obsessão poderia facilmente sustentar uma comédia romântica ingênua dos anos oitenta, daquelas em que um jovem tímido tenta conquistar sua musa.
O protagonista dessa engrenagem é Bear, interpretado por Michael Johnston com uma melancolia palpável e uma certa canalhice muito bem disfarçada. Ele é o típico rapaz introspectivo, cuja autoestima foi severamente castigada pela rejeição silenciosa e pela incapacidade crônica de expressar o que sente pela melhor amiga. Nikki, interpretada por Inde Navarrette, a garota por quem ele nutre uma paixão platônica desde a infância, o enxerga apenas como um porto seguro emocional. Após mais uma situação frustrante em que se vê irremediavelmente preso na famosa friendzone, o desespero de Bear o empurra para uma saída mística e perigosa.
Ao entrar em uma loja esotérica de conveniências, ele adquire um artefato exótico conhecido como o Salgueiro do Desejo, que ao ser quebrado supostamente realizaria o que a pessoa pedir. Movido pela carência e pelo sentimento de posse mascarado de amor, o rapaz faz o pedido definitivo de que a jovem passe a amá-lo mais do que a qualquer outra pessoa na face da Terra.
A partir desse ponto, Barker deixa evidente que está bebendo na fonte de um dos arquétipos mais tradicionais da literatura de horror: o mito do desejo realizado que cobra um preço alto demais. É a essência do clássico conto A Pata do Macaco, escrito por W. W. Jacobs no início do século vinte, e que foi reinterpretado até por mestres como Stephen King no visceral O Cemitério.
No exato momento em que o desejo se concretiza, a identidade de Nikki começa a se esfacelar diante dos olhos do espectador. Há um tom profundamente melancólico e doloroso em testemunhar a confusão interna da personagem, que claramente não compreende a mudança abrupta em seus próprios sentimentos. De uma hora para a outra, o carinho fraternal que ela nutria por Bear é substituído por uma paixão avassaladora, artificial e incontrolável, gerando um curto-circuito em sua mente.
A dinâmica do título revela que a obsessão em questão opera em uma via de mão dupla, manifestando-se de forma ainda mais doentia no próprio Bear. Em seu anseio desesperado por manter a paixão de sua vida por perto, o jovem escolhe deliberadamente ignorar todos os sinais óbvios de que a personalidade original de Nikki está se apagando.
É curioso e incômodo notar como ele busca justificativas superficiais para a súbita mudança de comportamento da garota quando está nítido que ela age sob o comando de forças alheias à sua vontade. A preocupação do protagonista nunca se direciona ao bem-estar ou à sanidade dela, mas sim à garantia de que aquele relacionamento idealizado continue funcionando exatamente como ele sempre desejou, custe o que custar.
Inde Navarrette, conhecida nos últimos anos por interpretar o par romântico de um dos filhos do Homem de Aço na série Superman & Lois, entrega aqui uma das atuações mais impressionantes e arrebatadoras dos últimos anos – e que se o mundo fosse justo deveria estar em todas as indicações a prêmios da próxima temporada. A transformação de sua personagem é sutil, mas letal. O roteiro não precisa verbalizar todas as regras daquela maldição porque a linguagem corporal da atriz deixa tudo evidente. A antiga Nikki, a típica garota da casa ao lado, era uma pessoa extrovertida, criativa, bondosa e dona de si, mas que desaparece para dar lugar a uma persona codependente, insegura, paranoica e assustadoramente obsessiva. Navarrette traduz esse declínio por meio de olhares e sorrisos fixos, pequenas alterações na postura e explosões emocionais que causam muito mais repulsa e medo do que qualquer artifício de susto fácil.
O trabalho de direção de Barker complementa essa atuação ao usar o espaço cênico de forma quase predatória. O diretor frequentemente posiciona o rosto de Navarrette nas sombras, ou fazendo com que ela surja ao fundo das cenas como uma presença sinistra e vigilante. Essa escolha estética ganha ainda mais força graças ao trabalho de fotografia claustrofóbica, que transforma ambientes previamente tranquilos, como a própria casa do protagonista, em espaços cada vez mais tenebrosos, sombrios e opressivos, como se uma imensa sombra avançasse gradativamente para abarcar a todos ali.
Isso reforça o fato de que aquela figura ao lado de Bear já não é a amiga que ele amava, mas sim um simulacro perigoso que perdeu a noção de limites, tornando-se uma ameaça real para qualquer um e transformando o rapaz, ironicamente, em prisioneiro de seu próprio milagre.
A genialidade do filme está em nunca demonizar Nikki, tratando-a explicitamente como a maior vítima de toda essa situação. Ela foi privada de seu livre-arbítrio e de sua própria consciência por causa do egoísmo daquele que mais deveria cuidar dela. Um dos momentos mais contundentes e genuinamente tristes da projeção ocorre quando, em um breve instante de lucidez, a garota percebe que a entidade obsessiva que controla seu corpo está adormecida. Em um sussurro desesperado, ela implora para que Bear tire a sua vida, enxergando na morte a única libertação possível daquela possessão psicológica.
Obsessão utiliza as ferramentas do gênero para discutir temas complexos como relacionamentos tóxicos e a ilusão do controle nas relações amorosas. O ritmo do longa segue a estrutura clássica do slow burn, iniciando como uma crônica suburbana desconfortável e escalando gradativamente para o caos absoluto.
Barker pontua a narrativa com um humor ácido e constrangedor, muito similar ao tom que consagrou as obras de Jordan Peele, mas não hesita em abraçar a violência gráfica explícita quando a paranoia atinge seu ápice. Amparado por uma trilha sonora incômoda, o filme prova que, quando se trabalha o gênero com inteligência e respeito ao público, é sempre possível criar uma experiência que reverbera na mente muito além da sala de cinema.
OBSESSÃO (2026)
- Direção: Curry Barker
- Elenco: Inde Navarrette, Michael Johnston, Cooper Tomlinson, Megan Lawless
- Gênero: Terror / Suspense Psicológico
- Duração: 108 minutos
- Onde Assistir: Nos Cinemas
