NOTA: ★★1/2
O cinema independente frequentemente nos brinda com projetos que nascem da pura vontade criativa e da perseverança extrema, como é o caso deste Iron Lung: Oceano de Sangue. O filme marca a estreia de Mark Fischbach – youtuber conhecido como Markiplier – na direção de longas-metragens. Aqui, ele não apenas assume o protagonismo, mas acumula ainda as funções de roteirista e produtor, transformando uma premissa de videogame em uma experiência de terror cósmico que tenta, a todo custo, fugir das facilidades do digital.
A premissa é um exercício de desolação. Em um futuro pós-apocalíptico onde o universo foi drenado de estrelas e planetas em um evento conhecido como Arrebatamento Silencioso, a humanidade sobrevive em um estado de decadência absoluta. A narrativa nos confina a uma lua inóspita, cujo oceano é composto inteiramente por sangue. É para lá que Simon – o próprio Markiplier – é enviado em uma missão desesperada, na tentativa de reduzir suas pena por conta de um crime ocorrido em uma estação espacial.
Visualmente, o filme acerta ao abraçar uma estética obsoleta e analógica. Esqueça o CGI polido; o submarino aqui é um caixote de metal apertado, operado por comandos rústicos e sistemas de câmeras em preto e branco que transformam o exterior em uma paisagem granulada e perturbadora, como um raio-x macabro. Há ecos claros do ótimo O Enigma do Horizonte na atmosfera de isolamento e na loucura que se segue – e quando os primeiros vestígios de esqueletos alienígenas surgem nas profundezas, a obra flerta com um horror genuinamente visceral.

O problema, contudo, reside na sustentação dessa tensão. O miolo da produção se perde em subtramas que beiram a redundância, focadas excessivamente em reparos técnicos, crises existenciais, falta de luz no submarino e no mapeamento do terreno desconhecido, como se fossem efetivas fases de jogo, com o protagonista recolhendo aqui e ali objetos que vão ajudar em seu objetivo.
À medida que a jornada avança, Simon mergulha em um desequilíbrio progressivo e opressor. O encontro com um submarino desaparecido e o surgimento de vozes fantasmagóricas atuam como gatilhos de uma sanidade que se esvai, embora o roteiro nunca deixe claro se o que vemos é um colapso real ou apenas uma projeção do isolamento do personagem. Não que ele se preocupe muito com isso, a ideia aqui é justamente provocar esse sentimento de confusão e incredulidade.
Essa falta de ritmo torna a experiência uma prova de resistência das mais sofridas, com uma estrutura que parece mais preocupada em preencher as suas imperdoáveis duas horas e cinco minutos de projeção do que em justificar a existência de cada cena.
Ainda assim, não se pode ignorar a coragem técnica do projeto. O terceiro ato redime parte dessa irregularidade, entregando sequências de plena loucura visual que justificam o famigerado recorde – vendido como um dos grandes destaques do filme – de 300 mil litros de sangue falso, batendo o número anterior pertencente ao Evil Dead de 2013.
Iron Lung é, em última análise, um objeto de curiosidade que fascina pela ousadia de seu criador, mas que tropeça na sua própria inexperiência narrativa. É um esforço solitário que, como seu protagonista, olha fixamente para o abismo, mas acaba se esquecendo de que o abismo também precisa de uma história sólida para ser compreendido.
- IRON LUNG
- Direção: Mark Fischbach
- Elenco: Mark Fischbach, Caroline Kaplan
- Gênero: Terror, Ficção Científica
- Duração: 125 minutos
