Nota: ★★★★☆

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O cineasta norueguês Kristoffer Borgli consolidou sua assinatura em um território no qual o desconforto não é apenas um acessório estético, mas o motor central da narrativa. Se em Doente de Mim Mesma ele dissecava a deformidade física como ferramente de ascensão social e em O Homem dos Sonhos ele explorava a invasão do inconsciente coletivo, em seu novo trabalho, intitulado apropriadamente como O Drama, ele traz a provocação para um campo aparentemente mais seguro: o ambiente doméstico e pré-nupcial.

A trama coloca o casal Emma [Zendaya] e Charlie [Robert Pattinson] em uma rota de colisão ética absoluta durante um jantar de padrinhos que deveria ser apenas um básico protocolo festivo. O que começa como uma brincadeira de revelações sobre o passado termina como uma autópsia moral, na qual a confissão de Emma sobre um evento de sua vida pregressa transforma o ambiente de celebração em um campo de julgamento sumário e choque coletivo.

O roteiro se desenvolve com uma precisão que ignora as saídas fáceis do gênero ao questionar o que resta de um relacionamento quando uma faceta desconhecida da personalidade é revelada na véspera do casamento. A premissa é instigante por sua simplicidade cruel: como reagir quando a pessoa que você ama revela um passado que, aos olhos da moralidade vigente, pode ser considerado um sinal de alerta imenso sobre sua verdadeira essência?

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Robert Pattinson entrega uma transição admirável de um sujeito inicialmente simpático para um poço de insegurança e paranoia crescente. O ator, que vem trilhando um caminho sólido de desconstrução da imagem de ídolo juvenil, demonstra aqui o quanto amadureceu em papéis que exigem uma contenção explosiva. Seu personagem passa a filtrar cada memória do casal sob a luz dessa nova revelação, transformando pequenos gestos cotidianos em sinais retroativos de algo sinistro.

É uma análise psicológica profunda sobre como a confiança, uma vez trincada, reorganiza a memória de forma impiedosa. Charlie deixa de ver a mulher com quem conviveu nos últimos anos para se focar obsessivamente em um fragmento isolado da história dela. A paranoia de Pattinson é palpável e guia o espectador por um labirinto de suspeitas no qual o carinho dá lugar à vigilância constante.

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Zendaya, por sua vez, confirma sua maturidade dramática ao interpretar uma mulher que se torna vítima de um isolamento social súbito dentro de seu próprio círculo íntimo. A atriz brilha ao mostrar a perplexidade de quem reconhece a gravidade de suas ações passadas, mas não consegue compreender a recusa dos outros em enxergar sua evolução humana. Emma é reduzida a um rótulo, e Zendaya consegue transmitir essa agonia sem recorrer a sentimentalismos baratos.

A força da atuação de Zendaya reside justamente na resistência em não se tornar uma vítima passiva. O filme escancara como aqueles que estão ao redor da protagonista parecem estabelecer a identidade dela com base apenas em um erro, ignorando deliberadamente a relação de excelência construída nos anos recentes.

A técnica de Borgli é fundamental para elevar essa tensão ao patamar do insuportável. A trilha sonora é tão nervosa quanto o ritmo das discussões, funcionando como um ruído constante que impede o espectador de relaxar. A montagem privilegia os silêncios desconfortáveis e os olhares invasivos, criando uma atmosfera em que o ar parece faltar a cada nova tentativa de Emma em se justificar ou contextualizar seus pensamentos.

No terceiro ato, ambientado durante a cerimônia de casamento, essa pequena bola de neve de ressentimentos se transforma em algo insustentável. Borgli entrega uma sequência de momentos absolutamente constrangedores, valorizados por detalhes de enquadramento que denunciam o colapso iminente das estruturas sociais. É nesse ponto que a obra revela sua verdadeira face: uma crítica ácida à cultura do cancelamento operando no âmbito privado.

O diretor sugere que a maior tragédia da modernidade talvez seja a nossa incapacidade crônica de permitir que alguém mude ou que simplesmente deixe o passado para trás. A hipocrisia velada do grupo de amigos, que certamente guarda seus próprios segredos sob sete chaves, serve como um espelho de uma sociedade que prefere a segurança da condenação moral ao risco da compreensão e do perdão genuíno.

O Drama acaba sendo um retrato amargo e necessário sobre a fragilidade dos laços contemporâneos. Ao misturar um tom levemente irônico com um suspense psicológico de alta voltagem, o filme prova que o maior horror não vem de entidades sobrenaturais ou invasores externos, mas da percepção de que as pessoas que nos cercam estão sempre prontas para nos reduzir ao nosso pior momento.

No fim das contas, a obra de Borgli nos deixa com uma reflexão incômoda sobre a transparência total. Se todos tivessem suas vidas escaneadas e seus pensamentos mais obscuros expostos em um jantar de gala, quem sobraria para atirar a primeira pedra ou para celebrar o brinde final?


O DRAMA

  • Direção: Kristoffer Borgli
  • Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Mamoudou Athie, Alana Haim
  • Gênero: Drama / Suspense
  • Duração: 106 minutos
  • Onde Assistir: nos cinemas