A trajetória de Michael Jackson sempre foi um terreno fértil de extremos, moldada entre o isolamento em Gary, Indiana, e a conquista do topo do mundo. Da infância severa sob a tutela da Motown, passando pela revolução cultural com os álbuns Off the Wall e Thriller, até os escândalos que alimentaram os tabloides até sua morte em 2009, o cantor nunca foi uma figura simples. Dono de uma sensibilidade artística sem precedentes que transformou os videoclipes em cinema e quebrou barreiras raciais na MTV, Michael era um gênio complexo. É compreensível, portanto, que um filme sobre sua vida desperte tanto interesse e tenha feito tanto sucesso junto aos fãs. Ele sempre atraiu a atenção de todos, seja por sua música inigualável como pelas polêmicas que o envolveram até o fim.
O filme de Antoine Fuqua – um diretor competente mas sem personalidade, o famoso operário padrão – estabelece uma narrativa que não se arrisca em nenhum momento. Trata-se de um filme quadrado e sem nenhum arroubo de criatividade, confiando quase que exclusivamente na memória afetiva do público e na recriação de momentos icônicos da vida do artista, o que, por sinal, ele faz muito bem. O maior problema é que só isso não segura uma cinebiografia de duas horas e meia. Michael é um filme chapa branca em sua essência. Produzido pelos responsáveis pelo espólio do artista, é uma obra que tem como objetivo claro não mostrar quem era o cantor de verdade, mas sim celebrá-lo da forma mais óbvia e simplista possível.
O que temos aqui é o que costumamos chamar de hagiografia clássica, um filme que serve unicamente para destacar as virtudes, o talento, a visão artística e as dificuldades que o levaram a ser o artista perfeccionista que tanto deslumbrou o entretenimento global. O longa adota o formato padrão cronológico e episódico, em que os desdobramentos não necessariamente conversam entre si, mas acabam formando um mero compilado de melhores momentos ou momentos mais dramáticos da vida do protagonista, sem que seja possível estabelecer um mínimo desenvolvimento ali.
A maior culpa disso nem é de Antoine Fuqua, que faz o que pode com o roteiro deliberadamente maniqueísta de John Logan. Michael aqui é retratado como uma criatura iluminada que nasceu unicamente para levar alegria para a humanidade, mas que é constantemente pisoteado por seu pai, Joe Jackson. O patriarca é tratado aqui como um vilão saído diretamente do MCU ou de um filme de James Bond, sempre retratado de forma ostensiva e desagradável.
Vale ressaltar como Colman Domingo entendeu perfeitamente a sua função dentro dessa proposta, entregando uma atuação exagerada e quase caricata, como na sequência em que ele e Don King — outro notório calhorda da história do show business — tentam esquematizar uma nova turnê dos irmãos com foco exclusivamente no lucro. A cena parece um esquete do Saturday Night Live em que só faltaram as risadas maléficas ao fundo.
Não há espaço para sutilezas na abordagem de Logan. Tudo é explicado por meio de diálogos expositivos e artificiais, como nas passagens em que o protagonista verbaliza que Joseph jamais o deixará ser livre, ou quando defende seus animais dizendo que eles não são pets, mamãe, são meus amigos. São situações que se repetem de forma quase monótona na tentativa de demonstrar o quanto Michael era uma figura sensível em um mundo cruel que iria posteriormente devorá-lo.
Assim, somos obrigados a ver o personagem folheando um exemplar de Peter Pan e suspirando por Neverland por baixo umas seis vezes ao longo do filme, ou repetindo umas quatro ou cinco vezes como ele quer ser o maior do mundo, ou ainda brincando com seu chimpanzé ou sua lhama só para que o roteiro reforce o quanto ele é solitário. Dá vontade de dizer ao roteirista: ok, meu amigo, a gente entendeu o seu ponto de vista, não precisa ficar martelando isso a cada cinco minutos.
Como toda cinebiografia episódica, há uma escolha clara em quem destacar ou quem deixar de lado de acordo com as conveniências da produção. Os outros quatro irmãos do Jackson Five são tratados como figuras completamente sem identidade, que jamais contracenam de verdade com o protagonista. A irmã Janet simplesmente desapareceu da narrativa e La Toya aparece apenas caracterizada com roupa de ginástica e lenço na testa para que saibamos que é ela. Nia Long, como a matriarca Katherine, tem o papel ingrato tradicional da mãe que sofre com a forma como o pai trata o filho, mas mantém aquela passividade que só será resolvida nos últimos minutos de projeção. Até mesmo Quincy Jones, um dos maiores responsáveis pela explosão de Jackson e pela arquitetura sonora de clássicos como Thriller, aparece por apenas três minutos, e toda a fase lendária da Motown não dura cinco minutos em tela. Mesmo a amizade duradoura do cantor com seu segurança/motorista Bill Bray (KeiLyn Durrel Jones) entra como um complemento nada orgânico – sua função aqui jamais consegue ser estabelecida de forma coerente.
Mais sorte tem o empresário John Branca, interpretado por Miles Teller com uma peruca horrível. Não por acaso, Branca é o produtor executivo do filme e basicamente o dono do espólio do cantor atual, surgindo na história como uma das únicas figuras que compreende o cantor e faz de tudo para realizar os seus sonhos. Como dissemos, a sutileza passa longe aqui. Para completar, o filme ainda conta com uma montagem que sequer dá tempo de absorvermos os dramas que o roteiro passa bem por cima, já que praticamente toda cena de diálogo é mesclada com a música de fundo da próxima recriação musical. Se por um lado isso dá ao filme um ritmo acelerado, ao mesmo tempo prejudica ainda mais qualquer possibilidade de imersão real na história humana do artista.
E mesmo com todos estes problemas estruturais, não há de maneira alguma como negar que Michael, quando se foca exclusivamente nas encenações de shows e clipes, é absurdamente eficiente. Ajuda muito nisso o trabalho fenomenal dos dois intérpretes do cantor. Se o pequeno Juliano Valdi traz uma fragilidade infantil precisa ao mesmo tempo em que sente o peso que o pai coloca nele por ser a base do sucesso dos Jackson Five, Jaafar Jackson vai muito além da simples imitação do cantor, superada uma primeira fase de estranhamento. Ele incorpora com perfeição os trejeitos, o tom de voz e a confiança de um artista ciente de seu talento e ao mesmo tempo conhecedor de suas fraquezas, sem contar o espetacular trabalho de voz e coreografia, fazendo com que, em muitos momentos, fique a sensação de que estamos vendo o verdadeiro Jackson ali.
Estabelecido quase que como um rito de passagem – do Jackson criança incapaz de escapar das garras do pai malévolo para o artista consagrado que finalmente conquista a sua independência -, o filme se segura, assim como Bohemian Rhapsody, na recriação em tela grande e som surround de momentos icônicos. O que vai de miolo entre isso, na prática, acaba não importando muito, já que o resultado final é tão convencional quanto um filme de Supercine no sábado à noite. O grande problema é que estamos falando de um dos maiores e mais influentes artistas da história, e entregarem um filme que apenas segue as regras da cartilha e jamais se arrisca é muito pouco para ele.
MICHAEL
- Direção: Antoine Fuqua
- Elenco: Jaafar Jackson, Juliano Valdi, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller
- Gênero: Drama Biográfico / Musical
- Duração: 155 minutos
- Onde Assistir: Nos Cinemas
