NOTA: ★★★★☆
O longa de estreia do diretor Michael Shanks começa como um drama sobre afetos desgastados, mas logo se revela uma obra sobre corpos – e sobre o que acontece quando a fronteira entre dois se apaga até não sobrar nada.
Millie e Tim vivem um relacionamento sem planos ou novidades, sustentado apenas por um afeto antigo e pela falta de coragem de mudar. Ela, professora exausta da vida urbana, decide se mudar para o interior em busca de equilíbrio. Ele, músico frustrado, a acompanha mais por inércia do que por desejo. É um retrato incômodo de casais que se amam o suficiente para não se separar, mas não o bastante para continuar crescendo juntos.
Durante uma caminhada, eles caem em uma caverna escondida, onde encontram os restos de uma antiga igreja. O cenário abafado, úmido e opressivo evoca o design orgânico de Alien. No coração daquela pedra, uma fonte de água misteriosa se torna o ponto de ruptura. Ao bebê-la, o casal desencadeia um processo grotesco: seus corpos passam a se fundir, lenta e perturbadoramente. O drama cede lugar ao body horror, onde a proximidade emocional se transforma em prisão física.
Shanks assume aqui uma carta de amor – e horror – a clássicos do gênero. Os efeitos práticos, executados com precisão rara, remetem ao caos orgânico de O Enigma de Outro Mundo, à crítica social deformada de Sociedade dos Amigos do Diabo e ao corpo como campo de batalha no cinema de David Cronenberg. Também há ecos da simbiose sufocante de Possessão (1981), de Andrzej Żuławski, em que a deterioração de um casamento se manifesta por meio de criaturas viscosas e comportamentos extremos, e do Aniquilação de 2018, no qual a fusão física e mental é tão bela quanto aterrorizante. Até mesmo A Pele que Habito (2011), de Pedro Almodóvar, encontra paralelo aqui, ao usar o corpo como prisão literal e figurada.
Mas o verdadeiro terror de Juntos está no subtexto: a perda da individualidade não por escolha, mas por submissão. O roteiro insere uma crítica sutil às relações contemporâneas. Após dez anos juntos, Millie e Tim ainda se chamam de “parceiro” e “namorado”, evitando termos como marido e mulher, como se assumir compromisso fosse grande demais. É o retrato de uma geração que quer viver a dois, mas teme rótulos, responsabilidades e continuidade. Juntos traduz esse medo com a brutalidade de uma metáfora física – a fusão que não nasce do amor, mas da incapacidade de estar só.
O fato de Alison Brie e Dave Franco serem casal na vida real adiciona camadas à atuação. Há olhares cansados, toques automáticos e silêncios carregados que soam mais vividos do que ensaiados. Mesmo que os diálogos não explorem todo o potencial dramático, há algo de reconhecível para quem já viveu preso entre amor e hábito, entre a vontade de continuar e o medo de terminar.
O desfecho, embalado por 2 Become 1 das Spice Girls, é uma síntese de humor mórbido e romantismo distorcido. Não é sobre união, mas sobre dissolução. É o retrato final de um relacionamento que confunde simbiose com amor – não porque dois escolheram se tornar um, mas porque esqueceram como ser dois.
Juntos pode não ter a exuberância visual e temática de A Substância – nem deverá se tornar um clássico imediato como ele – mas encontra sua força na coerência com sua proposta: um terror íntimo, incômodo e mais próximo da realidade do que gostaríamos de admitir.
JUNTOS
Título original: Together
Data de lançamento: 14 de agosto de 2025 (Brasil)
Diretor: Michael Shanks
Duração: 1h42m
Gênero: Terror
Elenco: Alison Brie, Dave Franco, Damon Herriman
