Nota: ★★★★
Existe uma ironia curiosa em Homem-Aranha: Um Novo Dia. Foram necessários quatro filmes para que a Marvel finalmente entendesse quem é Peter Parker.
Desde sua estreia em Capitão América: Guerra Civil, em 2016, Tom Holland interpretou um personagem constantemente definido por tudo aquilo que estava ao seu redor: Tony Stark, os Vingadores, o multiverso, ameaças globais e a necessidade quase compulsiva de transformar cada aventura em mais uma peça do gigantesco quebra-cabeça do MCU.
Enquanto isso, o próprio Homem-Aranha parecia sempre em segundo plano dentro da própria franquia. Mesmo no seu filme de maior sucesso, ele teve que dividir seu protagonismo com outras versões do herói, num dos crossovers mais lucrativos da história.
Esse talvez seja o maior problema da Marvel nos últimos anos. Nenhum filme pertence integralmente ao seu protagonista. Cada longa precisa apresentar personagens, lançar futuras séries, abrir espaço para novas franquias e preparar os próximos capítulos desse universo compartilhado. O resultado é que seus heróis frequentemente deixam de ser personagens para se tornarem plataformas de lançamento. Homem-Aranha: Um Novo Dia ainda sofre desse mesmo mal, mas, pela primeira vez, consegue impedir que isso engula completamente a história que realmente importa: a de Peter Parker.
E talvez não exista ponto de partida melhor para isso do que o final de Sem Volta para Casa. Ao decidir apagar sua própria existência da memória de todos, Peter não apenas perde MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon). Ele perde a si mesmo. Pela primeira vez desde que Tom Holland assumiu o papel, vemos um personagem verdadeiramente sozinho, obrigado a reconstruir sua vida sem o apoio de amigos, mentores ou equipes de super-heróis. A Marvel finalmente percebe aquilo que Stan Lee compreendeu há mais de sessenta anos: o maior conflito do Homem-Aranha nunca foi enfrentar supervilões – sempre foi sobreviver às consequências de ser Peter Parker.
É justamente essa solidão que move toda a narrativa. Peter agora vive como um estranho em sua própria cidade. Observa à distância a vida das pessoas que ama, acompanha MJ pelas redes sociais, evita qualquer aproximação que possa colocar alguém em perigo e encontra algum sentido apenas quando veste o uniforme do Aranha. Existe uma melancolia permanente no personagem. Pela primeira vez, Tom Holland interpreta um Peter Parker emocionalmente adulto, alguém que entende que algumas escolhas simplesmente não podem ser desfeitas.
Curiosamente, esse é também o primeiro filme em que Holland realmente lembra o personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko. Durante anos critiquei a maneira como a Marvel insistiu em transformá-lo quase em um estagiário dos Vingadores. Tudo girava em torno de Tony Stark, das armaduras tecnológicas, das viagens internacionais e de ameaças que pouco tinham a ver com a essência do personagem. Aqui, finalmente, ressurge o “amigão da vizinhança”: um rapaz comum, meio gênio da computação, tentando sobreviver enquanto salva pessoas comuns. Parece uma mudança pequena, mas levou quatro filmes para acontecer.
Essa transformação passa diretamente pelo olhar de Destin Daniel Cretton. Jon Watts jamais foi um diretor incompetente, mas seus três filmes sempre pareceram excessivamente burocráticos. Havia eficiência, mas pouquíssima personalidade. Cretton, por outro lado, já havia demonstrado em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis um domínio visual muito acima da média dentro da Marvel. Em Um Novo Dia, ele confirma essa impressão ao construir algumas das melhores sequências de ação envolvendo o Homem-Aranha desde a trilogia de Sam Raimi.
A diferença aparece logo na forma como Nova iorque é filmada. Durante anos, a cidade foi reduzida a um gigantesco cenário digital no qual explosões aconteciam. Mais do que isso, Peter quase nunca estava nela. Ia para Berlim, Washington, Londres, o espaço ou o multiverso. O curioso é que o “amigão da vizinhança” parecia nunca ter uma vizinhança. Cretton corrige esse erro ao devolver Nova Iorque ao centro da narrativa. A cidade volta a respirar, possui textura, profundidade, movimento e identidade própria. Ela deixa de ser pano de fundo para se tornar quase uma personagem da história.
Essa escolha muda completamente a percepção das cenas de ação. Pela primeira vez em muitos anos, o Homem-Aranha deixa de parecer um boneco digital deslizando sobre um cenário criado por computador. Existe peso, velocidade e impacto físico. O espectador compreende onde Peter está, sente a altura dos prédios, percebe os obstáculos e acompanha seus movimentos com clareza. É um detalhe técnico que parece pequeno, mas altera completamente a maneira como nos relacionamos com o personagem.
Cretton também demonstra enorme inteligência ao dialogar com o legado cinematográfico do Aranha. As referências à trilogia de Sam Raimi não aparecem apenas como fan service. Há ecos claros na utilização da cidade, em determinados enquadramentos, nos testes envolvendo a nova teia orgânica, em um certo chip inibidor e até em algumas quedas que remetem diretamente aos filmes estrelados por Tobey Maguire. Mais importante do que reproduzir imagens conhecidas, porém, é compreender a essência daqueles filmes: Peter Parker nunca foi definido pela força de seus poderes, mas pelo tamanho dos sacrifícios que precisava fazer.
Existe, inclusive, um momento particularmente interessante quando Peter é acusado de tomar decisões pelas pessoas que ama, afastando-as para protegê-las. É impossível não lembrar do diálogo final de Homem-Aranha 2, quando Mary Jane pergunta, em essência, até quando ele continuará tentando salvar todo mundo sem permitir que alguém também o salve. Não é apenas uma referência nostálgica. É a percepção de que, vinte anos depois, aquele continua sendo o maior dilema do personagem.
O amadurecimento do protagonista também aparece de maneira simbólica por meio das mudanças que seu próprio corpo começa a sofrer. Assim como acontecia na trilogia de Raimi, Peter passa a desenvolver teias orgânicas e percebe que sua própria natureza está mudando. Mais do que uma alteração biológica, a transformação funciona como metáfora. Seu corpo deixa de responder ao adolescente inseguro dos filmes anteriores para refletir um homem obrigado a lidar com escolhas muito mais duras do que jamais imaginou enfrentar.
Esse amadurecimento encontra um interessante contraponto na presença de Frank Castle (Jon Bernthal). Entre todas as participações especiais, talvez seja a única que realmente se justifica dramaticamente. Tanto Peter quanto Castle são personagens definidos pela perda e pela solidão. A diferença é que cada um reage de maneira completamente oposta. Enquanto o Justiceiro transforma sua dor em violência, Peter insiste em preservar a esperança. Um acredita que salvar significa eliminar o problema; o outro continua acreditando que salvar é impedir que outras pessoas sofram o mesmo destino que ele. É um paralelo simples, mas extremamente eficiente.
Infelizmente, a Marvel continua incapaz de confiar plenamente em seu protagonista. Florence Pugh está ótima como Yelena Belova, a nova Viúva Negra, Mark Ruffalo aparece mais uma vez como Bruce Banner, e outras participações cumprem sua função dentro do enorme planejamento do estúdio. O problema é que muitas delas existem muito mais para relembrar personagens e preparar os próximos filmes do que para fortalecer este. Continua sendo o maior vício narrativo do MCU: a incapacidade de permitir que um herói tenha um filme exclusivamente seu.
A antagonista vivida por Sadie Sink sofre do mesmo problema. A atriz entrega mais uma vez uma atuação segura, carregando sua personagem de dor, ressentimento e vulnerabilidade. Seu arco funciona muito bem dentro da história, mas também deixa evidente que boa parte de sua existência está ligada ao futuro de outra franquia. Talvez fosse muito mais interessante se o roteiro buscasse um antagonista clássico do universo do Homem-Aranha, em vez de novamente utilizar o filme para abrir portas para novas histórias. Mas isso talvez seja exigir demais de um estúdio que parece incapaz de abandonar sua lógica de produção em cadeia.
Ainda assim, reduzir Um Novo Dia a mais um produto da Marvel seria profundamente injusto. O filme compreende que explosões nunca foram o verdadeiro espetáculo do Homem-Aranha. O que realmente importa são as pessoas. Praticamente todos os personagens da história perderam alguém importante e escolheram enfrentar essa dor sozinhos. Peter afasta quem ama por medo de machucá-los. Frank Castle acredita que ninguém merece dividir seu sofrimento. A personagem de Sadie Sink transforma o luto em ressentimento. Aos poucos, todos compreendem que o isolamento nunca cura ninguém.
É justamente aí que a amizade se revela o verdadeiro tema do filme. Não como um discurso ingênuo sobre união, mas como a compreensão de que nenhuma pessoa consegue reconstruir a própria vida isoladamente. O filme fala sobre gente que escolheu ficar sozinha e, aos poucos, aprende que permitir que outras pessoas se aproximem também é um ato de coragem. Talvez essa seja sua maior qualidade: entender que vulnerabilidade não enfraquece um herói. Pelo contrário. É justamente ela que o torna humano.
Homem-Aranha: Um Novo Dia continua carregando diversos defeitos da fórmula Marvel. O roteiro é mais complexo do que precisava ser, algumas participações claramente existem por razões comerciais e seu clímax jamais alcança a força dramática construída ao longo da narrativa – chegando, em sua conclusão, a lembrar o apelativo emocional de Superman Returns. Mas, curiosamente, nenhum desses problemas consegue apagar seus méritos.
Durante anos, a Marvel acreditou que bastava colocar o Homem-Aranha ao lado de personagens maiores para que ele também parecesse maior. Um Novo Dia finalmente compreende o contrário. Peter Parker nunca precisou dos Vingadores para ser interessante. Sempre foi o super-herói mais popular do mundo porque suas maiores batalhas acontecem quando tira a máscara. Quando entende isso, o filme deixa de ser apenas mais um capítulo do Universo Marvel e finalmente se torna um verdadeiro filme do Homem-Aranha.
Título: Homem-Aranha: Um Novo Dia
Direção: Destin Daniel Cretton
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Florence Pugh, Mark Ruffalo, Liza Colón-Zayas e Sadie Sink.
Duração: 2h18
Distribuição: Sony Pictures