Este texto contém spoilers. Leia depois de ver o filme.

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NOTA: ★★★1/2

Há dores que não encontram palavras e há silêncios que dizem mais do que qualquer discurso. Hamnet é um filme sobre esse espaço invisível entre o amor e a perda, sobre aquilo que permanece quando a vida segue, mas jamais volta a ser a mesma. É uma obra que observa o luto não como um evento isolado, mas como presença constante, que transforma corpos, casas, gestos e afetos. Ao olhar para uma família atravessada por uma tragédia irreversível, o filme encontra uma forma delicada e profundamente humana de falar sobre a impossibilidade de seguir adiante sem carregar consigo aquilo que se perdeu.

É nesse intervalo entre o que se perde e o que insiste em permanecer que Hamnet encontra sua matéria mais profunda. Dirigido por Chloé Zhao, o filme evita deliberadamente o caminho mais confortável da cinebiografia para se concentrar naquilo que não cabe em registros históricos. O interesse aqui não é compreender a construção do mito William Shakespeare, mas observar o homem antes dele, suas fragilidades, seus silêncios e as dores que ele carrega sem saber como nomeá-las. Ao deslocar o olhar para o espaço íntimo da família, o filme transforma a tragédia em experiência sensorial e emocional, acompanhando não a origem da obra, mas o impacto da perda sobre quem precisa continuar vivendo.

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No centro dessa história está Agnes, interpretada com força comovente por Jessie Buckley. A atriz constrói uma personagem que compreende com clareza o papel que lhe é imposto naquela sociedade, mas que, ao mesmo tempo, se rebela internamente contra as tragédias que a vida insiste em lhe apresentar. Há lucidez, mas também inconformismo. Há aceitação social, mas nunca resignação emocional.

Hamnet é um filme muito mais feito de silêncios do que de diálogos. Chloé Zhao aposta em uma narrativa em que quase tudo é comunicado pelo olhar, pela postura corporal, pelos pequenos gestos que escapam às palavras. O que os personagens sentem raramente é dito em voz alta – até por isso machucam muito mais quando o sentimento é verbalizado. O espectador é convidado a observar, a ler rostos e pausas, a compreender emoções a partir do que não é verbalizado.

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Agnes é definida por sua ligação profunda com a natureza. Sua relação com a terra, o ar, a água e os animais é algo quase ancestral. Ela vive em sintonia com o ambiente que a cerca, como se seu corpo fosse extensão daquela paisagem. O vermelho constante de suas roupas, que pode, a princípio, ser um sinal de perigo, reforça essa energia vital intensa, quase indomável, que contrasta diretamente com Will, vivido por Paul Mescal. Mais introspectivo e contido, Will é um homem que sente profundamente, mas que (ainda) não sabe como expressar aquilo que o atravessa.

O papel de Mescal exige uma compreensão delicada da dinâmica familiar. Will é um homem dividido entre o desejo de criar e a necessidade de sustentar sua família, entre o impulso de partir e a consciência de que sua esposa não deseja ir para Londres em busca do sucesso que ele almeja. Agnes quer permanecer em sua terra natal, em contato com o solo que a formou e com os ancestrais que a precederam, e essa escolha se manifesta desde a forma como a família nasce e se organiza.

A filha mais velha vem ao mundo em plena floresta, entre raízes e terra úmida, como se já fosse parte daquele ciclo natural que define a mãe. Os gêmeos, por outro lado, nascem na cidade, sinalizando um deslocamento inevitável, uma vida que começa a se dividir entre dois mundos. Essa diferença silenciosa reforça ainda mais a conexão de Agnes com a natureza e, por outro lado, aprofunda o abismo emocional entre o casal, não por falta de amor, mas pela maneira distinta com que cada um compreende pertencimento, permanência e futuro.

Os personagens secundários enriquecem a narrativa com camadas emocionais densas. Emily Watson, como a mãe de Will, surge inicialmente como uma mulher rígida e pouco afetiva, mas aos poucos revela dores antigas que se refletem na tragédia que ainda há de acontecer. É como se ela reconhecesse naquela perda algo que já viveu ou temeu viver. Já o irmão de Agnes, interpretado por Joe Alwyn, é uma presença constante de apoio. Mesmo inserido em uma sociedade profundamente machista, ele demonstra uma sensibilidade rara, estando sempre disposto a amparar a irmã no que lhe é possível.

Quando Hamnet morre, aproximadamente na metade do filme, algo essencial se quebra. A vida de Agnes perde suas cores. O vermelho vibrante desaparece e dá lugar a tons sépia, apagados, como se a alegria tivesse sido drenada de seu mundo. Essa mudança visual traduz de forma simples e devastadora o impacto do luto. Agnes não perde apenas um filho, perde a vitalidade que a definia. É profundamente significativo que, no ato final, o vermelho retorne. Não como negação da dor, mas como sinal de que seguir em frente é possível, ainda que nunca seja completo.

Chloé Zhao não tem medo de abraçar o melodrama. Pelo contrário, ela o faz com uma honestidade tão grande que torna impossível não se emocionar. O filme não tenta se proteger da dor, nem suavizá-la. Ele se entrega a ela, confiando que a autenticidade emocional é suficiente para tocar o espectador sem precisar de excessos.

A diretora também trabalha os espaços como pequenos palcos teatrais. Muitos cenários são filmados sob os mesmos ângulos, e são as mínimas alterações que revelam as mudanças na vida dos personagens. O quarto dos gêmeos, agora com uma cama a menos. Os ambientes que parecem maiores e mais vazios após a perda. A câmera se move de forma lenta e gradual, quase como se acompanhasse o ritmo interno daqueles corpos em luto.

No terceiro ato, com a estreia da peça Hamlet, o filme alcança um estado de catarse raro. A figura do príncipe dinamarquês surge quase como uma materialização adulta do menino que morreu cedo demais – curiosamente, vivido por Noah Jupe, irmão de Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet. Não se trata apenas de uma sobreposição narrativa engenhosa, mas de um gesto profundamente emocional.

Ali, a arte deixa de ser apenas criação intelectual e passa a funcionar como linguagem para aquilo que jamais encontrou forma no mundo real. É no palco que sentimentos reprimidos, culpas silenciosas e dores inomináveis finalmente encontram voz. Mesmo quando o filme parece explicar demais suas intenções, a força desse momento não se dissipa, porque o que está em jogo não é a lógica da narrativa, mas a intensidade da experiência.

Há algo de profundamente comovente na forma como o público dentro do filme acolhe aquela encenação. A arte é abraçada não apenas como espetáculo, mas como espelho. O que se vê no palco reverbera na plateia porque ali estão sentimentos compartilhados, perdas reconhecíveis, dores que ultrapassam aquela família e se tornam universais. O teatro surge como espaço de elaboração emocional, no qual criador e espectador se encontram em um mesmo território.

Hamnet não é, portanto, um filme sobre o nascimento de um mito literário. É um filme sobre aquilo que permanece quando tudo parte. Sobre a dor que antecede a arte, sobre o silêncio que vem antes da palavra e sobre a necessidade humana de transformar perda em expressão. Ao se encerrar, a obra se assume como uma homenagem delicada e profundamente sentida ao teatro, à literatura e ao próprio cinema, não pela grandiosidade de seu escopo, mas pela capacidade de reunir, em um único gesto, uma quantidade imensa de emoção. Um final que não busca o épico pelo tamanho, mas pela densidade afetiva. Porque, no fim, o que fica não é a ausência em si, mas aquilo que conseguimos construir a partir dela.


SERVIÇO

Nome: HamnetA Vida antes de Hamlet
Direção: Chloé Zhao
Ano de Produção: 2025
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Emily Watson, Joe Alwyn
Duração: 134 minutos