Nada melhor do que termos de volta o Sam Raimi do Velho Testamento, finalmente longe das amarras narrativas e estéticas da Marvel e da Disney às quais ele se ajoelhou e prestou vassalagem nos últimos quinze anos.

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Para quem acompanhou a trajetória do cineasta, vê-lo retornar ao básico é um alento. Raimi é o homem que definiu o gore operístico com Evil Dead e que, mesmo quando brincou de gente grande em Hollywood com a trilogia original do Homem-Aranha, nunca perdeu aquele viço de diretor de guerrilha.

Seus últimos projetos na Disney e no MCU, como o segundo Doutor Estranho, pareciam exercícios de contenção, nos quais sua assinatura visual – os zooms frenéticos e a câmera subjetiva agressiva – era sufocada pela necessidade de alimentar uma engrenagem maior e sem muita chance de improvisação. Neste filme delicioso, reencontramos o cineasta porralouca de Arraste-me para o Inferno e da série Evil Dead, entregando aquela mistura genial de dedo no olho e gritaria que parecia perdida nos blockbusters pasteurizados.

A trama nos apresenta Linda Liddle (Rachel McAdams), profissional de uma consultoria multinacional que é um manual da eficiência corporativa: inteligente, rápida e estratégica. O único porém é que Linda possui o senso social de um eremita, e McAdams abraça esse visual desleixado com uma coragem rara para estrelas do seu quilate. Ela surge em tela com roupas velhas, manchas de comida no canto da boca e uma postura que a torna a última pessoa convidada para o karaokê da firma. No momento em que ela é preterida em uma promoção pelo filho do antigo dono da empresa, o nepobaby Bradley Preston – vivido por um Dylan O’Brien absolutamente desprezível -, o conflito está definitivamente armado.

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Quando um acidente de avião joga a dupla em uma ilha deserta no Pacífico, o filme entra no território da sobrevivência, um subgênero que sempre fascina por expor a inutilidade do homem moderno diante da natureza. É nesse caos que a parceria de longa data com o compositor Danny Elfman brilha. Elfman pontua a descida ao inferno dos personagens com uma trilha dissonante e irônica, que abandona o épico para abraçar o bizarro, ajudando Raimi a ditar um ritmo de insanidade crescente.

Raimi conduz a obra como uma salada que evoca o recente Triângulo da Tristeza em sua concepção de luta de classes, mas passa longe de qualquer pretensão de discussão social densa. Aqui, a crítica ao privilégio serve apenas como um delicioso background para o festival de bizarrices que o diretor estabelece.

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À medida que Linda usa seu conhecimento enciclopédico de reality shows que ela ama, como Survivor, para dominar o mimado Bradley, o filme mergulha no que Raimi faz de melhor. A dinâmica evoca ecos de Náufrago, nas desesperadas e patéticas tentativas de resgate que o empresário tenta arquitetar, mas logo descamba para o clima claustrofóbico de Louca Obsessão, na forma como a protagonista passa a dominar tanto física quanto psicologicamente o seu antagonista.

Rachel McAdams se entrega totalmente ao que o diretor propõe, encarando as cenas mais escatológicas possíveis com um entusiasmo visceral. É um festival de fluidos, vômitos e situações repugnantes que nos lembram por que o diretor é um mestre do gênero. O foco é estabelecer uma relação que caminha no fio da navalha entre o ódio e a sobrevivência, transformando a ilha em um parque de diversões macabro.

Para não dizer que a experiência é impecável, o roteiro tropeça em seu desfecho ao inserir uma situação forçada para garantir um clímax sanguinolento. Ainda assim, Socorro! confirma mais uma vez que Sam Raimi é um cineasta que sabe manipular as emoções pelo exagero visual, pela insanidade narrativa e pelo humor físico.

O filme nos lembra que grandes talentos não merecem ficar restritos a franquias que podam sua criatividade. Sobreviver ao mundo corporativo é difícil, mas sobreviver a um mestre do terror em sua melhor forma é um privilégio que o espectador não tinha há muito tempo.


SOCORRO!

  • Direção: Sam Raimi
  • Elenco: Rachel McAdams, Dylan O’Brien
  • Gênero: Terror / Comédia Ácida
  • Duração: 114 minutos
  • Onde Assistir: disponível para aluguel