Dia D: o novo evangelho de Steven Spielberg

Steven Spielberg sempre foi um cineasta que declarou sua fé e sua esperança na humanidade, mesmo em seus momentos cinematográficos mais cínicos, cruéis ou críticos. Em sua vasta carreira, a presença de uma assinatura humanista na tela é imediata. Em Dia D, essa visão otimista ganha contornos ainda mais nítidos, estabelecendo quase uma espécie de resistência narrativa contra tudo aquilo que tenta minar a nossa fé no coletivo.

Este novo trabalho funciona como uma cria direta de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, o clássico de 1977 que moldou a forma como o cinema passou a enxergar a vida extraterrestre. Enquanto o longa da década de 1970 focava, de certa forma, no deslumbramento individual e restrito a um pequeno grupo, a nova obra expande esse escopo para um fenômeno global que promete alterar drasticamente a percepção geopolítica, social e existencial da Terra e de todo o universo.

Este é o quarto grande projeto de Spielberg a abordar a temática alienígena, sucedendo o próprio Contatos Imediatos, o lúdico E.T.: O Extraterrestre e o apocalíptico Guerra dos Mundos. O filme herda de 1977 a premissa de que certas pessoas são escolhidas para carregar e transmitir a verdadeira mensagem cósmica. Spielberg trabalha aqui esse conceito sob um viés quase religioso, transformando seus protagonistas em autênticos arautos de um novo evangelho para a posteridade, algo que claramente exige uma dose de boa vontade dos espectadores mais céticos.

A trama inicia-se já em ritmo acelerado, jogando o espectador diretamente na ação. Conhecemos Daniel Kellner, interpretado por Josh O’Connor, um especialista em cibersegurança que trabalhou anos em uma agência extragovernamental chamada Wardex, organização responsável por ocultar a verdade sobre os alienígenas há quase um século. Daniel foge carregando não apenas um artefato tecnológico desconhecido, mas também as provas documentais dessa ocultação de noventa anos, passando a ser caçado implacavelmente pelo chefe da agência, Noah Scanlon, papel defendido com a habitual sobriedade por Colin Firth. Scanlon justifica a sua busca obstinada por acreditar piamente que a sociedade não possui maturidade psicológica ou estrutura social para suportar o peso de toda a verdade.

O destino de Daniel eventualmente cruza o caminho de Margaret Fairchild, vivida por Emily Blunt. Margaret é uma apresentadora de televisão, a conhecida garota do tempo, que, de forma abrupta, passa a manifestar um comportamento intrigante, desenvolvendo a capacidade de compreender diversas línguas e de acessar os pensamentos e as maiores dores das pessoas ao seu redor, além de falar em um dialeto desconhecido. É por meio dessa intrigante condição que Spielberg estabelece o núcleo psicológico e a tese de sua obra. Para o diretor, o grande diferencial da humanidade e a sua derradeira chance de salvação residem na empatia, na habilidade de nos enxergarmos no próximo e de reconhecermos as nossas próprias fortalezas e fraquezas.

A partir desse encontro, o longa assume a característica dinâmica de aventura que consagrou o diretor, pontuada por sequências de ação plasticamente brilhantes, a exemplo do momento em que o veículo dos protagonistas é arremessado violentamente contra um trem em movimento. O elenco surge como um dos pilares de sustentação do projeto. Josh O’Connor confirma seu espaço como um dos grandes talentos de sua geração, enquanto Emily Blunt entrega uma das grandes atuações do ano, ilustrando com precisão o peso psicológico e a responsabilidade de uma mulher que, aos poucos, rememora momentos traumáticos do seu passado e descobre sua importância para o futuro do planeta.

No suporte dramático, Colman Domingo brilha como um ex-agente que abandonou a Wardex por conflitos éticos, funcionando como a bússola moral da narrativa. Eve Hewson complementa o panorama interpretando a namorada de Daniel, uma ex-freira que serve aqui como os olhos do público na história, trazendo à tona o debate essencial sobre como as religiões tradicionais e a fé institucionalizada absorveriam o impacto dessa revelação.

Apesar da potência temática, o roteiro assinado por David Koepp, baseado na história original de Spielberg, demonstra fragilidades estruturais ao tentar equilibrar tantos pratos. A narrativa se desenvolve em meio à iminência de uma Terceira Guerra Mundial e conspirações que ecoam o formato clássico de Arquivo X, mas os debates e dilemas morais, sociais e religiosos acabam recebendo um tratamento superficial. Diversos diálogos que deveriam aprofundar essas questões soam rasos, e Koepp recorre a frequentes conveniências de roteiro para mover a engrenagem da história, principalmente no que diz respeito aos poderes do tal artefato alienígena, que parecem variar de intensidade e poder conforme as necessidades imediatas da cena.

O filme se sustenta e se impõe pelo gigantismo de seu diretor. É admirável notar como Steven Spielberg realiza um verdadeiro apanhado de sua própria cinematografia, injetando uma vitalidade criativa que suprime as falhas do texto. Sua condução é tão precisa que compramos com facilidade as situações mais inverossímeis apresentadas. O diretor conta novamente com seus colaboradores habituais. Janusz Kamiński entrega um de seus melhores trabalhos recentes na direção de fotografia, utilizando luzes estouradas e contraluzes marcantes que amplificam tanto a atmosfera religiosa do filme como a ameaça institucional. A trilha sonora de John Williams, por sua vez, adota uma postura sutil e contida, porém rigorosamente eficiente na construção do mistério.

Na aproximação do clímax, as subtramas eventualmente convergem para uma catarse coletiva que evoca a grandiosidade final de Contatos Imediatos, mas agora expandida para uma escala global. Mesmo nos momentos em que ameaça flertar com a verborragia ou com um sentimentalismo excessivo, prevalece no filme a convicção de um cineasta que sabe como conduzir o espectador, manipulando o ritmo técnico com maestria. O tradicional rosto de Spielberg, o plano fechado que capta o olhar maravilhado e hipnotizado dos personagens diante do extraordinário, encontra sua síntese na reação final de uma jornalista âncora de TV (a atriz e ex-apresentadora Courtney Grace) que, ao testemunhar os desdobramentos, traduz com perfeição o horror e o fascínio diante de um mundo irremediavelmente transformado.

Ao fechar as cortinas, percebe-se que Spielberg repete com o espectador o mesmo movimento que a tal revelação executa com a humanidade. Ele não se preocupa em mastigar as respostas ou em ditar os rumos do amanhã, mas sim em nos fazer testemunhas de algo monumental. O diretor joga essa imensa revelação diretamente no colo do público e se retira de cena, deixando claro que a obra agora pertence a quem a assiste.

Da mesma forma que os governos e os cidadãos da história precisam digerir o fato de que nunca estivemos sozinhos, nós saímos da sala de cinema instigados a confrontar o nosso próprio reflexo. O filme se encerra não como um ponto final, mas como um teste de maturidade coletiva, deixando o aviso latente de que o conhecimento foi entregue e, a partir de agora, o que faremos com essa informação é o que irá definir o nosso destino.


DIA D (DISCLOSURE DAY)

  • Direção: Steven Spielberg
  • Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Colman Domingo, Eve Hewson
  • Gênero: Ficção Científica / Suspense
  • Duração: 145 minutos
  • Onde Assistir: Disponível nos cinemas

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