NOTA: ★★★★½
Ainda que tenham pavimentado a carreira na comédia, com a inventividade visual de Tá Chovendo Hambúrguer e a subversão narrativa de Uma Aventura LEGO, Phil Lord e Christopher Miller sempre demonstraram um olhar astuto sobre os clichês que estruturam os gêneros cinematográficos – algo que ficou muito claro em sua adaptação para o cinema de Anjos da Lei.
Em Devoradores de Estrelas, a dupla adapta a obra de Andy Weir – que já havia rendido o excelente Perdido em Marte, de Ridley Scott – para entregar uma ficção científica de primeiríssima qualidade. O filme surge em um momento em que o gênero parece oscilar entre o niilismo contemplativo de Ad Astra e a grandiosidade teórica de Interestelar, mas Lord e Miller preferem o caminho da inteligência emocional, criando uma obra que satisfaz tanto o intelecto quanto o coração, funcionando como uma experiência sensorial e humanista rara de se encontrar nas superproduções atuais – e sem o pedantismo do tipo ‘você precisa conhecer de física quântica para compreender a profundidade desta obra‘.
As duas adaptações de Weir guardam similaridades ao explorarem o isolamento extremo. Enquanto o personagem de Matt Damon, porém, lutava pela manutenção técnica da sua vida, aqui acompanhamos um homem que acorda desmemoriado em uma nave, cercado por colegas mortos, sem saber muito o que fazer neste cenário tenebroso.

Ryan Gosling vive Ryland Grace, um professor transformado em astronauta que, aos poucos, recorda-se de sua missão desesperada: encontrar a solução para um fenômeno que está consumindo todas as estrelas do universo. Gosling, que já havia flertado com o gênero no subestimado O Primeiro Homem e no estonteante Blade Runner 2049, aqui abandona o estoicismo de outrora para abraçar uma vulnerabilidade palpável, fugindo do estereótipo do herói destemido para dar lugar a um homem comum diante do inevitável.
O grande trunfo narrativo ocorre quando o isolamento de Grace é interrompido por seu encontro com Rocky, uma criatura alienígena em forma de rocha que compartilha do mesmo objetivo e da mesma solidão. A partir desse ponto, o longa se transforma em um inusitado buddy movie espacial, no qual a comunicação e a ciência tornam-se pontes para uma amizade que transcende a biologia.
O trabalho de voz de James Ortiz para Rocky é notável, conferindo personalidade a um ser tão distante da fisionomia humana, mas tão próximo em suas motivações e dores. É fascinante perceber como o roteiro de Drew Goddard utiliza a ciência não como obstáculo, mas como a linguagem comum que une essas duas civilizações em colapso.

No contraponto terrestre, Sandra Hüller entrega uma performance pragmática e compassiva como Eva Stratt, a chefe da missão. Vinda de papéis densos e premiados como em Anatomia de uma Queda e Zona de Interesse, Hüller traz o peso da responsabilidade moral para a trama, personificando a urgência de um sacrifício necessário. Uma das melhores sequências do filme, aliás, envolve justamente esse contraste: o momento de integração da equipe antes do lançamento, um respiro de humanidade antes que a vastidão do vácuo sideral engula qualquer chance de retorno. A atriz consegue, com poucos gestos, transmitir a autoridade de quem está ali para decidir o destino de bilhões de pessoas.
Visualmente, a produção investe em uma estética que curiosamente se torna mais claustrofóbica nos flashbacks na Terra do que no próprio espaço, enfatizando que o verdadeiro confinamento é a falta de esperança. Lord e Miller utilizam a montagem de forma ágil para reconstruir o quebra-cabeça da memória de Grace, mantendo o espectador engajado na descoberta científica sem perder o ritmo da aventura. Ao contrário de outras ficções recentes que apostam em cenários de destruição em massa, o foco aqui é bem mais íntimo, mas sem deixar de ser épico em sua essência: reside na forma como o indivíduo lida com situações extremas e na ética das decisões tomadas sob a pressão absoluta.
O filme não teme o sentimentalismo, especialmente em seu terço final, mas o faz de forma orgânica, justificando cada nota emocional pela força do vínculo estabelecido entre os protagonistas. A amizade entre Grace e Rocky é o motor que move a trama para além das fórmulas de sobrevivência, transformando o que poderia ser apenas mais um filme de homem perdido no espaço em uma jornada de redenção e altruísmo – sem a breguice que estes termos possam evocar. É um alento ver uma obra que utiliza o rigor científico para validar a empatia, provando que a lógica e o afeto não são forças excludentes, mas sim complementares na luta pela preservação da vida.

Devoradores de Estrelas é uma aventura luminosa, inteligente e profundamente necessária em tempos tão cínicos. Ao final, o que fica não é apenas a maravilha visual das estrelas, mas a beleza do abraço entre dois seres que se recusaram a deixar o universo apagar. É, sem dúvida, um dos pontos altos da ficção científica desta década, conseguindo o feito de ser um feel good movie sem jamais subestimar a gravidade do seu tema. Uma obra essencial para quem ainda acredita que a curiosidade e o companheirismo são nossas melhores defesas contra a escuridão.
DEVORADORES DE ESTRELAS
- Direção: Phil Lord e Chris Miller
- Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz (voz)
- Gênero: Ficção Científica / Drama
- Duração: 160 minutos
- Onde Assistir: Cinemas e breve no streaming.
