Da obra-prima de Brian De Palma às adaptações que tentaram atualizar o horror de Stephen King, uma retrospectiva de Carrie White e de sua trajetória no cinema e na televisão.
Há histórias que continuam assustando porque, por trás do horror, existe algo muito mais perturbador do que qualquer manifestação sobrenatural. Carrie, primeiro romance publicado por Stephen King, é uma delas. A história de uma adolescente submetida ao fanatismo religioso da mãe e à crueldade dos colegas de escola transformou-se em um dos retratos mais contundentes da violência psicológica e da exclusão social.
É justamente essa combinação que torna a história tão atraente para novas adaptações. Afinal, cada geração encontra maneiras diferentes de rejeitar aqueles que considera inadequados. E poucas personagens representam tão bem as consequências dessa rejeição quanto Carrie.
A estreia da nova adaptação de Carrie, prevista para 7 de outubro de 2026, marca o retorno de Mike Flanagan ao universo de Stephen King. Desta vez, porém, o cineasta não está interessado em simplesmente refilmar o clássico de Brian De Palma. A proposta é transformar o romance em uma série de oito episódios, explorando com mais profundidade a trajetória da personagem e os acontecimentos que antecedem sua transformação em uma figura de terror.

A escolha de Flanagan é particularmente interessante porque o cineasta construiu boa parte de sua reputação justamente ao demonstrar que o horror funciona melhor quando está conectado a conflitos humanos. Seus monstros raramente existem apenas para assustar. Eles costumam representar traumas, culpas, ressentimentos e relações familiares que já estavam profundamente deterioradas antes mesmo de qualquer manifestação sobrenatural – como tão bem apresentado em Maldição da Residência Hill e Missa da Meia-Noite
A relação de Flanagan com Stephen King não começou agora. O diretor já havia adaptado Jogo Perigoso (2017) e Doutor Sono (2019), demonstrando uma capacidade particular de compreender a dimensão psicológica dos personagens do escritor. Em Doutor Sono, por exemplo, o terror sobrenatural está diretamente relacionado ao alcoolismo, ao trauma e à tentativa de interromper um ciclo de violência. No ano passado, com o belíssimo A Vida de Chuck, Flanagan mostrou como é possível unir lirismo a uma realidade fantástica e, por vezes, apavorante. Se há alguém que entende como adaptar King, este é Flanagan.
Carrie White: quatro versões de uma mesma tragédia
Antes da chegada da nova série, vale revisitar as adaptações anteriores do romance. Quatro produções, quatro abordagens e resultados bastante diferentes. A primeira delas, dirigida por Brian De Palma em 1976, permanece como referência incontornável. As demais tentaram atualizar, reinterpretar ou simplesmente reproduzir a história, mas nem todas compreenderam o que torna Carrie uma personagem tão perturbadora.
1976 | Carrie, a Estranha | Direção: Brian De Palma
Nesta obra-prima de Brian De Palma, Carrie é uma personagem absurdamente trágica. O diretor constrói sua trajetória a partir de uma estrutura de repressão sexual, culpa e fanatismo religioso. Poderia ser apenas a história da garota estranha que vai ao baile com o bonitão da escola. Mas aqui não existe redenção. Para ninguém. Talvez o único autêntico seja Tommy Ross, que enxerga a pessoa doce por trás da garota rejeitada.

O que torna o filme tão poderoso é justamente a maneira como De Palma transforma uma narrativa aparentemente simples em uma tragédia sobre a incapacidade humana de reconhecer o sofrimento alheio. Carrie não é apenas vítima de um grupo de adolescentes cruéis. Ela também é prisioneira de uma estrutura familiar que a ensina a enxergar o próprio corpo como algo sujo e pecaminoso. A violência que sofre na escola encontra um complemento perverso na violência psicológica praticada dentro de casa.
E temos Margaret White, em uma atuação over-the-top de Piper Laurie, contraponto perfeito à Carrie introvertida de Sissy Spacek. De Palma transforma a repressão religiosa e sexual em puro simbolismo e prepara o terreno para o baile, numa das sequências mais tensas e cruéis do cinema. Um retrato ácido e tristemente atual do pior da humanidade e da juventude, com direito a um susto final antológico. Lindo e muito triste.
De Palma compreende que o horror da história não está apenas na destruição provocada pelos poderes de Carrie, mas na percepção de que tudo aquilo poderia ter sido evitado. A tragédia não nasce de uma força sobrenatural imprevisível. Ela é construída lentamente por pessoas que preferem humilhar, controlar e punir uma adolescente em vez de tentar compreendê-la.
E é por isso que o filme continua tão devastador. Carrie não encontra redenção porque o mundo que a cerca não lhe oferece uma saída verdadeira. O sangue do baile não apaga os anos de sofrimento. Apenas revela, de maneira brutal, o que acontece quando a violência acumulada finalmente encontra uma forma de se manifestar.
1999 | A Maldição de Carrie | Direção: Katt Shea
Não chega aos pés do filme de 1976, mas é menos pior do que esperava. Basicamente uma releitura do original, o filme tem aquela vibe típica dos anos 90, na qual a protagonista é “esquisita” por ser gótica e ter uma tatuagem. A boa atuação de Emily Bergl quase que compensa o excesso de subtramas desnecessárias (a protagonista ser meia-irmã de Carrie é bizarro) e algumas escolhas estéticas e narrativas bem questionáveis. Não é ruim, mas é bem desnecessário.

A protagonista, interpretada por Emily Bergl, é uma jovem que precisa lidar com o legado de uma tragédia que continua repercutindo em sua vida. O problema é que essa abordagem acaba diluindo aquilo que tornava a personagem original tão perturbadora.
A tentativa de transformar a história em uma espécie de continuação também gera algumas das escolhas mais questionáveis da produção. A inclusão de uma protagonista que seria meia-irmã de Carrie, por exemplo, parece uma solução criada apenas para justificar a existência do filme. Em vez de aprofundar as consequências da tragédia original, a narrativa se perde em subtramas que pouco acrescentam à discussão sobre repressão, violência e exclusão. O retorno da personagem Sue Snell [papel de Amy Irving] chega a ser constrangedora, principalmente pelo destino absolutamente ingrato dado a esta figura.
A produção também sofre com escolhas estéticas e narrativas que envelheceram de maneira pouco favorável, como diversas cenas em preto e branco colocadas de forma meio aleatória. A atmosfera típica dos anos 90 não seria necessariamente um problema, caso estivesse a serviço de uma interpretação realmente nova da história. O que incomoda é a impressão de que o filme acredita estar atualizando Carrie simplesmente por trocar alguns elementos de sua caracterização.

No fim, A Maldição de Carrie não chega a ser uma experiência desastrosa. Existe algum mérito na atuação de Bergl e na tentativa de explorar o legado da personagem, mas a produção não encontra uma justificativa convincente para sua própria existência. É uma releitura que não acrescenta muito ao original e que, ao tentar expandir sua mitologia, acaba tornando mais confuso aquilo que antes era tão dolorosamente simples.
2002 | Carrie, a Estranha | Direção: David Carson
É provavelmente a adaptação mais fiel do livro de King, mesmo que sua conclusão force uma redenção forçada que basicamente despreza o pessimismo da obra. Essa versão televisiva sofre com uma direção sem personalidade, que basicamente joga os eventos na tela sem a menor emoção, péssimas atuações e efeitos visuais beeem fraquinhos. Angela Bettis até que funciona, mesmo que navegando perigosamente no estereótipo clássico da introspecção exagerada.

A produção procura preservar a estrutura narrativa do livro e recuperar elementos que acabaram ficando de fora do filme de De Palma. Em tese, essa abordagem permitiria uma investigação mais completa da trajetória de Carrie, especialmente no que diz respeito à maneira como a violência e a exclusão social contribuem para sua transformação.
O problema é que fidelidade não significa necessariamente compreensão. O filme parece tão preocupado em reproduzir os acontecimentos do romance que acaba negligenciando a construção de uma atmosfera capaz de transmitir o sofrimento da protagonista. Os eventos estão todos ali, mas falta uma direção que lhes confira peso emocional. É como se a produção acreditasse que a própria história fosse suficiente para provocar o impacto desejado.
Angela Bettis é um dos poucos elementos que funcionam. Sua interpretação procura transmitir o desconforto de uma jovem que não consegue estabelecer uma relação saudável com o próprio corpo e com o mundo ao seu redor. Existe uma vulnerabilidade interessante em sua Carrie, embora a atriz frequentemente se aproxime de um estereótipo de introspecção tão exagerado que a personagem acaba parecendo distante, quase inacessível.

Os efeitos visuais também não ajudam. Em uma história na qual os poderes telecinéticos representam a exteriorização de conflitos emocionais, a fragilidade dos recursos técnicos compromete justamente os momentos em que o fantástico deveria adquirir maior força simbólica. O resultado é uma produção que parece incapaz de transformar seus elementos sobrenaturais em algo verdadeiramente perturbador.
Mas a maior decepção está na conclusão. Ao tentar oferecer uma espécie de redenção à personagem, o filme enfraquece o pessimismo que torna o romance tão contundente. A tragédia de Carrie não está apenas no fato de ela ser vítima da crueldade alheia, mas na percepção de que essa violência destrói qualquer possibilidade de reconstrução. Ao suavizar essa dimensão, a adaptação parece querer confortar o espectador justamente quando deveria confrontá-lo com as consequências irreversíveis da intolerância.
2013 | Carrie, a Estranha | Direção: Kimberly Peirce
Apesar dos talentos envolvidos, essa aqui é a versão mais decepcionante de todas, mesmo com um orçamento generoso e um conhecimento de causa da diretora Kimberly Peirce. O filme só funciona quando copia descaradamente o original de Brian De Palma. No restante, temos uma desencontrada salada de X-Men: Primeira Classe com Garotas Malvadas, com a pobre da Chloë Grace Moretz fazendo um cosplay de Jean Grey e uma direção incapaz de criar o mínimo de emoção.

O principal problema está na tentativa de atualizar a narrativa por meio de elementos que parecem pertencer a universos cinematográficos completamente diferentes. Em vez de aprofundar a relação entre repressão religiosa, sexualidade e exclusão social, o filme frequentemente se aproxima de uma fantasia adolescente sobre uma jovem que descobre possuir poderes extraordinários. A comparação com X-Men: Primeira Classe não é gratuita: Carrie acaba sendo apresentada como alguém que precisa aprender a controlar uma habilidade especial, quase como se estivesse em uma jornada de descoberta de seus próprios superpoderes.
Essa abordagem enfraquece a dimensão trágica da personagem. O que torna Carrie perturbadora não é simplesmente a existência de seus poderes, mas a maneira como eles se relacionam com uma vida inteira de humilhação e repressão. Quando a narrativa privilegia o espetáculo, perde-se a conexão entre o sofrimento psicológico da protagonista e a violência que ela acaba provocando.

A direção de Peirce também não encontra o tom adequado para a história. O filme parece acreditar que a simples reprodução de situações conhecidas será suficiente para despertar a mesma emoção do original. É justamente por isso que seus melhores momentos são aqueles em que a narrativa se aproxima descaradamente da versão de De Palma. Quando tenta estabelecer uma identidade própria, a produção frequentemente se perde em escolhas estéticas e narrativas que parecem desconectadas da tragédia que deveria estar contando.
No fim, Carrie, a Estranha é uma oportunidade desperdiçada. A produção possui recursos, elenco e uma diretora que parecia especialmente adequada para explorar a história, mas acaba oferecendo uma versão que confunde atualização com modernização superficial. Ao transformar Carrie em uma espécie de super-heroína adolescente incompreendida, o filme perde de vista a tragédia de uma garota que nunca teve a oportunidade de descobrir quem poderia ser fora do ambiente de violência que a aprisionava.
O que esperar da nova Carrie?
A chegada de Mike Flanagan ao universo de Carrie White abre uma possibilidade interessante para quem acompanha as adaptações de Stephen King. O cineasta possui experiência em histórias nas quais o horror nasce de conflitos familiares, traumas e relações de poder, e sua abordagem pode oferecer uma leitura particularmente adequada para uma personagem cuja tragédia está profundamente ligada à incapacidade dos adultos de protegê-la.
Mas existe um risco. Ao ampliar a narrativa para oito episódios, Flanagan precisará evitar que a história se torne excessivamente explicativa ou que a personagem perca a força trágica que a tornou tão marcante. O romance de King e o filme de De Palma demonstram que a história de Carrie funciona justamente por sua concisão – porque seus elementos se encaminham para uma conclusão inevitável, na qual a esperança e a destruição acabam se encontrando de maneira brutal.

No fim, o verdadeiro horror de Carrie nunca esteve no sangue que cai sobre sua cabeça. Está na facilidade com que as pessoas ao seu redor conseguem transformar uma adolescente em alvo de sua própria crueldade e, depois, agir como se não tivessem qualquer responsabilidade pelo que aconteceu.
É essa tragédia que faz de Carrie uma personagem tão dolorosamente atual. E é também o motivo pelo qual, quase cinquenta anos depois do filme de De Palma, ainda existe algo a ser contado sobre a garota que nunca conseguiu escapar do próprio sangue.
E você, está animado para esta nova versão de Carrie? Conte aqui nos comentários.
