Bailarinas vs. Mafiosos: a dança mortal de Lindas e Letais

NOTA: ★★★½

Às vezes, tudo o que você realmente precisa na vida é de um grupo de bailarinas clássicas descendo a porrada em mafiosos do Leste Europeu.

Lindas e Letais, dirigido por Vicky Jewson e em cartaz no Prime Video, cumpre esse requisito com uma folga considerável ao se assumir como um entretenimento absolutamente descompromissado, ainda que tecnicamente mais competente do que a média das produções de ação genéricas que inundam o streaming atualmente.

Não se trata, evidentemente, de uma obra-prima de invenção narrativa. Pelo contrário, o roteiro é bastante formulaico – não falta sequer o clichê do filho idiota do chefão local cujas decisões equivocadas servem de estopim para a carnificina – e avança com uma pressa que por vezes atropela a sua própria lógica interna.

A trama nos coloca em um hotel suspeito gerenciado por Uma Thurman, que aqui capricha na canastrice consciente. Thurman, que já foi a musa máxima da vingança coreografada em Kill Bill, surge como uma ex-bailarina de perna mecânica – ainda que, dependendo da cena, ela esqueça de mancar – que tem contas antigas a acertar com o patriarca do crime.

O filme abraça sem pudores a estética do exploitation – aquele cinema que prioriza o choque, a violência gráfica e premissas absurdas em detrimento de orçamentos inflados ou roteiros densos. Se nos anos 1970 o gênero era marginal, hoje ele se veste de gala com a técnica apurada neste período pós-John Wick. A franquia de Keanu Reeves mudou o jogo da ação ao retomar a clareza visual e as coreografias de dublês que parecem dança, e é exatamente essa a influência que sentimos aqui.

O longa ganha vida quando as jovens protagonistas se veem obrigadas a transformar o rigor técnico de sua arte em ferramenta de sobrevivência. A partir do momento em que os estiletes são devidamente acoplados às sapatilhas, o filme abraça o conceito literal de ballet de violência que tanto celebrávamos no cinema de John Woo nos anos 1980 e 1990. A trilha sonora utiliza composições clássicas famosas para garantir que ninguém na plateia se sinta deslocado, criando um contraste interessante com o caos visual.

O grande momento da obra, quando as cinco garotas enfrentam cerca de trinta capangas e, previsivelmente, triunfam sobre todos eles, é filmado com uma energia contagiante que compensa as limitações do orçamento. Existe um prazer quase infantil em observar a precisão coreográfica sendo aplicada à destruição física de vilões unidimensionais, um recurso que a direção explora sem qualquer pretensão de realismo físico ou psicológico.

No fim das contas, embora a conclusão pareça um tanto abrupta e o filme pudesse ter se beneficiado de um respiro maior para fechar seus arcos, o resultado é uma diversão das mais curiosas dentro do gênero, justamente por assumir a sua completa falta de sentido.

Lindas e Letais entende que sua força reside justamente no absurdo de sua premissa e entrega exatamente a catarse coreografada que o título promete, terminando como um ótimo adendo a essa linhagem de filmes que priorizam o impacto da ação à sutileza do diálogo.


LINDAS E LETAIS

  • Direção: Vicky Jewson
  • Elenco: Avantika, Iris Apatow, Lana Condor, Lydia Leonard, Maddie Ziegler, Millicent Simmonds, Uma Thurman.
  • Gênero: Ação / Suspense
  • Duração: 95 minutos
  • Onde Assistir: Disponível no Prime Video

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