Avatar: entre o fogo da ação e as cinzas da repetição

NOTA: ★★★1/2

Existe algo de genuinamente fascinante e muito curioso no universo criado por James Cameron em Avatar. Trata-se de um cinema que aposta na experiência sensorial total, no impacto visual como linguagem primária e na ação concebida como movimento contínuo, quase coreográfico. Cameron sabe como poucos transformar a tela em um espaço de energia, peso e deslocamento. Ainda assim, há um paradoxo que se repete: estes filmes impressionam no momento, mas raramente permanecem por muito tempo na memória.

Avatar: Fogo e Cinzas retoma essa equação já conhecida. Assim como em Avatar: O Caminho da Água, o espectador é lançado em um espetáculo de imagens exuberantes e sequências de ação meticulosamente construídas, enquanto a trama avança por caminhos bastante familiares.

Aqui, estamos novamente diante de Jake Sully, interpretado por Sam Worthington, e de sua família, agora atravessada pelo luto da morte do filho mais velho. A dor, porém, não se converte em transformação narrativa profunda, mas em mais um motor para conflitos já conhecidos.

Jake segue enfrentando dilemas morais que orbitam a proteção da família e a liderança relutante. Essa tensão se intensifica com a presença de Spider, o jovem humano que carrega em si a memória incômoda do povo da Terra e de sua insistência em colonizar e explorar Pandora – e que causa em Neytiri (Zoe Saldana) os piores pensamentos intrusivos.

Cameron continua utilizando Avatar como uma crítica direta ao capitalismo exacerbado e ao colonialismo. Os humanos surgem mais uma vez como forças extrativistas, dispostas a devastar o planeta em nome do lucro e da expansão territorial. Não há sutileza nesse discurso. Pandora permanece como uma resposta clara às narrativas históricas de povos indígenas dizimados por colonizadores, em uma estrutura que ecoa histórias já muito conhecidas do cinema.

Essa falta de ambiguidade também se reflete nos personagens. Cameron não demonstra interesse em criar figuras dúbias ou moralmente conflituosas. Os vilões são muito maus, os mocinhos são muito mocinhos, e qualquer possibilidade de nuance é rapidamente descartada em favor da clareza narrativa. É um cinema de arquétipos, não de contradições.

Nesse cenário, temos mais uma vez o coronel Quaritch, vivido por Stephen Lang, ainda obcecado em capturar Jake e sua família. Desta vez, ele se alia a Varang, interpretada por Oona Chaplin, a exuberante líder de uma comunidade proscrita que vive de saques e ataques a mercadores. Varang é uma personagem assumidamente caricata, com gestos exagerados, presença teatral e diálogos que beiram o folhetim de um Walcyr Carrasco. Ela se move como se estivesse em um desfile permanente, fazendo com que cada mergulho seu seja um flash.

Curiosamente, é justamente Quaritch quem apresenta o arco mais interessante do filme. Aos poucos, ele passa a desenvolver um comportamento que espelha o próprio Jake do primeiro Avatar. Fascinado pela personalidade agressiva, destemida e sem remorsos de Varang, Quaritch começa a se comportar como um nativo do planeta, assumindo uma identidade que sempre fingiu rejeitar. Há algo de irônico nesse percurso, ainda que Cameron não explore suas implicações com maior profundidade.

O restante do filme segue o manual básico do cinema de ação. O filho sobrevivente que busca provar seu valor ao pai, o enfrentamento do luto, a necessidade de amadurecimento forçado. Kiri, interpretada por Sigourney Weaver como uma adolescente de 15 anos, cumpre o papel esperado ao revelar habilidades que se mostram decisivas para o desfecho, reforçando a dimensão espiritual que permeia a mitologia da saga.

Estruturalmente, Avatar: Fogo e Cinzas não amplia de forma significativa o universo já estabelecido, apesar de trazer alguns pontos curiosos, como as imensas matriarcas que vivem no mar e suas marcas tribais. A principal novidade é o reino do povo das cinzas, um deserto árido habitado por uma cultura mais ritualística e menos espiritualizada do que os demais Na’vi. Essa escolha é interessante por mostrar que nem todos os habitantes de Pandora são good vibes com a natureza ou compartilham a mesma visão de mundo, ainda que essa diferença também seja pouco aprofundada.

Quando chega a hora da ação, James Cameron reafirma sua maestria absoluta no gênero. Das primeiras investidas de Varang contra os mercadores do ar até a longa sequência final, o diretor constrói cenas que privilegiam a clareza espacial e o impacto físico. A montagem evita o caos fragmentado do cinema de ação contemporâneo e permite que cada movimento seja sentido, criando uma sensação de peso e gravidade raramente alcançada.

O problema surge quando a narrativa avança para seu clímax. A repetição, que até então se insinuava de maneira discreta, torna-se impossível de ignorar. As engrenagens do filme passam a operar no automático, acionando imagens e situações que o espectador reconhece instantaneamente. O impacto visual permanece, mas a surpresa se esvai, substituída por uma sensação de familiaridade excessiva.

Jake montado novamente no Toruk Makto, o chamado às tribos aliadas, a sensação de derrota iminente que antecede a virada, a intervenção de Eywa no momento decisivo, o sequestro dos filhos e o inevitável resgate dentro de um navio de guerra. Não se trata apenas do uso de uma estrutura clássica do cinema de ação, mas da reutilização quase literal de cenários, conflitos e soluções dramáticas que já haviam sido exploradas anteriormente, muitas vezes com enquadramentos e ritmos semelhantes.

Ainda assim, Avatar: Fogo e Cinzas consegue se sair ligeiramente melhor do que seu filme anterior. O ritmo menos truncado e a progressão narrativa mais fluida fazem com que a experiência seja mais envolvente, mesmo quando se apoia demais em coincidências e conveniências para seguir adiante. Cameron mantém o controle do espetáculo e sabe exatamente quando acelerar, quando pausar e quando lançar mão da grandiosidade visual.

A sensação de déjà-vu é inevitável, mas não chega a anular a força do filme como experiência cinematográfica. Cameron entrega mais uma aventura grandiosa, pensada para ser vivida no cinema, na maior tela possível, com som alto e imagens que ocupam todo o campo de visão. Resta ao espectador a impressão de já ter percorrido esse caminho antes, caminhando mais uma vez entre o fogo da ação e as cinzas da repetição.


Avatar: Fogo e Cinzas
Direção: James Cameron
Ano de Produção: 2025
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldaña, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Oona Chaplin, Jack Champion
Duração: 3h17


E aí, o que achou do novo Avatar? Conta aqui pra gente. Se quiser ver mais críticas como essa, confira aqui o meu perfil no Facebook ou no aqui no Letterbox.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google
Voltar ao topo
O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Ao comentar na Tribuna você aceita automaticamente as Política de Privacidade e Termos de Uso da Tribuna e da Plataforma Facebook. Os usuários também podem denunciar comentários que desrespeitem os termos de uso usando as ferramentas da plataforma Facebook.