NOTA: ★ ★ ★ ★
Goste-se ou não de Christopher Nolan, o fato incontestável é que suas produções se transformaram em autênticos fenômenos midiáticos e eventos culturais inescapáveis, para o bem ou para o mal. Desde a trilogia que redefiniu o Cavaleiro das Trevas em uma abordagem mais naturalista até o triunfo recente de Oppenheimer, o diretor britânico consolidou uma assinatura marcada pela grandiosidade técnica e pela obsessão formal. Ao voltar seus olhos para o texto clássico de Homero, Nolan não realiza uma adaptação reverente ou acadêmica. O cineasta subverte a epopeia que estabeleceu a literatura ocidental para transformá-la em um drama psicológico claustrofóbico com toques de horror em mais de um sentido, sintonizado com a decadência e com a amargura típicas de um olhar contemporâneo.
Essa transição para o terreno do mito grego é o desdobramento lógico de uma carreira inteiramente dedicada ao estudo das obsessões humanas e da maleabilidade do tempo. Christopher Nolan estreou no final dos anos noventa com o minimalista Following, mas foi com a estrutura reversa de Amnésia que ele estabeleceu seu interesse por mentes fragmentadas e memórias corrompidas. O sucesso comercial permitiu que o diretor trouxesse essa mesma angústia psicológica para o cinema de grande escala. A trilogia Batman retirou o vigilantismo dos quadrinhos e o jogou em um realismo cínico, focado no trauma, enquanto o aclamado A Origem transformou o subconsciente em uma arquitetura literal de culpa e luto.
Nos anos seguintes, a ambição do realizador expandiu-se para além dos limites terrestres. No irregular Interestelar, os paradoxos temporais serviram de pano de fundo para uma separação familiar e discussões intermináveis sobre a força do amor, enquanto Dunkirk abandonou os diálogos tradicionais para construir um ensaio tenso sobre a urgência da sobrevivência na Segunda Guerra Mundial.
O ápice dessa trajetória se deu em Oppenheimer, no qual a montagem expôs a mente fraturada do criador da bomba atômica. A Odisseia surge, portanto, quase como o fechamento desse arco temático. É o retorno do diretor ao ponto de partida da própria narrativa humana, investigando a figura do homem que acredita poder moldar o seu destino, mas acaba esmagado pelas engrenagens de suas escolhas.
Na visão de Nolan, o Odisseu interpretado por Matt Damon está desprovido de qualquer verniz de heroísmo mitológico ou bravura inabalável. O que temos na tela é o retrato desolador de um veterano de guerra que compreende perfeitamente o preço de suas ações expansionistas.
Seus tormentos não emanam somente da ira de Poseidon ou de entidades divinas tradicionais, mas sim dos rostos desfigurados de seus companheiros mortos e das vítimas inocentes do massacre de Tróia. O diretor estabelece um protagonista consciente de que habita um mundo em ruínas, no qual as regras fundamentais da civilização foram irremediavelmente fraturadas pela barbárie bélica.
Esse olhar antibelicista encontra sua força em paralelos cortantes com a nossa própria realidade histórica e social. A figura de Agamenon, defendida com frieza por um Benny Safdie irreconhecível, transforma-se no arquétipo do líder político contemporâneo que se mantém intocado e distante das trincheiras, enviando exércitos para a morte sem jamais sujar as próprias mãos.
A tradicional montagem não-linear de Nolan, que costuma alternar tempos e espaços, numa mescla de virtuosismo e exibição, atinge aqui sua melhor resolução dramática. Como a própria obra de Homero é constituída por relatos orais que traçam perfis psicológicos e narram momentos específicos, o filme se estrutura como um quebra-cabeças que anula o caráter puramente episódico da jornada original.
A Guerra de Troia, curiosamente, nunca ocupa o centro da narrativa, mas está por ali o tempo todo. Nolan a trata como um imenso flashback que retorna em fragmentos, como lembranças traumáticas incapazes de permanecer enterradas. Essa escolha não apenas preserva a estrutura da obra de Homero, mas transforma o conflito no verdadeiro motor psicológico da jornada de Odisseu. É naquele campo devastado que ele compreende a absoluta inutilidade da guerra, percebendo que o massacre de milhares de homens jamais foi movido por honra ou paixão, mas por interesses políticos, comerciais e pela vaidade de reis incapazes de admitir seus próprios fracassos.
Nesse contexto, a breve, porém decisiva, participação de Lupita Nyong’o como Helena adquire enorme peso dramático. Longe da figura mítica que teria provocado um conflito por amor, sua Helena carrega a consciência dolorosa de que a guerra travada em seu nome sempre foi uma falácia conveniente. Seu olhar revela que tanto ela quanto vencedores e derrotados foram vítimas de uma engrenagem muito maior, pagando um preço humano impossível de justificar. É nesse momento que o filme abandona definitivamente qualquer romantização do mito e assume seu discurso mais contundente contra a violência e contra as narrativas que historicamente procuram legitimá-la. Vale cita aqui a ótima participação de Jon Bernthal como Menelau, que traz ao filme uma energia das mais interessantes.
E ainda que não fuja da recriação de figuras e situações fantasiosas, Nolan toma uma decisão criativa que, à primeira vista, pode parecer controversa, mas se revela absolutamente coerente com sua trajetória como cineasta: deixa os deuses à margem da narrativa. Não porque negue sua existência dentro daquele universo mitológico, mas porque compreende que sua presença física, como personagens que caminham entre os homens e interferem diretamente em seus destinos, romperia o naturalismo que sustenta toda a encenação.
Em vez de transformar Zeus, Poseidon ou Atena em figuras antropomórficas que surgem em cena para mover os acontecimentos, o diretor os converte em forças inevitáveis, quase como manifestações da própria natureza ou da consciência humana. O castigo divino deixa de ser uma punição arbitrária para assumir o aspecto de uma consequência inevitável das escolhas de homens que desafiam não apenas os deuses, mas as próprias estruturas morais, políticas e sociais que organizaram o seu mundo.
É justamente nessa liberdade criativa que reside outro aspecto frequentemente incompreendido das adaptações cinematográficas. As escolhas de Nolan de alterar acontecimentos, condensar episódios, eliminar personagens, ressignificar eventos ou deslocar seus significados não representam uma afronta ao poema de Homero, mas o funcionamento mais elementar de qualquer adaptação artística.
Nenhuma obra atravessa três milênios sem ser reinterpretada. Toda adaptação nasce inevitavelmente do seu próprio tempo — do seu zeitgeist —, refletindo as inquietações, os valores e as tensões da sociedade que a produz. Soma-se a isso a visão de mundo do cineasta, suas obsessões temáticas, suas escolhas narrativas e sua linguagem visual. Exigir que um filme do século XXI reproduza com fidelidade absoluta um poema concebido em um contexto social, religioso e político completamente distinto não é um exercício de respeito ao clássico, mas de um purismo estéril que ignora a própria natureza da arte.
Os grandes textos sobrevivem justamente porque aceitam novos olhares, novas leituras e até mesmo interpretações que desafiam seus pressupostos originais. Se a Odisseia continua viva depois de três mil anos, é porque nunca deixou de ser recontada. Nolan apenas oferece mais uma dessas leituras – profundamente contemporânea, marcada por seu pessimismo, seu humanismo e sua desconfiança em relação aos mitos heroicos -, lembrando que adaptar um clássico nunca significou copiá-lo, mas dialogar com ele.
Desta forma, assim como Oppenheimer foi consumido pela criação da bomba atômica, ou como Bruce Wayne foi aprisionado por seu trauma em Batman Begins, este Odisseu é perseguido muito mais pelos fantasmas que ele mesmo criou do que pela ira de uma divindade vingativa. O sobrenatural existe, mas funciona como linguagem simbólica para traduzir sentimentos profundamente humanos. A tempestade enviada por Poseidon, por exemplo, deixa de ser apenas uma manifestação da fúria divina para representar um universo inteiro que parece rejeitar o protagonista e lembrá-lo, a cada instante, do preço de suas atitudes.
Não por acaso, a própria Atena, interpretada por Zendaya, jamais assume a função tradicional da deusa conselheira que acompanha o herói ao longo de sua jornada. Sua presença funciona muito mais como uma personificação da culpa, da memória e do trauma de Odisseu do que como uma entidade divina que realmente caminha ao seu lado. Ela surge nos momentos em que o protagonista confronta seus próprios fantasmas, como se fosse a materialização de sua consciência tentando conduzi-lo para um caminho de redenção. É uma solução elegante, que preserva o simbolismo da personagem sem romper o pacto de realismo psicológico que sustenta toda a narrativa.
Dentro dessa lógica, Nolan filma os encontros mitológicos sob a ótica do horror corporal e do expressionismo visual. A sequência do ciclope Polifemo é um vislumbre perturbador de brutalidade física, com um design que evoca diretamente Saturno devorando seus filhos, de Francisco de Goya. O trecho dedicado à feiticeira Circe (Samantha Morton) abandona completamente a sedução clássica em favor de uma atmosfera de deformação da carne e da identidade, dialogando com o horror corporal e trazendo ecos evidentes de A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki. O fantástico permanece presente, mas nunca como espetáculo gratuito. Cada criatura e cada situação extraordinária existem para revelar algo sobre o estado mental do protagonista, reforçando a ideia de que a verdadeira jornada de Odisseu acontece muito menos pelos mares da Grécia do que pelos territórios devastados de sua própria consciência.
O roteiro faz concessões evidentes à indústria ao higienizar a conduta moral do protagonista. Os guerreiros de Ítaca jamais são vistos cometendo os saques e os abusos descritos no poema antigo, estabelecendo uma integridade artificial para facilitar a empatia do público. As interações com Circe e com a Calipso de Charlize Theron são reduzidas a paradas burocráticas, esvaziadas de qualquer implicação erótica mais densa. É o Homero puritano exigido pelos grandes estúdios, uma escolha que, de certa forma, empobrece a complexidade mítica em troca de uma jornada de redenção mais palatável – compreensível, mas ainda uma escolha questionável.
O verdadeiro núcleo dramático reside na resistência e na resiliência doméstica em Ítaca. Anne Hathaway brilha ao interpretar uma Penélope cerebral e pragmática, perfeitamente ciente de que a integridade do reino está ruindo sob a insistência dos pretendentes liderados pelo asqueroso Antínoo de Robert Pattinson. Enquanto John Leguizamo oferece dignidade ao leal Emeu, o jovem Telêmaco de Tom Holland acaba prejudicado por um arco passivo e que, assim como Calipso, parece estar ali apenas para que outros lhe contem mais um pedaço da história. Ainda assim, toda essa tensão acumulada deságua em um terceiro ato sufocante, no qual a edição taquicardíaca e a espetacular trilha de Ludwig Göransson elevam a experiência sensorial a níveis quase insuportáveis durante a matança final.
No fim das contas, esta monumental adaptação de A Odisseia reafirma o talento de Nolan para orquestrar blockbusters milionários, mas sempre com um olhar mais intimista, quase um estudo psicológico. O longa-metragem funciona muito mais como uma autópsia da inutilidade da guerra e das marcas indeléveis do trauma do que como uma aventura de fantasia escapista.
A dolorosa sequência climática no Hades serve como o veredito definitivo da obra. Naquele limbo acinzentado, as noções humanas de glória militar e de boas ações se dissipam por completo, restando apenas o registro do sofrimento. Diante do colapso inevitável da civilidade, a única odisseia que realmente importa é a tentativa desesperada de retornar para casa e abraçar o que ainda resta de nossa própria humanidade.
A ODISSEIA
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan, baseado na obra de Homero
Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson, Zendaya, Lupita Nyong’o, Charlize Theron, Elliot Page, Mia Goth, Jon Bernthal, John Leguizamo, Samantha Morton, Ben Safdie
Duração: 2h50
Em cartaz nos cinemas.
