A Morte do Demônio: Em Chamas | O sangue continua jorrando. A criatividade também.

NOTA: ★ ★ ★1/2

Novo capítulo troca o humor anárquico dos filmes de Sam Raimi por um festival de gore criativo e prova que Evil Dead continua sendo uma das franquias mais consistentes do terror.

Desde o clássico de Sam Raimi, lançado em 1981, simplesmente não existe um filme ruim da saga Evil Dead. Uns são melhores do que outros, evidentemente, mas todos entendem perfeitamente qual é a proposta da série. A partir do remake dirigido por Fede Álvarez, em 2013, a franquia abandonou boa parte do humor anárquico que marcou a trilogia original para abraçar um horror muito mais físico, cruel e sanguinolento. A Morte do Demônio: A Ascensão, de Lee Cronin, consolidou essa mudança ao combinar litros de sangue com um drama familiar surpreendentemente pesado.

Em Chamas segue exatamente essa linha. Talvez não alcance a mesma eficiência do longa de 2023, mas continua sabendo muito bem onde está sua força: transformar mutilações, possessões e desmembramentos em um espetáculo de criatividade quase artesanal.

A história acompanha uma família que decide se reunir em uma casa abandonada no meio do mato para lidar com a morte do filho mais velho em um estranho acidente de carro. Sim, não faz o menor sentido reunir todo mundo justamente ali, mas filmes de Evil Dead nunca foram conhecidos por personagens particularmente inteligentes. O importante é que basta meia hora para ficar evidente que ninguém naquela família se suporta. O falecido era abusivo com a esposa, o pai reproduz exatamente o mesmo comportamento tóxico, a mãe despreza a nora, a avó já apresenta sinais claros de demência e sobra apenas a namorada do irmão mais novo como a única pessoa aparentemente equilibrada. Ou seja: obviamente ela tem enormes chances de ir de arrasta para cima antes de todo mundo.

Quando os espíritos demoníacos finalmente entram em cena, cada integrante da família passa, aos poucos, a se transformar em um deadite. Daí para frente o filme praticamente abandona qualquer pretensão dramática e mergulha de cabeça naquilo que a franquia sempre fez melhor: inventar novas maneiras de despedaçar corpos humanos.

Existe um subtexto sobre violência doméstica, relações familiares abusivas e traumas geracionais, mas ele nunca encontra o mesmo peso de A Ascensão. Na prática, funciona mais como uma desculpa para retardar a inevitável carnificina. E, sejamos sinceros, ninguém compra ingresso para assistir a um filme de Evil Dead esperando uma profunda reflexão sobre conflitos familiares. A plateia quer mesmo é ver deadites sendo liquidados da forma mais criativa possível.

É justamente aí que Sébastien Vaniček mostra por que chamou atenção com Infestação. O diretor não demonstra o menor receio de soar exagerado, incorreto ou simplesmente nojento. Crianças, idosos, cachorros… ninguém recebe tratamento especial. Vale absolutamente tudo. Há membros amputados, pele derretendo, cabeças esmagadas, olhos perfurados, cérebros explodindo e praticamente qualquer objeto doméstico imaginável sendo transformado em arma improvisada. Se você conseguir imaginar uma forma particularmente desagradável de matar alguém, há boas chances de ela aparecer aqui.

O mais interessante é que toda essa violência não serve apenas para chocar. Vaniček demonstra um apuro visual bastante acima da média. Os enquadramentos, os movimentos de câmera, os planos-sequência e a maneira como organiza o espaço revelam um diretor que entende que gore também pode ser filmado com criatividade. É um cinema que sabe exatamente onde posicionar a câmera para transformar cada mutilação em uma verdadeira set piece.

Há ainda uma brincadeira muito divertida com o famoso princípio da Arma de Chekhov. Se a câmera faz questão de destacar uma faca, um facão, um martelo, uma vela, um aparelho de barbear, um cortador de grama ou até uma perna mecânica… pode ter certeza de que aquilo vai atravessar alguém antes dos créditos finais. Nunca um filme levou tão ao pé da letra a ideia de que nenhum objeto apresentado em cena deve ficar sem função.

O ritmo também merece elogios. Depois da primeira possessão, Em Chamas praticamente não tira mais o pé do acelerador. Por outro lado, isso acaba impedindo qualquer construção mais elaborada de suspense. Em vez de provocar medo ou desconforto, o filme se transforma em um enorme trem-fantasma: uma sequência interminável de cenas cada vez mais absurdas que provoca muito mais risadas nervosas do que propriamente tensão. O que também não é problema.

A conclusão desperdiça a oportunidade de construir um clímax realmente memorável e termina de maneira um pouco protocolar. Ainda assim, é um deslize pequeno diante do que o filme se propõe a fazer. Afinal, quem procura um capítulo de A Morte do Demônio dificilmente sai frustrado quando encontra exatamente aquilo que veio buscar: demônios, litros de sangue, membros voando para todos os lados e um diretor claramente se divertindo enquanto destrói seus personagens das maneiras mais criativas possíveis. E fique até o fim: as duas cenas pós-créditos valem a espera.


A Morte do Demônio: Em Chamas (Evil Dead: Burn)

Direção: Sébastien Vaniček

Elenco: Souheila Yacoub, Hunter Doohan, Tandi Wright, Luciane Buchanan, Erroll Shand, George Pullar, Maude Davey e Greta van den Brink.

Gênero: Terror / Gore

Duração: 1h51

Classificação: 18 anos


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