NOTA: ★★★★

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O cinema parece ter finalmente entendido que o caminho para revitalizar seu panteão de monstros não passa por universos compartilhados megalômanos, mas pelas mãos de diretores com visões autorais e, preferencialmente, perturbadoras.

Após o êxito clínico de Leigh Whannell em O Homem Invisível (2020) e seu esforço irregular em O Lobisomem (2025), a bola da vez cai nos pés de Lee Cronin. O cineasta, que já havia provado sua competência em nos deixar sem fôlego com o excelente A Morte do Demônio: A Ascensão, assume agora a tarefa de desenterrar a Múmia sob uma ótica que flerta muito mais com o necrotério do que com as dunas de areia.

Logo de cara, o letreiro que estampa o nome do diretor junto ao título – evocando a pompa autoral de um Tarantino ou Carpenter – entrega a tônica da experiência. Estamos diante de uma obra de assinatura visceral, mas que carrega consigo uma dose cavalar de autogratificação. Cronin é um esteta do horror, alguém que sabe exatamente onde colocar a câmera para causar o máximo de desconforto, mas que parece ter esquecido de levar uma tesoura para a sala de montagem. O resultado é um filme admirável em sua coragem gráfica, mas que testa a paciência do espectador em seus tropeços narrativos e no descuido que poderia ter sido resolvido na ilha de edição.

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A trama nos apresenta a um jornalista que vive com sua família no Cairo cuja vida é estilhaçada quando sua filha de oito anos, Katie, é sequestrada por uma mulher que mantém uma criatura milenar no subsolo de sua residência. O luto e o fracasso nas buscas empurram a família de volta aos Estados Unidos. O destino – e o roteiro – resolve agir oito anos depois, com a garota sendo encontrada milagrosamente viva dentro de um sarcófago nos escombros de um acidente aéreo. É neste ponto que a suspensão de descrença começa a esticar até quase romper, exigindo do público uma condescendência homérica.

Katie retorna com o corpo de um cadáver mal conservado. Após quase uma década no vácuo de uma tumba, a menina é um amontoado de pele ressecada como papiro, dentes apodrecidos e músculos retorcidos, sem conseguir falar ou se mexer. Qualquer protocolo médico ou bom senso humano ditaria uma internação imediata em uma unidade de segurança máxima. Entretanto, baseados no conselho de um médico egípcio que prega o amor e o aconchego familiar como cura, os pais decidem levar esse receptáculo de traumas para o aconchego do lar em Albuquerque. É o tipo de escolha de roteiro que faz qualquer espectador minimamente atento revirar os olhos com força.

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Sentir saudades da aventura descompromissada e solar de Brendan Fraser é inevitável para quem cresceu com os filmes que davam aquela vibe de exploração clássica. Aquela energia de herói galanteador e perigos em tumbas monumentais foi enterrada em uma cova muito profunda. Cronin não quer que você se divirta com arqueologia; ele quer que você sinta o cheiro do mofo e a dor da carne rasgada. A Múmia aqui não é um vilão com planos de dominar o mundo, mas uma infecção espiritual que corrói a estrutura familiar de dentro para fora, deixando pouco espaço para o charme da aventura de outrora.

O grande calcanhar de Aquiles da produção é justamente sua crise de identidade temática. O conceito da Múmia, na prática, funciona apenas como uma oportunidade mercadológica para resgatar o título, sendo pouco relevante para a trama em si. Se trocássemos o sarcófago por um porão assombrado, o túmulo do Pazuzu ou um cemitério indígena, o filme permaneceria rigorosamente o mesmo. A ideia da entidade maligna que possui a garota é genérica e a falta de diferenciação em relação ao mito da Múmia incomoda, transformando o ícone clássico em um mero chamariz de público que não traz diferencial algum para o desenrolar dos fatos.

Entretanto, se o texto falha na coesão, a execução técnica de Cronin é de uma maestria inegável que equilibra a balança. O diretor estabelece uma atmosfera de pavor absoluto desde os primeiros quadros, manipulando o mistério sobre o estado deplorável da garota com uma habilidade sádica. Quando os poderes da entidade começam a se manifestar, o filme mergulha sem medo no horror corporal mais explícito e incômodo. As sequências gráficas são de uma beleza grotesca, utilizando efeitos práticos que dão uma textura tangível ao pesadelo e colocam a tensão em níveis quase insuportáveis.

O terceiro ato é onde Cronin finalmente solta as rédeas e abraça a exuberância do horror asiático contemporâneo, remetendo aos momentos mais viscerais do cinema tailandês ou indonésio. É quando o cineasta finalmente reassume a identidade que o consagrou em seu trabalho anterior. Há uma fragmentação dolorosa da família, com cada membro sendo levado ao limite físico. Uma sequência específica em um velório, que ecoa a energia caótica de Sam Raimi em Arraste-me para o Inferno, é um dos grandes deleites visuais do ano, equilibrando o asco com uma direção de cena impecável.

O filme não tenta e nem consegue escapar dos próprios clichês. Estão todos lá: os elementos plantados no início que serão usados como ferramentas de horror posteriormente, o professor que descobre a maldição e o nome do demônio em uma exposição conveniente. A Maldição da Múmia seria muito mais bem-sucedido se não desse tanto tempo ao espectador para perceber suas falhas estruturais. Suas mais de duas horas acabam expondo os defeitos de forma muito clara, tornando a experiência ocasionalmente cansativa para quem busca algo além do choque visual.

Ainda assim, o filme termina como uma obra admirável pelo domínio narrativo das ferramentas que criam pesadelos. Cronin consegue manipular as emoções não apenas pelo nojo ou pelo horror explícito, mas por saber exatamente como construir uma atmosfera de apreensão constante. Pode não ser a releitura definitiva que o monstro merecia, mas certamente é aquela que vai habitar seus pesadelos por algumas noites. É o horror puro, sem filtro e que, apesar dos pesares, reafirma a força do gênero quando entregue a quem não tem medo de sujar as mãos de sangue e poeira milenar.


SERVIÇO

A MALDIÇÃO DA MÚMIA

Direção: Lee Cronin

Elenco: Jack Reynor, Laia Costa, May Calamawy, Natalie Grace, Verónica Falcón

Gênero: Terror / Horror Sobrenatural

Duração: 133 minutos

Onde Assistir: Nos Cinemas