O novo filme de Paul Feig se insere com desenvoltura naquela tradição do cinema em que uma empregada entra em uma casa perfeita demais e começa, pouco a pouco, a abalar as estruturas da suposta família feliz. É um território já bastante explorado, frequentado por obras tão distintas quanto o mezzo clássico A Mão que Balança o Berço e o premiadíssimo Parasita. A diferença aqui é que tudo parece funcionar no limite entre o suspense e a completa falta de noção, como se o filme soubesse que está exagerando, mas tivesse vergonha de assumir isso até o fim.
Baseado no livro homônimo de Freida McFadden, que não li, A Empregada apresenta Millie, personagem de Sydney Sweeney, aqui em visível piloto automático. A atriz, que recentemente oscilou entre o prestígio e a superexposição em trabalhos como a séria da HBO Euphoria, algumas obras menos memoráveis e anúncios polêmicos, vive uma jovem recém-saída da prisão por um crime que o roteiro prefere esconder por tempo suficiente para parecer mais interessante do que realmente é. Mistério é sempre uma boa palavra, mesmo quando o filme não sabe muito bem o que fazer com ele.
Millie consegue um emprego na casa de Nina, socialite interpretada por Amanda Seyfried, com um pé em um calculado histrionismo. Seyfried, que já transitou com segurança entre o musical descompromissado de Mamma Mia e a instabilidade psicológica no irregular Vozes e Vultos, parece aqui brincar com a própria imagem, exagerando gestos e emoções como quem sabe exatamente em que tipo de filme está se metendo. Nina é casada com Andrew, vivido por Brandon Sklenar, um marido tão simpático, empático e acessível que chega a soar como uma provocação direta ao bom senso do espectador.

Tudo parece correr bem até que Millie começa a perceber que sua patroa tem rompantes de raiva nada sutis, sinais claros de um desequilíbrio psicológico pouco agradável de se conviver. Que ela não vá embora na primeira crise da mulher é um dos grandes mistérios do filme inteiro. Não demora para que o marido passe da cordialidade à pena pela jovem empregada – que, sempre vale lembrar, tem a cara da Sydney Sweeney – e, como manda o manual do gênero, o filme mergulha sem cerimônia no território do triângulo amoroso, com a delicadeza de quem já sabe exatamente onde isso vai dar.
Como boa parte dos suspenses modernos, a maior parte do que vemos aqui é pura encenação. À medida que a trama avança, o filme despeja uma sequência de reviravoltas que oscilam entre as curiosamente interessantes e as completamente estúpidas, com destaque evidente para estas últimas. É o tipo de narrativa que aposta no choque constante para disfarçar a fragilidade estrutural do roteiro.
Mesmo sem conhecer o material original, fica nítida a dificuldade dos roteiristas em trabalhar a história sem recorrer a narrações explicativas em off e a personagens que surgem absolutamente do nada apenas para entregar informações cruciais. O filme também se empenha em plantar pistas das mais bizarras, como um personagem que anuncia logo nos primeiros cinco minutos que alguém ainda vai morrer por causa da escada em espiral da casa, como se estivesse lendo o roteiro em voz alta para garantir que ninguém se perca.

Boa parte da história é contada a partir do ponto de vista da personagem de Sweeney, até que, em determinado momento, o filme resolve engatar um Garota Exemplar ali no meio, sem pedir licença, e passa a narrar tudo sob a ótica de outro personagem. Se no filme de David Fincher essa virada parecia orgânica, aqui soa completamente aleatória, deixando trocentos pontos em aberto que o filme nem faz questão de corrigir.
O maior problema de A Empregada é sua inconsistência tonal. Feig, diretor exímio da comédia e responsável por sucessos como Missão Madrinha de Casamento e pelo belíssimo suspense irônico de Um Pequeno Favor, parece aqui excessivamente contido. Fica claro que ele não leva os absurdos da trama a sério, mas também não se entrega a eles. O resultado é um filme sempre com o freio de mão puxado, seja nas cenas de sexo quase censura livre, na abordagem tímida do abuso e dos relacionamentos tóxicos, na crítica às relações vazias entre socialites ou até mesmo na violência desenfreada que domina o terceiro ato.
Com um toque de Supercine de alto orçamento e alma assumida de novela mexicana, A Empregada acaba se sustentando justamente por seus exageros, aquele mix delicioso entre o brega e o chique. Poderia ser muito melhor se tivesse alguém disposto a ir mais fundo. Nessas horas, é impossível não imaginar o que um diretor como Paul Verhoeven faria com esse material: cenas de sexo sem pudor, ultra violência sem concessões e uma crítica ácida à sociedade americana. Do jeito que está, é bem ruim, mas é bom. E isso já basta para garantir seu lugar como um guilty pleasure bastante emblemático.
SERVIÇO
Nome: A Empregada
Direção: Paul Feig
Ano de produção: 2025
Elenco: Sydney Sweeney, Amanda Seyfried, Brandon Sklenar
Duração: aproximadamente 130 minutos
