Não sei se você acompanhou a notícia nos últimos dias sobre a queda do analfabetismo no Brasil. Siiim, caiu para 4,9%, o menor índice da nossa história! À primeira vista, dá até vontade de soltar foguete e comemorar, mas tem um porém. Ou melhor, vááários poréns pra gente refletir antes de estourar o champanhe.
A verdade é dura: o Brasil está criando uma geração que sabe decodificar palavras, mas é incapaz de interpretar um texto simples. Ninguém falou das altíssimas taxas de analfabetismo funcional. Ninguém falou que ainda são 8,4 milhões de brasileiros que não sabem ler nada (IBGE). E ninguém falou que apenas 12% da população pode ser considerada plenamente alfabetizada e proficiente na leitura e interpretação de textos (INAF).
Diminuir o número de pessoas que não sabem assinar o próprio nome é um avanço democrático inegável. Mas o conceito de alfabetização mudou. Hoje, cidadania digital e emancipação social exigem muito mais do que apenas “juntar letras”. Exigem senso crítico. Não foi à toa que as avaliações do PISA e do Inaf já incluíram a alfabetização digital como um indicador importante para a composição de seus índices. E é aí que a gente tá errando feio. Como família, como pais e mães, como escola, como exemplo.
O “Efeito TikTok” no cérebro
Não dá para tapar o sol com a peneira: o consumo excessivo de telas mudou a nossa forma de consumir informação, mudou o nosso nível de sedentarismo e até de entretenimento. Se antes as crianças pulavam corda e jogavam bola, hoje estão hipnotizadas na frente do celular. A gente tá trocando os livros por feeds infinitos, e a leitura por vídeos de 15 segundos que entregam dopamina barata, rápida e fácil para o nosso cérebro.
Só que esse hábito tem cobrado um preço caríssimo para a nossa saúde mental e pra nossa capacidade cognitiva:
- Redução drástica do foco: Nossa atenção ficou fragmentada. Ler mais de três páginas de um livro virou um desafio hercúleo. E pasmem: já tem neurocientistas dizendo que nosso cérebro está preparado para apenas 50 segundos de atenção! E não, isso não é o mesmo que TDAH, é hiperestimulação.
- Preguiça mental: O cérebro se acostuma a receber tudo mastigado em formato de vídeo, perdendo a capacidade de criar imagens mentais, raciocinar logicamente e interpretar contextos. Já tem até um conceito novo chamado de brain rot, ou apodrecimento cerebral. Cérebro que não faz sinapses e conexões, literalmente, apodrece.
- Vulnerabilidade: Quem não entende bem o que lê, vira presa fácil para muita coisa ruim: desinformação, golpes financeiros e má influência na internet.
Se pra gente que é adulto, já está difícil manter o foco, imagine para as crianças, cujo cérebro ainda está em formação. E esse é o principal alerta desse papo de hoje:
“O excesso de telas na infância atrofia o hábito da leitura antes mesmo de ele nascer.”
O Desafio das Férias de Julho: Menos tela, Mais Páginas
Mudar essa realidade não depende só de políticas públicas. Começa, muito antes na sala da nossa casa. E como estamos entrando no período de férias de julho, o momento não poderia ser mais perfeito pra dar esse alerta.
Que tal proporcionar umas férias diferentes na nossa própria casa? Deixo aqui um convite e um desafio para você, leitor:
Não é pai, nem mãe, nem professor e nem convive com uma criança? O seu cérebro também apodrece, tá? E já tem até estudos sobre isso. A ciência tá apontando uma relação (mesmo que indireta) entre o uso de telas e o risco de Doença de Alzheimer. O excesso de tempo de tela contribui para o declínio cognitivo e acelera o envelhecimento cerebral. Então escolhe sua próxima leitura e vamos que bora! Aceite o desafio de ler pelo menos um livro inteiro neste mês de julho. Troque 30 minutos de tela por algumas páginas de leitura.
Se você tem filhos: Determinem momentos do dia “livres de telas”. Levem seus filhos a lugares estimulantes para a leitura, como a biblioteca pública ou uma livraria. Inclusive várias livrarias e bibliotecas têm momentos de contação de histórias que são bem legais! Dê um livro de presente. Pode ser no sebo mesmo se a grana estiver curta. O importante é deixar a criança escolher um livro físico, sentir o cheiro do papel, folhear as páginas. E leia você também, afinal, não adianta exigir que uma criança leia se ela só enxerga os pais com o nariz grudado no celular. Não esqueça: o exemplo arrasta.
A leitura é a ferramenta mais poderosa de inclusão social, empatia e desenvolvimento intelectual que existe. Vamos, juntos, desconectar por algumas horas, desligar o wifi e ligar o que realmente importa: o nosso cérebro e o futuro das nossas crianças.
E aí, bora causar o bem pela leitura?
