A frase que ecoava nos corredores da nossa infância nunca foi tão atual quanto agora. “Você não é todo mundo”. O que antes soava como uma bronca materna para nos impedir de seguir uma moda passageira ou uma travessura de escola, hoje emerge como um convite à consciência individual em meio ao automatismo das massas. Vivemos no piloto automático.
Estamos mergulhados em um momento de fricção profunda entre o conforto da tradição e a necessidade da mudança. A sociedade caminha, muitas vezes, em um passo de formiga, repetindo ciclos apenas porque “sempre foi assim”. Sempre foi assim…Sempre foi assim…
Um dos exemplos mais latentes dessa resistência são os fogos de artifício com estampido. O espetáculo visual, que por séculos simbolizou celebração, hoje carrega um peso ético que não podemos mais ignorar.
Mesmo com leis proibitivas em diversas cidades e o conhecimento amplificado sobre o sofrimento de animais, autistas e idosos, o céu continua a pipocar com estrondos ensurdecedores. Por quê? Porque o “todo mundo” ainda valida o prazer momentâneo do barulho em detrimento da empatia coletiva. A tradição, quando se torna egoísta, vira apenas um hábito nocivo disfarçado de cultura. Li um comentário pós-Ano Novo que dizia: “deixe eu me divertir nesses 15 minutos que depois você fica com seu mimimi nos outros 364 dias do ano.”
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Outro exemplo é o da manada e o vazio das aglomerações. Vemos o mesmo fenômeno nas praias lotadas e nas filas quilométricas. Existe um impulso social de estar onde todos estão, de validar a própria experiência através da presença da multidão. Mas e por quê?
A busca pelo pertencimento: o medo de ficar de fora empurra as pessoas para areias onde mal se consegue caminhar e para filas que consomem horas de vida.
O paradoxo da escolha: muitas vezes, não escolhemos o destino pelo prazer do lugar, mas porque o fluxo da sociedade nos empurrou para lá.
Precisamos retomar a condução consciente de nossas vidas e de nossas escolhas. Precisamos acordar a nossa individualidade ética. Mudar o comportamento social exige coragem para ser a “exceção”. Se a sua mãe dizia que você não é todo mundo, ela estava, sem saber, lhe preparando para o exercício da autonomia.
Questionar o hábito: “Eu realmente preciso soltar este rojão para ser feliz?”. Repensar o consumo: “Eu realmente quero enfrentar essa fila ou estou apenas seguindo o fluxo?”. Agir com alteridade: entender que o meu espaço termina onde começa a dor ou o desconforto do outro.
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A evolução da sociedade não depende de grandes decretos, mas da soma de pequenos “nãos” que dizemos à boiada. Quando você decide não soltar o fogo de artifício, ou escolhe um caminho menos óbvio para o seu lazer, você finalmente honra o conselho materno.
Você não é todo mundo. E é exatamente por isso que você tem o poder de começar a mudança que o “todo mundo” ainda não consegue enxergar.
Que você não seja todo mundo em 2026!
