A Pedagogia da Complexidade: por que o “Cão Orelha” é um assunto de sala de aula?

Foto: Blog Cata Comigo

Edgar Morin nos alerta incessantemente sobre a ‘cegueira do conhecimento’: o erro de ensinar as partes sem conectá-las ao todo. Quando olhamos para a tragédia recente envolvendo o cão Orelha, em Santa Catarina, somos tentados a ver apenas um ato isolado de crueldade. Mas, como educadores, nosso olhar precisa ir além.

Esse episódio é um sintoma agudo de uma sociedade que opera na disjunção — que separou a cultura da natureza, o humano do animal, a ética da vida. Quando trazemos o conceito de Saúde Única para a educação, não estamos apenas falando de biologia; estamos propondo uma reforma do pensamento. Ensinar uma criança a respeitar a integridade de um animal comunitário não é ‘sentimentalismo’; é a base prática do Pensamento Complexo. É fazê-la entender que a violência contra um ser senciente rompe o tecido social do qual ela mesma faz parte.

Nossa missão não é apenas alfabetizar letras e números, mas alfabetizar para a conexão. Se formarmos cidadãos capazes de sentir a dor de outra espécie, estaremos, inevitavelmente, formando os guardiões que não permitirão que a nossa própria espécie destrua o planeta. A causa animal é uma das portas de entrada pedagógica para a cidadania planetária.

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A Cegueira da Fragmentação vs. A Sabedoria da Complexidade

Edgar Morin nos ensina que a palavra complexus significa “o que é tecido junto”. O grande erro da nossa civilização moderna foi a disjunção: separamos o humano do natural, a razão da emoção, a saúde do homem da saúde do bicho. Aprendemos na escola a estudar o corpo humano em uma aula e a biologia dos animais em outra. Criamos “gavetas” mentais. O caso do cão Orelha, e a crise ambiental que vivemos, são sintomas diretos dessa incapacidade de ver o todo.

A saúde única e o pensamento complexo na prática: Além de um termo técnico da veterinária, é a aplicação prática da filosofia de Morin. Ela rompe com a visão antropocêntrica (o homem no centro) e propõe uma visão ecocêntrica e interdependente. Pense no diagrama clássico da Saúde Única (a intersecção entre Saúde Humana, Saúde Animal e Saúde Ambiental). Morin diria que essas esferas não apenas se tocam, elas são recursivas:

  1. O Princípio da Causalidade Circular;
  2. O Princípio Hologramático: O Todo na Parte;
  3. Re-ligar os Saberes (missão da Educação Ambiental).
  4. O Princípio da Causalidade Circular: A violência contra um animal (causa) gera uma sociedade insensível (efeito), que por sua vez gera mais violência (efeito que vira causa). Não é uma linha reta; é um ciclo vicioso. O agressor do Orelha não feriu “apenas” um cão; ele feriu a saúde ética da comunidade (Saúde Humana) e desrespeitou a senciência da vida (Saúde Ambiental).
  5. O Princípio Hologramático: O todo na parte Morin utiliza o conceito de holograma: cada parte contém a informação do todo. Olhando para o caso do Cão Orelha (a parte), enxergamos o estado atual da nossa sociedade (o todo). A brutalidade daquele ato contém, em si, a mesma lógica da exploração predatória da natureza: a ideia de que o “outro” (seja um cão, uma árvore ou um rio) é um objeto à nossa disposição, sem alma, sem direitos. Por outro lado, a reação de repúdio da sociedade também é hologramática: mostra que, no todo social, já existe uma consciência de amor e justiça pulsando, querendo emergir.E é por isso que, como educadores, podemos e devemos tornar o nosso aluno protagonista de transformações possíveis e significativas tanto para o aprendizado quanto para a sociedade.
  6. Re-ligar os Saberes (A Missão da Educação Ambiental) A verdadeira Educação Ambiental, à luz da complexidade, tem a missão de re-ligar o que foi separado.Não adianta ensinar a criança sobre a fotossíntese se ela não entende a dor de um cão de rua. Não existe “eu cuido da minha casa” e “o problema do cachorro é da rua”. Na complexidade, não existe “fora”. Tudo é “dentro”. A rua é nossa extensão, o animal comunitário é nosso vizinho, o ambiente é nosso corpo estendido.

Precisamos de uma nova ‘reforma do pensamento’, como pede Morin. Uma reforma que nos faça entender que cuidar do cão Orelha não é ‘humanizar o animal’, mas sim ‘humanizar a humanidade’. Só seremos verdadeiramente humanos quando entendermos que nossa saúde depende da saúde do cão, que depende da saúde da cidade, que depende da nossa ética. Tudo está tecido junto. Cortar um fio é desfazer o próprio tecido da vida.

Para finalizar, apenas digo: isso não é apenas sobre o cão Orelha!!!

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GLOSSÁRIO
Pensamento Complexo:
É a visão do todo. A compreensão de que nada existe isolado; nossos atos, a natureza e a sociedade são fios entrelaçados do mesmo tecido.
Saúde Única: É a interdependência prática. A ciência de que a saúde humana, a animal e a ambiental são uma só. Se ferimos um elo, todos adoecem.
Senciência: É a base ética. A capacidade de sentir dor, medo e alegria. O que define que um animal importa não é se ele pensa, mas o fato de que ele sente.

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