A barba branca, o sorriso tranquilo e a presença constante atrás do balcão fazem com que muitos frequentadores brinquem: no Água Verde, o Papai Noel não aparece só em dezembro. Ele atende o ano inteiro, na Avenida dos Estados. É assim que Ivo Antônio Chiarelli, 77 anos, ficou conhecido entre clientes e amigos no Bar do Ivo, também chamado de Bar Nobre, um dos botequins mais tradicionais da região, alegre e cheio de vida.
Aberto em 1983, o bar soma 42 anos de funcionamento e se consolidou como ponto de encontro da comunidade. “Aqui sempre foi simples. Nunca quis luxo, quis gente”, define Ivo. Pequeno no espaço físico, com mesas na área externa e um balcão que permanece desde a inauguração, o estabelecimento guarda histórias que se confundem com a própria trajetória do bairro.
Natural de Ascurra, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, Ivo é filho de agricultores e cresceu ajudando a família na lida do campo. “A gente era tudo da roça. Aprendi cedo a trabalhar”, lembra o barba branca. Seus pais, Luiz Chiarelli e Joana Maria Chiarelli, viveram da agricultura, assim como grande parte dos irmãos. “Meu pai ensinou que nada vem fácil nesta vida, e seguimos aqui pensando sempre em melhorar”, disse Ivo.
Antes de chegar a Curitiba, ele tentou a vida no comércio em Santa Catarina, onde abriu uma panificadora com irmãos. O negócio não prosperou. A mudança para a capital paranaense marcou um recomeço. “Quando cheguei aqui, eu estava meio quebrado”, admitiu Ivo.





Dinheiro emprestado para comprar gole
O início do bar não foi fácil. “Eu não tinha quase nada. Foram os amigos que me ajudaram a comprar bebida pra começar”, recorda o proprietário de um dos pontos mais antigos em funcionamento da Água Verde. Aliás, Ivo foi um dos primeiros comerciantes a ocupar o prédio onde o bar funciona até hoje. “O ponto era conhecido oficialmente como Bar Nobre, mas o nome popular acabou prevalecendo. Se falar Bar do Ivo, todo mundo sabe onde é”, brincou o catarinense.
Durante décadas, o bar foi tocado por Ivo e pela esposa, Irene Chiarelli, com quem dividiu a rotina intensa de trabalho. Ano passado, Irene faleceu. “A gente trabalhava junto, de manhã até a noite”, relembra Ivo. Sobre a companheira, a fala é curta e direta, como ele prefere: “Ela foi tudo aqui comigo”, emociona-se o “Papai Noel” dos botecos de Curitiba
Após enfrentar problemas de saúde, Ivo reduziu o ritmo, mas segue presente no dia a dia do bar. “Quase morri uma vez, mas estou aqui”, diz, sem dramatizar. Hoje, ajuda no que pode, faz compras e aparece para conversar. “Eu gosto é do papo. Ficar em casa não é pra mim”, alertou o comerciante.
Para Adriana, uma das filhas do Ivo, o bar faz parte da rotina de uma vida inteira com a família. “Aqui representa tudo, pois desde criança frequentamos esses corredores. Na pandemia, eu só chorava, perdemos quase tudo. Todos do bairro conhecem a gente, aqui é uma grande família, temos nossas brigas até na frente dos clientes, mas nos amamos”, garantiu Adriana, que ainda tem a companhia no trabalho da Andréia, sua irmã.








Bolinho de carne, vina e cachaça caseira
Entre os destaques do cardápio estão os bolinhos de carne, a principal especialidade da casa. O bolinho é tradição, é o mais pedido. Sequinho, crocante e perfeito com uma pimentinha caseira. Sem esquecer da vina no molho que também é bem consumida pela turma.
Outro destaque são as cachaças artesanais que são curtidas no próprio bar. “Eu faço minhas pingas. Caseira, curtida, batida. No inverno, então, vai bastante, e nunca matei ninguém de cachaça”, garantiu Ivo.
O bar mantém características clássicas dos botequins tradicionais, como balcão central, decoração com garrafas antigas e mesas na calçada. Ao longo dos anos, atravessou diferentes fases econômicas com mudanças no comportamento dos clientes, sem perder a essência de um boteco alegre. “Antes era fiado, era cheque. Hoje tem maquininha, mas a conversa continua igual. Gosto de ir em outros botecos, é gostoso. “, observou o veterano dos botecos.
Quarenta e dois anos depois de abrir as portas, o “Papai Noel dos botecos” segue firme no balcão. Em vez de trenó, um balcão. Em vez de presentes, histórias servidas em copos e na fala mansa de um catarinense que Curitiba adotou. “Boteco é conversa, é cabeça boa e respeito”, completou Ivo.



Bar Nobre ou do Ivo
Endereço: Av. dos Estados, 755 – Água Verde,Curitiba
Horário de funcionamento: de segunda à sábado das 7h30 às 22h.
Instagram: nobrebar83
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