Entrar na Mercearia Fantinato é um pouco como abrir uma porta para outra Curitiba. O piso, os balcões, as prateleiras, quadros, baleiros, e tantos outros objetos espalhados pelo salão, lembranças que ocupam cada canto ajudando a contar uma história que vai muito além do bar. Na Rua Mateus Leme, no Bom Retiro, o tempo deixou suas marcas, e elas continuam fazendo parte da experiência de quem chega para tomar um chope em um caneco de alumínio, pedir uma carne de onça ou simplesmente curtir uma resenha em um boteco.

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A história começa em 1953, quando Olívio Fantinato decidiu abrir o próprio negócio. Antes disso, ele já trabalhava em outro armazém e conhecia bem a rotina desse tipo de comércio, que era fundamental para o abastecimento das famílias muito antes de os supermercados dominarem a paisagem urbana. A mercearia vendia produtos do dia a dia e mantinha uma relação próxima com os moradores da região.

Naquele período, a Rua Mateus Leme tinha uma maior relevância na vida da cidade. Era um dos caminhos que ligavam o Centro aos bairros e às áreas mais afastadas, com circulação constante de pessoas e comerciantes. Olívio construiu o imóvel para abrigar a mercearia e a própria residência ao lado da esposa Ângela.

Os filhos Celso e Carlos, continuaram ligados à mercearia, cada um à sua maneira. Celso permaneceu no negócio, enquanto Carlos seguiu outra profissão e morava ao lado do estabelecimento. Uma nova etapa estava por vir pelas mãos de alguém que já conhecia aquele endereço desde a infância.

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O menino que comprava doces virou dono do boteco

Wlamir Branco nasceu na região da Rua Albano Reis e cresceu frequentando as redondezas. Quando era criança, comprava doces na Mercearia Fantinato diretamente com o Olívio. Anos depois, já arquiteto, com experiência em trabalhos de restauração, passou novamente diante do endereço e percebeu que o bar estava fechado.

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A ideia de ter um boteco já fazia parte dos seus planos. “A oportunidade apareceu quase por acaso, durante uma visita ao meu pai. Fique sabendo da possibilidade, e procurei o Celso. A negociação avançou e, virei dono de boteco”, disse Wlamir.

Em 2008, a mercearia começou a escrever seu capítulo como boteco. Mas a mudança de atividade não significou apagar o que existia antes. Pelo contrário: o olhar de arquiteto e restaurador de Wlamir ajudou a preservar a estrutura original e transformou a memória do lugar em parte essencial da experiência.

“O piso de granitina, o assoalho de madeira, os balcões e as prateleiras continuam presentes. Garrafas antigas, calculadoras, brinquedos e objetos de diferentes épocas dividem espaço com recordações pessoais. Entre elas, tem a fotografia de casamentos dos meus pais”, confidenciou o dono.

Em 2010, o estabelecimento cresceu e incorporou parte da antiga residência, ampliando o salão. Hoje, a capacidade chega a aproximadamente 140 pessoas, considerando também as mesas externas. O negócio que começou com uma equipe de três funcionários passou a contar com quase 40 pessoas.

A carne de onça que virou marca registrada

Se o ambiente faz o visitante viajar no tempo, a carne de onça ajuda a explicar por que tanta gente volta. A iguaria curitibana ganhou protagonismo logo no primeiro ano da casa no formato de boteco. Os clientes começaram a pedir pela “famosa carne de onça”, e o nome acabou incorporado ao cardápio.

“A receita tem relação com a tradição alemã do Hackepeter e com referências que encontrei na gastronomia de Curitiba, como a preparação servida no Clube Concórdia. Com o tempo, a receita da Fantinato construiu sua própria identidade e conquistou prêmios e visitantes de várias partes do mundo”, comentou Wlamir.

A preparação já teve gema de ovo como ingrediente para dar liga à carne. A escolha foi revista por questões de segurança alimentar e de sabor, com a adoção do azeite. Na casa, a carne de onça não é apenas um item do cardápio: o preparo e o ritual de servir fazem parte da experiência. O garçom faz toda a mistura na mesa do cliente e viralizou nas redes sociais.

Ratinh, Ana Maria Braga e  Xuxa: histórias que passam pelo balcão

A trajetória da Fantinato também coleciona episódios curiosos. Wlamir já foi a São Paulo preparar a carne de onça no programa do Ratinho. Em outra ocasião, Ana Maria Braga visitou o estabelecimento em uma quinta-feira movimentada. Não conseguiu provar a carne de onça. “A equipe de produção encontrou a casa cheia e não foi possível acomodar a gravação naquele momento. Houve um convite para voltar, mas a agenda não permitiu uma nova visita”, recordou o proprietário

Mais recentemente, a equipe de Xuxa passou pelo local para buscar carne de onça para o pessoal que trabalhava com a apresentadora. Wlamir conta que Xuxa é vegana, e por isso, o pedido era destinado à equipe, e não à própria apresentadora.

Nem tudo na Fantinato se resume aos pratos mais famosos. Há também aquelas pequenas surpresas que despertam lembranças quase instantâneas. Um exemplo é o canudinho recheado, servido com um espetinho que reúne vina, azeitona, picles e queijo; o Bife Sujo, idealizado pelo João Francisco de Sousa Raposo, responsável pela Cantina Açores.

A mesma lógica aparece no atendimento. Em tempos de cardápios digitais e pedidos feitos por QR Code, a Fantinato mantém o menu físico, o bloquinho de papel e a caneta. A tecnologia pode ajudar nos bastidores, mas a experiência diante do cliente continua fiel ao jeito tradicional de pedir, conversar e esperar a comida chegar.

Novas mercearias?

Apesar do apego à história, Wlamir não pensa apenas em preservar o que existe. Ele quer que o negócio cresça. A experiência anterior na Mercadoteca, encerrada junto com o fechamento do espaço, mostrou caminhos e desafios. Agora, a ideia é estruturar um modelo que possa ser replicado, quem sabe em outras regiões da cidade e até fora de Curitiba.

A família também está cada vez mais envolvida na operação. Um dos filhos atua na gestão, enquanto o outro já passou pela cozinha e pelo atendimento. “Estamos nos estruturando para replicar cada vez, temos um bom produto para oferecer para mais pessoas”, completou Wlamir, pai do Lucas e do Leonardo

No fim das contas, são histórias que ajudam a mostrar como um endereço de bairro pode ganhar projeção sem perder a essência. A Fantinato ficou conhecida para além do Bom Retiro, mas continua sendo um lugar em que a conversa de balcão, o encontro entre conhecidos e a comida ocupam o centro da cena.

Mercearia Fantinato

Endereço: Rua Mateus Leme, 2553 – Bom Retiro, Curitiba.

Horário de funcionamento: segunda-feira a sábado, das 11h à 1h.

Instagram: merceariafantinato

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