Cantina Açores em Curitiba: a história do rei do bacalhau no Alto da Glória

Antes de provar o bolinho de bacalhau, é preciso entender que na Cantina Açores, no Alto da Glória, em Curitiba, um homem “manda” naquela esquina entre Euzébio da Motta e Augusto Severo. João Francisco de Sousa Raposo, 74 anos, sotaque carregado, fala direta e uma convicção rara nos dias de hoje. Comida não se negocia, se respeita.

Ele atravessou o Atlântico ainda menino, saiu da Ilha de São Miguel, nos Açores, e construiu a própria história sem pedir licença. Hoje, caminha entre as mesas como quem guarda uma ilha inteira dentro do peito, deixando claro logo de cara para não ocorrer engano. “Eu não sou português. Sou açoreano. E aqui as coisas são feitas do meu jeito”, avisou João Raposo, o rei do Bacalhau de Curitiba.

Mesmo alertando que é de Açores, o apelido português já faz parte da vida desde os tempos em que toda família chegou ao Brasil. Antes de entrar nesse “território” de paredes internas verdes com o toldo vermelho na entrada, cores de Portugal, já aviso que o jeito do “portuga” é meio bruto e não tem moleza ali ao pedir. “As pessoas chegam aqui e perguntam o que indico. Comida né? Os mais antigos estão acostumados com esse meu jeito, não vou mudar. Pena que muitos dos meus amigos já morreram e tirei os quadros das paredes. Só tinha morto”, brincou João, comprovando que o bom humor existe na vida do comerciante que chegou ao Brasil aos 15 anos, e nunca mais parou.

Começou como faxineiro de loja, e com o olhar atento, aprendeu na observação. “Eu limpava chão, mas já estava aprendendo como funcionava o negócio. Eu nunca fui homem de ficar parado. Eu nasci pra vender. Se me derem uma caixa, eu vendo. Se me derem duas, eu vendo mais rápido ainda”, disse João Raposo.

Passou pelos Brinquedos Bandeirante, rodou a região Norte do pais, virou campeão de meta. Depois foi parar na Arapuã, onde protagonizou uma história que ele conta com orgulho.

“Eu pedi 100 televisores em cores. Não pedi autorização prá ninguém. Coloquei tudo na frente da loja, abri caixa por caixa, liguei uma por uma e vendi tudo. O gerente quase teve um enfarte, mas depois veio me agradecer. Produto parado é dinheiro dormindo”, complementou o “portuga”.

Mas o destino empurrou João para trás do balcão. Jurou que não mexeria mais com restaurante depois de experiências turbulentas na região Central de Curitiba. Jurou errado. Virou dono de banquinha no Juvevê e foi o primeiro dono do Basset Lanches, bar localizado na frente do Museu Oscar Niemayer. O estabelecimento segue com a família com o bisneto João Luiz.

Açores e o jeito bruto

Quando foi olhar o imóvel no Alto da Glória, João Raposo mostrou que o comerciante raiz tem faro diferente para os negócios. Não se deixou se abater pelas condições do local, construiu um lugar ideal para aproveitar a vida. Por dentro, a cantina não impressiona pelo luxo, e sim, pelo abraço. Há algo ali que lembra um fado, estilo musical português, uma boa mistura de saudade e pertencimento.

Na Cantina Açores não existe congelado disfarçado. Não existe prato reaproveitado. “Se sobra, eu não uso no outro dia. Eu prefiro perder dinheiro do que perder respeito. Você está numa casa de bacalhau, não é qualquer peixe. Bacalhau tem história, se você não sabe o que pedir, deixa comigo”, avisou o especialista.

Aliás, João Raposo passa em todas as mesas dando a dica de como melhorar a experiência com a comida portuguesa. “Primeiro o azeite, e não é pinguinho. É azeite mesmo. Depois limão, e na sequência a pimenta. Aí você pega o pão e mergulha no molho. Se não fizer assim, você não comeu direito”, explicou o dono do Cantina Açores.

Aos 74 anos, com 11 netos e 9 bisnetos, João continua presente em cada detalhe como um perfeito pastel de Belém. “ Restaurante não é só comida, é presença. Se o dono não está, o cliente sente”, comentou João Raposo.

Frequentar a Cantina Açores é diferente. Cada prato carrega travessia, cada fio de azeite conta uma história de quem aprendeu a enfrentar adversidades sem baixar a cabeça. João Francisco de Sousa Raposo, um vigilante do seu próprio porto, um território açoriano-brasileiro dentro do Alto da Glória.

Cantina Açoures

Endereço: Rua Euzébio da Motta, 306 – Alto da Glória, Curitiba.

Horário de funcionamento:segunda à sexta das 11h às 14h30; 18h às 22 horas; sábado das 11h às 15h; 18h às 22 horas; domingo das 11h às 16 horas.

Instagram: cantinacores

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