Tem boteco que trabalha para conquistar novos clientes. O Bar Martelo, no Rebouças, em Curitiba, parece seguir outra lógica. E olha que o pensamento do proprietário não está errado. Ele quer manter a fidelidade e a tradição de um estabelecimento com mais de 60 anos de história, provando que não é preciso ter placa chamativa, rede social ou um cardápio cheio de opções para sobreviver.
Aos 82 anos, Willian Walter Turra comanda o Bar Martelo, na Rua Conselheiro Dantas, desde 1982. E está satisfeito com a turma que conquistou ao longo dos anos. Não faz questão de mudar isso.
A clientela é formada principalmente pela velha guarda do bairro, com alguns jovens que chegam pelas mãos de amigos. O Martelo funciona quase como um clube informal, onde muita gente já conhece a casa, os frequentadores e até o lugar onde gosta de sentar.
Para fazer esta reportagem, Willian impôs duas condições: não queria ser fotografado e também não queria dar entrevista. As regras foram respeitadas. Mesmo assim, a conversa aconteceu, com o cotovelo no balcão, uma bebida na mesa e muita observação de um lugar que diz bastante sobre seu proprietário.
Um esconderijo no Rebouças
O Bar Martelo tem apenas cinco mesinhas. O ambiente é simples, com piso marcado pelo tempo e paredes recheadas de objetos antigos, peças de ferro-velho e relógios que ajudam a contar a história do lugar.Aliás, mantendo os clássicos de boteco, os relógios não funcionam. A pilha já entregou os pontos faz tempo.
Dá para dizer que é quase um esconderijo no Rebouças, e talvez, essa seja uma das melhores definições para o Martelo. Um lugar que não parece estar preocupado em ser descoberto.
O bar funciona de segunda a segunda e segue recebendo a mesma turma que ajudou a construir sua história. O ambiente é puro suco de Brasil, daquele em que o boteco deixa de ser apenas um lugar para beber e comer e passa a fazer parte da vida do sujeito.
Cada momento do dia tem seu jeito. Há períodos mais silenciosos, quase contemplativos, e outros em que a turma chega depois do trabalho e o balcão ganha vida. O assunto é o de sempre: futebol, política, histórias do passado, doenças, lembranças e aquelas conversas que começam sem pretensão e terminam sabe-se lá quando.
O bar é a grande democracia brasileira, regada a doses de maracujá e conhaque, que acabam funcionando como um perfeito divã para a alma.
A campeã carne de onça
Como bom esconderijo, a carne de onça do Martelo guarda um pequeno segredo.Não venha querer experimentar antes da chegada da Gylka, esposa e grande companheira de vida de Willian. É ela quem leva a iguaria para o bar e prepara o prato que já conquistou prêmios em Curitiba.
Nos dias úteis, Gylka chega por volta das 18h30. A partir daí, começa a preparação da carne de onça, vencedora da categoria Sabor Popular do Bom Gourmet em 2012 e 2014.
A receita leva carne de primeira, pimenta-do-reino, azeite de oliva, cebola branca, sal e cheiro-verde picadinhos. A mistura vai sobre uma fatia de broa e chega à mesa acompanhada de molho de pimenta, leve ou forte, conforme o gosto do cliente, e mostarda escura para quem prefere sabores mais acentuados.
É daquelas carnes de onça que não precisam de apresentação. O prato fala sozinho.
A batida que veio de uma gaveta
Outro clássico da casa é a batida de maracujá. Arrisco dizer que mais de 80% dos clientes pedem ao dono aquela dose que relaxa, faz suspirar e, em alguns casos, parece colocar a conversa novamente nos trilhos.
A história da receita também tem a cara do Martelo. Conta-se que Willian encontrou a fórmula em uma gaveta quando adquiriu o bar, em 1982, do antigo proprietário, que também se chamava Martelo. Desde então, a bebida atravessou décadas e continua fazendo parte da rotina da casa.
É o tipo de história que provavelmente não apareceria em uma campanha de marketing.No Martelo, não precisa.
O boteco que não precisa mudar
No fim das contas, talvez seja justamente a simplicidade, aliada à personalidade, que defina a grande particularidade do Bar Martelo.Enquanto muitos estabelecimentos estão preocupados em aparecer, o Martelo parece confortável em continuar “escondido”.
Talvez seja essa a receita de sobrevivência de um boteco com mais de seis décadas: não tentar ser aquilo que não é. No bar, tradição não é estratégia, é rotina. Saí dali pensando no significado de tudo, e a melhor resposta é que o Willian não está procurando novos clientes, está cuidando dos que já considera seus.
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