Ao Distinto Cavalheiro: um boteco que guarda a memória de Curitiba

Ao Distinto Cavalheiro, no Centro de Curitiba. Foto: Gustavo Marques

Há bares que servem chope, petiscos e bom atendimento. E há aqueles que acabam servindo também um pedaço da cidade. No Ao Distinto Cavalheiro, no Centro de Curitiba, a história está espalhada pelas paredes, pelo balcão, pelo piso e pelos objetos que podem passar despercebidos para quem entra pela primeira vez. São referências à literatura, arte, ao carnaval, e, principalmente, às pessoas que ajudaram a construir a identidade da cidade.

O bar se prepara para completar 25 anos de vida, e no comando, José Renato Cella. O dono construiu sua trajetória acadêmica entre a Filosofia, a História e o Direito. No bar, acabou levando um pouco desse olhar para a maneira como preserva o espaço e a memória que também passa pela família. Seu filho Pedro aparece retratado em uma obra de Nilson Müller, na figura do Zequinha, olhando para o chope do pai. No fim, talvez seja isso que explique a força do Ao Distinto Cavalheiro.

“Minha vida, pelo menos dos anos 2000 para cá, se confunde na parte de alegria, de descontração, com a história desse bar”, disse Cella.

O atual dono foi um dos primeiros frequentadores, ainda no início dos anos 2000, quando a ideia era ser um Café. Isso mesmo, um ambiente com estilo europeu, que logo viraria “point” de jornalistas e artistas ávidos por uma gelada ou outro quente que dá uma tonturinha. Em 2018, quando o estabelecimento enfrentava dificuldades, surgiu a oportunidade de assumir o negócio, sem antes valorizar os antigos proprietários como Odil, Carlão, Wella e Dionísio. Veio então a reforma, o maior receio do novo proprietário.

“Meu grande medo ao longo dessa reforma era não descaracterizar a alma que esse bar possui”, valorizou Cella.

A preocupação fazia sentido. Afinal, não se tratava apenas de preservar um endereço, mas um lugar que já fazia parte da memória afetiva de muita gente.

Curitiba está nos detalhes

A porta de aço já funciona como cartão de visitas: traz a imagem do jornalista e poeta curitibano Emílio de Meneses. Lá dentro, o balcão é original, assim como parte dos elementos que acompanham o bar desde a fundação. O piso de ladrilho hidráulico, o sino, o antigo moinho de café e objetos espalhados pelo ambiente ajudam a criar uma espécie de viagem pela Curitiba de outras épocas. Uma das mesas reúne utensílios de trabalho que pertenceram a Alceu Rocha, da tradicional Barbearia Itacolomi, que fica ao lado do bar.

Nas mesas com tampo de vidro, aparecem referências à cidade, e objetos históricos. Há até um antigo tubo de lança-perfume da Rodhia, usado nos carnavais de uma época em que o produto ainda era permitido. No banheiro masculino, um mapa de Curitiba do início do século XX chama atenção.

“O bar reúne trabalhos e referências a nomes como Poty Lazzarotto, Dalton Trevisan e Paulo Leminski. Entre as obras está uma representação do Buraco do Tatu, antigo bar curitibano ligado à história da carne de onça, pintada por Poty. A escolha de cada elemento tem seu propósito, o Distinto é um lugar de Curitiba, da cidade de Curitiba. Cada detalhe aqui está vinculado a algo de Curitiba”, explicou Cella.

O dono ainda conta que recebeu sugestões de pessoas ligadas à cultura e ao jornalismo paranaense, como Ernani Buchmann, Dante Mendonça e Fábio Campana. “A intenção era construir um ambiente que não fosse apenas bonito, mas que tivesse identidade. A tradicional feijoada de sábado tem sua própria história. A inspiração passa pelo memorialista Pedro Nava e chegou a despertar interesse acadêmico, com pesquisadores da área de literatura da Universidade Estadual de Londrina produzindo um artigo sobre o prato servido no estabelecimento, e contada com maestria pelo Luiz Augusto Xavier”; contou Cella.

Chope, carne de onça e festa na rua

Entre as tradições da casa está o chope, que Cella faz questão de destacar, além da carne de onça e do rollmops. Segundo o dono, a iguaria que tem peixe e cebola não deixa bafo (eu acreditei!).

“Um chope bem tirado, para quem sabe o que é um chope Brahma, pode até encontrar algum lugar que cuide e que tire bem. Mas melhor do que aqui, eu vou dizer que não tem. Nas quartas-feiras, a música ao vivo mantém outra tradição da casa, sem cobrança de couvert artístico”; exaltou o dono.

O Ao Distinto Cavalheiro também construiu uma história própria no carnaval curitibano. A pandemia interrompeu a festa, que retornou pouco tempo depois, mas que em 2026, não ocorreu. A ideia que em 2027, o “grito de Carnaval” ocorra na frente do bar.

“Eu vou fazer muita força para promovê-lo. A ideia é buscar patrocínios para garantir a estrutura necessária, incluindo atendimento médico e segurança.

Além do Carnaval, uma das tradições mais curiosas do Distinto Cavalheiro é o pré-réveillon, realizado todos os anos próximo ao Natal. A história começou em 2006, por iniciativa do engenheiro hidráulico, Jorge Vaine, que fez os cálculos da correnteza dos rios da região para criar uma celebração inusitada.

“No dia 23 de dezembro ou no dia 22, dependendo do volume de chuva, um cortejo sai do bar levando flores brancas e oferendas para Iemanjá. As flores são depositadas no Córrego Bigorrilho, na região da Rua dos Chorões, e seguem pela correnteza até o Rio Ivo, depois Rio Belém, Rio Iguaçu e, finalmente, o Rio Paraná, chegando ao Oceano Atlântico no dia 1º de janeiro. Depois todos voltam ao bar celebrando o Ano Novo”, exaltou Cella.

Miltinho, quatro décadas de balcão

Se os objetos preservam a memória, são os personagens que mantêm essa história viva. É o caso de Milton Soares dos Santos, o Miltinho.

Nascido no interior de São Paulo, ele chegou a Curitiba em julho de 1976. Em 1980, começou a trabalhar no Bar do Pudim. Ficou lá por 40 anos. Hoje, completa cinco anos no Ao Distinto Cavalheiro e soma aproximadamente 46 anos de trabalho com atendimento.

Miltinho fala do trabalho com a tranquilidade de quem conhece o balcão como poucos. Para ele, atender bem significa sorrir, conversar, conhecer a casa e tratar todos da mesma maneira.

“Tem que sorrir sempre e agradar sempre o cliente.Trabalho com calma, o atendimento é para quem chega, e sempre valorizando a casa”, afirmou Miltinho, que tem a companhia no trabalho da administradora Rubia Oliva, a gerente Letícia Terlizzi, o garçom Fernando Ricci e da cozinheira Elis Martins.

O resultado é uma legião de clientes que o acompanha há décadas. Pessoas que conheceram Miltinho no Bar do Pudim continuam procurando por ele no “novo” endereço. Alguns chegam de outras cidades e fazem questão de reencontrá-lo para dar um abraço no garçom que ainda faz a pimenta

São os artistas, escritores, o barbeiro da esquina, o garçom, os clientes antigos, as novas famílias, a feijoada e o carnaval. É o Ao Distinto Cavalheiro sendo uma dessas pequenas instituições que ajudam Curitiba a lembrar quem é.

Distinto Cavalheiro

Endereço: Rua Saldanha Marinho, 894 – Centro, Curitiba.

Horário de Funcionamento: segunda à sexta-feira das 16h até 0h; e nos sábados das 11h30 até 0h. Na quarta-feira tem música ao vivo.

Instagram: aodistintocavalheiro

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