Com o tempo, a Lei Pelé perdeu as suas virtudes como trânsito da igualdade e liberdade profissional. Pela influência dos empresários, o jogador deixou de ser a parte vulnerável na relação com o clube.

Quando se imprime o conceito de jogador que exerce profissionalmente o futebol, a ilustração mecânica entre nós é a dos jogadores dos grandes clubes.

Uma pesquisa no banco de dados da CBF vai provar o quanto estamos equivocados: no futebol brasileiro 95% dos jogadores não ganham mais do que três salários mínimos por mês, e, ainda, é obrigado a exercer a profissão em um ambiente pouco saudável.

E a maioria desse segmento ainda trabalha apenas quatro meses, durante os estaduais. A lei desses 95% é a do idealismo. O jogador se sustenta com ilusão e esperança. O conflito pelas consequências econômicas do coronavirus, portanto, estará limitado a 5% (ou talvez menos) da classe de jogadores.

Não irá me surpreender se os jogadores aumentarem a resistência em aceitar a redução de 25% dos seus vencimentos. O motivo de fundo, mais do que financeiro, é de cultura.

Por ser, em regra, originário de classes sociais carentes, o jogador tem dificuldades de compreender situações que se afastam da normalidade. Vivendo em uma redoma, na qual só cabem a fama e o dinheiro, não irá aceitar que essa situação cria uma força maior que se projeta sobre todos os contratos, de todas as espécies, inclusive, o seu contrato.

Se não fosse o bastante, a redução do seu salário implicará na redução dos ganhos do seu empresário e de toda a sua assessoria. Então, se ao natural uma compreensão é difícil, torna-se impossível sob pressão dos seus dependentes.

E não é só isso. Há um fato que atua como agravante: a representação da classe do jogador no futebol brasileiro. Com o poder nacional concentrado há décadas no mesmo patrono, Rinaldo Martorelli, que não deve ter a confiança integral da classe, ele se sente inseguro.

Eu não culpo o jogador. Ele nada mais é do que uma vítima do sistema do futebol, em que a compreensão não é uma virtude, mas uma conveniênciade todos. Se é compreensivo quando o negócio convém.

Não há como afastar a influência negativa que o coronavírus irá exercer de imediato no futebol. A maioria dos contratos de jogadores precisa ser reequilibrada. Mas os clubes já começam com um equívoco: por acordo coletivo é impossível, em razão de que se trata de uma profissão atípica, cujos valores dos salários são extraordinários; e não podem ser comandados pelos Fluminense, que é um devedor contumaz de salários. Amanhã encerro o tema.