A mulher de César

Foto: Albari Rosa

O dono do Athletico Mário Celso Petráglia já deve ter ouvido e usado que “à mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta”.

Mas, talvez, Petraglia não saiba qual a origem desse adágio.  Em seu “César”, o escritor australiano Collen McCullough narra: Pompeia, a segunda mulher de César, era jovem, bela e formosa. Convidada, foi a uma festa só de mulheres. O jovem e rico Publius Clodius, não suportando mais reprimir a sua paixão, e disfarçado com uma fantasia de tocadora de lira, entrou na festa para assediá-la. César soube, e mesmo que Pompeia tenha lhe sido fiel, pediu divórcio. No julgamento defendeu a absolvição de Publius e justificou: “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita”.

O atleticano de bom senso, ao encerrar a leitura do balanço fiscal do Athletico de 2018, fica apenas com uma dúvida: ou Mário Celso Petraglia acha que todos os atleticanos, em razão da paixão, perderam a mínima capacidade de análise, ou se ele próprio Petraglia perdeu definitivamente a vergonha?

A dúvida tem sentido.

No balanço, não há explicação fiscal, contábil ou jurídica para que o Athletico gaste 32 milhões de reais a título de despesas de transferência de jogadores para outras associações. Esse valor corresponde a 73% dos 43 milhões de reais arrecadados. Não está presente a lógica como pressuposto de qualquer demonstração financeira.

Quando a letra e o espirito da lei exigem que os clubes publiquem o balanço anual de sua ordem financeira, não limita a obrigação à simples publicação. Ela exige a transparência dos números, que só é manifestada com a explicação de sua origem.

Por que o Athletico gastou 32 milhões de reais na transferência de jogadores para outras associações?

Com número lançado de forma genérica, seca e fria, sem uma nota explicativa, o balanço não responde. Sendo omisso, sugere qualquer interpretação, inclusive a de que embute benefícios que não estão na esfera de interesses do clube.

Petraglia acha que não tem obrigação de explicar o que faz, o que manda fazer ou deixar de fazer. É quando o homem não tem nenhum constrangimento de assumir que a vergonha não é tão importante.

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