Por Ricardo Siqueira*

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Na Praça Tiradentes, o Edifício Miguel Calluf, que leva o nome de seu fundador, já foi um ponto de encontro e hospedagem de Curitiba. Localizado na esquina da Avenida Marechal Floriano Peixoto com a Rua Cândido de Leão, o prédio foi inaugurado em dezembro de 1954, em comemoração ao centenário da Emancipação Política do Paraná. Na época, foi considerado o maior arranha-céu do Estado.

A construção foi encomendada pelo empresário sírio Miguel Calluf, proprietário da loja de tecidos Louvre Curitybano, sucesso na primeira metade do século XX. O imigrante chegou a Curitiba aos 19 anos, começou a trabalhar como mascate e, com o tempo, prosperou economicamente, chegando a comandar diferentes empreendimentos de varejo na cidade.

Na década de 1950, com a expansão da produção de café no interior do Paraná, o então governador Bento Munhoz da Rocha Neto incentivou os empresários de Curitiba a investir na modernização da cidade. A proposta incluía a construção de edifícios maiores e mais luxuosos, que dariam uma nova aparência à capital, então com cerca de 200 mil habitantes.

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Calluf atendeu ao chamado. Contratou o engenheiro Ralph Leithner para projetar um edifício com oito mil metros quadrados e 22 andares, com 180 apartamentos e dois salões de festas, um no primeiro e outro no segundo pavimento. O prédio foi erguido em frente à Praça Tiradentes, no local onde ficavam o Empório Íris e a casa da família Calluf.

Foto: Arquivo/Casa da Memória de Curitiba.

Com estilo art déco, a fachada do edifício ficou marcada pela semelhança com o Flatiron Building, de Nova York, embora a família negue que a construção norte-americana tenha servido de inspiração. Os familiares, por outro lado, destacam a origem estrangeira dos móveis, utensílios e equipamentos utilizados no empreendimento, incluindo o elevador que ainda permanece no prédio. O conjunto representava o luxo oferecido aos hóspedes do hotel que ocupou o local.

Hotel cinco estrelas e administração portuguesa

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O Lord Hotel foi o primeiro empreendimento hoteleiro instalado no edifício. Em uma época de intensa movimentação no Centro de Curitiba, hóspedes vinham de diferentes lugares para aproveitar a programação da cidade, que incluía boates, como o Moulin Rouge, teatros e cinemas. O hotel também passou a receber festas próprias, além de diplomatas, comitivas esportivas e artistas.

Embora a administração fosse feita por terceiros, Miguel Calluf continuava acompanhando de perto os negócios. Após a morte do empresário, em 1962, o edifício e parte de seus bens passaram a ser administrados pelo advogado responsável pelas finanças da família. O arrendamento para redes hoteleiras continuou, mas o Lord Hotel perdeu prestígio ao longo dos anos.

Em 1976, o Lord Hotel deu lugar ao Hotel Eduardo VII, administrado por um grupo de portugueses que também mantinha outros hotéis em territórios que fizeram parte do antigo Império Português. Sem as festas luxuosas promovidas pelo antecessor, o novo empreendimento passou a investir na gastronomia.

O restaurante Varanda, instalado no primeiro andar do edifício, atendia diariamente às famílias curitibanas e servia especialidades brasileiras, portuguesas e internacionais. O cardápio levava a assinatura do renomado chef europeu Sr. Luiz Fernandes.

O hotel também sediava congressos, encontros e premiações de diferentes categorias profissionais. O antigo gerente Rui da Silveira Cruz Ventura relatou que o estabelecimento costumava ficar lotado com comitivas de empresas e instituições da cidade. Pai dentro do próprio hotel, ele diz não se lembrar de todos os hóspedes, mas guarda a memória da relação de cortesia entre os funcionários e os diretores do empreendimento.

Apagar das luzes

Em 2003, o reinado português na Avenida Marechal Floriano chegou ao fim. O Hotel Eduardo VII deu lugar ao Afamia Hotel. Os novos administradores, familiares distantes dos Calluf, estavam acostumados a gerenciar um negócio de pequeno porte em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo. A experiência, porém, não foi suficiente para sustentar o empreendimento, que fechou as portas em 2006.

Em 2004, ainda houve espaço para uma última festa para Mariah Salomão Calluf, bisneta do empresário que fundou o edifício. Arquiteta e empresária do ramo da moda, ela escolheu o hotel como o lugar ideal para seu casamento. A lua de mel, que seria realizada no próprio hotel, acabou transferida para o apartamento novo do casal. 

Dois anos depois, após intensas discussões entre os filhos e representantes dos herdeiros de Miguel Calluf, a família decidiu vender o imóvel. Em 2008, o edifício foi vendido por R$ 4 milhões à empresa Iguassu Participações Ltda., responsável pelo imóvel até hoje. 

Apesar de encerrar as atividades hoteleiras em 2006, o prédio não deixou de abrigar moradores. O atual proprietário disponibiliza apartamentos a famílias que trabalham como caseiras, cuidando do local e evitando a entrada de invasores.

A possibilidade de recuperar o luxo e a antiga importância do Eduardo VII voltou a ser discutida quando o imóvel foi oferecido a incorporadoras e empresas interessadas em participar de um projeto de restauração e revitalização. No entanto, o projeto não avançou. Disputas judiciais e acordos não cumpridos impediram o andamento das propostas.

Com mudanças na legislação urbana de Curitiba, o edifício, classificado como Unidade de Interesse de Preservação (UIP), pode ter acesso a incentivos do poder público municipal para sua recuperação. O pedido está em tramitação para a obtenção de incentivo por meio de um edital do programa Curitiba de Volta ao Centro. Segundo ela, ainda será necessário aguardar a conclusão da análise. Caso seja aprovado, o poder público poderá custear até R$ 4,6 milhões das obras de restauração.

Livro contará história do edifício

No dia 3 de novembro, às 19h, no auditório da Câmara Municipal de Curitiba, acontece o lançamento do livro-reportagem As três vidas do Lord, que reúne relatos de familiares do fundador, antigos funcionários e moradores do local. A produção é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) dos estudantes Camila Lara de Oliveira, Gustavo dos Reis Xavier, Mariana Pereira Souza, Ricardo de Siqueira Pereira, Stephanie Hemkemaier Carneiro e Vinicius de Oliveira Sech.

Lançamento do livro reportagem As três vidas do Lord
Data: terça-feira (3), às 19h
Local: Auditório da Câmara Municipal de Curitiba
Ingressos gratuitos: acesse aqui 

* Ricardo Siqueira é um dos autores do livro.