Por Nichollas Marshell
Trabalho com tecnologia desde os 14 anos, e, hoje, aos 34 anos, e à frente das minhas empresas, uma preocupação cresce a cada dia. Estamos a todo momento integrando sistemas e processos a ferramentas majoritariamente em nuvem, e os serviços de IA precisam dessa infraestrutura para rodar, não tem jeito. Só que o fluxo de informações sensíveis trafegando nesse caminho é surreal: de processos judiciais a dados financeiros, tudo indo para servidores no exterior. Com o nosso consentimento.
Agora pense: se alguns anos atrás eu dissesse que todos os seus dados estariam nas mãos de meia dúzia de empresas, você aceitaria?
Pois é diante desse dilema que estamos. O que vale mais: a conveniência do dado ou o sigilo? Todo mundo responde que o sigilo. Mas todo mundo se comporta como se fosse a conveniência. Estamos reféns das ferramentas de IA pelo simples tamanho da disrupção que essas empresas causaram no mercado, e enquanto não se popularizam soluções capazes de substitui-las (você sabe quais são), não temos garantia de que nossos dados estão soberanos ou seguros como deveriam.
Por isso, meu conselho: implementar IA pode ser muito mais seguro se você trabalhar em camadas. Não é preciso usar 100% dos dados de uma empresa para entregar resultado. Dá para preservar informações e manter sigilo. Como? O segredo está no processo. Quando construímos sistemas nas minhas empresas, trocamos os dados-chave por IDs em uma tabela paralela à qual só o nosso banco tem acesso. CPFs, CNPJs, endereços e informações sensíveis ficam protegidos dessa forma. A técnica tem nome, pseudonimização, e está prevista na própria LGPD. Na prática, a IA trabalha com códigos, e a chave que traduz os códigos em pessoas reais nunca sai de casa. Isso garante controle sobre quem acessa o quê, e por quê.
Portanto, não cometa a besteira de jogar todas as suas informações nessas plataformas de IA. Você não está entregando apenas dados sensíveis. Está entregando informações precisas sobre você, seu negócio e seus clientes, que no futuro serão usadas de alguma forma, por alguém, para algum fim que você não controla.
O futuro do mundo está se concentrando em poucas mãos. A chave dos seus dados não precisa estar nelas.
Nichollas Marshell é CEO da Ideas Hub, embaixador de inovação do Paraná e especialista em IA e inovação
