Por Roni Miranda*
Quem trabalha com educação sabe que os bons resultados não aparecem de uma hora para outra. Para que um estado com as dimensões e os desafios do Paraná pudesse se tornar referência em educação no Brasil, foi preciso colocar em prática uma estratégia que unisse diagnóstico, acompanhamento e, acima de tudo, confiança nas pessoas que fazem a rede funcionar todos os dias – e sem medo de corrigir a rota se fosse necessário. Como professor, sempre enxerguei a educação dessa forma. E foi com essa visão que assumi, há quatro anos, a responsabilidade de conduzir a Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Hoje, temos razões muito concretas para dizer que alcançamos nossos objetivos.
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025 colocou o Paraná, pela terceira edição consecutiva, na liderança nacional da educação básica. Ficamos em primeiro lugar nas três etapas avaliadas, com nota 6,9 nos anos iniciais do ensino fundamental da rede pública, 5,8 nos anos finais e 5,1 no ensino médio. Neste último caso, somos o único estado brasileiro a ultrapassar a marca de cinco pontos. Mais importante do que a colocação, porém, é olhar a trajetória: desde 2017, o Ideb do ensino médio passou de 3,7 para 5,1, enquanto nos anos finais avançou de 4,6 para 5,8, considerando a rede estadual.
O Pisa 2025, a mais importante avaliação internacional de estudantes, trouxe outra confirmação. O Paraná teve o melhor desempenho entre os estados brasileiros nas quatro áreas avaliadas: Ciências, Leitura, Matemática e Resolução de Problemas com Ferramentas Computacionais. Nossos estudantes alcançaram resultados superiores aos registrados por todos os países latino-americanos participantes e até por alguns europeus.
São avaliações diferentes, com metodologias e objetivos próprios, mas tanto o Ideb quanto o Pisa apontam na mesma direção: as crianças e jovens paranaenses estão aprendendo mais, avançando na trajetória escolar e seguindo até o fim da educação básica.
No Paraná, a inteligência artificial ajuda a personalizar o ensino e permite que o professor acompanhe melhor uma turma numerosa. Pode também reduzir tarefas operacionais e dar retorno mais rápido aos estudantes. Mas faço questão de repetir: nenhuma tecnologia substitui o professor
Costumo dizer que não existe “bala de prata” para a educação. O que existe é um trabalho que começa pela avaliação, passa pela formação dos professores e chega à sala de aula por meio do currículo e do acompanhamento pedagógico. Passamos a usar cada vez mais os dados para identificar dificuldades e agir sobre elas. Se uma avaliação mostra, por exemplo, que uma turma ou uma série tem dificuldade em determinado conteúdo de Matemática, essa informação precisa chegar ao professor acompanhada de formação, material e tempo para trabalhar aquela habilidade. Foi assim que fortalecemos a recomposição da aprendizagem, com aulas específicas de Língua Portuguesa e Matemática no 9º ano do ensino fundamental e na 3ª série do ensino médio.
Também investimos muito na formação de professores. O Formadores em Ação passou a contar com cerca de 30 mil participantes a cada trimestre. Produzimos materiais aula a aula para dar um ponto de partida ao docente, sem retirar sua autonomia para adaptar o conteúdo à realidade de cada turma. E ampliamos o acompanhamento das escolas e das equipes regionais, porque a Secretaria precisa estar perto de quem enfrenta os problemas todos os dias.
Nada disso, no entanto, funcionaria sem diálogo. Não é possível baixar um decreto e transformar uma rede desse tamanho do dia para a noite. É preciso ouvir diretores, professores, pedagogos, estudantes, famílias, equipes dos Núcleos Regionais e também trabalhar junto aos municípios. Algumas ideias funcionam muito bem desde o início. Outras precisam ser ajustadas. Trabalhar com educação também exige humildade para reconhecer isso.
Outra prioridade foi garantir que o estudante permanecesse na escola. A busca ativa e o acompanhamento das faltas passaram a fazer parte do cotidiano da rede. Ao mesmo tempo, ampliamos a alimentação e a jornada escolar. O Paraná saiu de cerca de 30 escolas de tempo integral, em 2019, para 485 hoje, atendendo mais de 100 mil estudantes. E tempo integral, para nós, não significa simplesmente ficar mais horas na escola: significa receber formação ampliada, com oportunidades que incluem robótica, educação financeira e cinco refeições diárias.
Também ampliamos os colégios cívico-militares, especialmente em regiões de maior vulnerabilidade, e hoje temos a maior rede desse modelo no país. Criamos portas para que os jovens enxerguem novas possibilidades para o próprio futuro. O Ganhando o Mundo já proporcionou experiências acadêmicas e culturais no exterior a quase cinco mil estudantes. Com o Aprova Paraná Universidades, aproximamos ainda mais a escola pública do ensino superior, usando a avaliação estadual como caminho de acesso às universidades.
Nesse processo, a tecnologia ganhou espaço, mas sempre como uma ferramenta. No Paraná, a inteligência artificial ajuda a personalizar o ensino e permite que o professor acompanhe melhor uma turma numerosa. Pode também reduzir tarefas operacionais e dar retorno mais rápido aos estudantes. Mas faço questão de repetir: nenhuma tecnologia substitui o professor. Ela precisa fortalecer seu trabalho.
O Redação Paraná é talvez o melhor exemplo disso: ele combina inteligência artificial, aprendizagem e mediação docente. A ferramenta funcionou tão bem que, em setembro, recebeu em Paris o prêmio da Unesco para uso de tecnologias na educação. Foi uma das duas iniciativas escolhidas mundialmente entre 114 candidaturas de mais de 50 países.
Para mim, que comecei a trajetória profissional dentro de uma sala de aula e tive a oportunidade de conduzir a educação do estado, não há outro sentimento senão o de dever cumprido. Conheço a escola pelo lado do professor e aprendi a conhecê-la também pelo desafio de administrar uma rede complexa e diversa, com cerca de 1 milhão de crianças e jovens.
Por isso, sei que nenhum desses números pertence a uma pessoa ou a um gabinete. Eles pertencem aos professores, diretores, pedagogos, funcionários, equipes regionais, famílias e, principalmente, aos estudantes. Foi um ciclo de muito trabalho, diálogo e disposição para experimentar novos caminhos sem perder de vista aquilo que sempre esteve no centro de tudo: fazer o aluno aprender mais e abrir para ele novas possibilidades de futuro.
*Roni Miranda é secretário de Estado da Educação do Paraná.
