Formada em Medicina pela UFPR e com a residência em Pediatra e Infectologia Pediátrica recém concluída, tive como primeira oportunidade de trabalho atuar como médica em Epidemiologia e Controle de Infecção Hospitalar e identifiquei que dentro de hospital, em uma área de atuação técnica e administrativa, me sentia em casa, com energia, e que este ambiente seria definitivamente meu “habitat profissional”.

A partir dessa constatação a gestão “entrou na minha corrente sanguínea”. Lá se vão 27 anos de formada, 24 anos que fui a campo de trabalho após a saída do hospital escola. Quando olho para trás, penso: sinto-me realizada pelas escolhas e, o mais importante, faria tudo novamente.

Meus propósitos iniciais de cuidar de pessoas são exercidos diariamente e de forma plena, seja tomando decisões, seja interagindo com colegas e colaboradores ou analisando planilhas de resultados. Porém, essas certezas nem sempre foram claras. Foram construídas à medida em que fui me capacitando, adquirindo conhecimentos específicos, ganhando experiência, errando e acertando, vencendo a timidez e a insegurança, ouvindo as críticas e aprendendo a me comunicar.

Entendo que essas dificuldades independem de gênero masculino ou feminino e estão fortemente relacionadas às competências necessárias para os cargos de liderança e à personalidade. No entanto, essa constatação não elimina os julgamentos e as barreiras que não apenas eu, mas que grande parte de nós, mulheres, ainda enfrenta e que, com um certo pesar, reconheço, podem vir inclusive de outras colegas e de várias formas: na remuneração, nas falas e, algumas vezes, até veladas, pelo reconhecimento que não veio, pela velocidade de crescimento mais lenta e pelas oportunidades que demoram para acontecer.

Além disso, o “boicote” pode vir de nós mesmas, como sentimento de culpa. Como ser em 100% do tempo uma profissional competente e admirada, manter-se atualizada e crescer na organização, sendo ainda a melhor mãe e companheira presente? Enfim, como equilibrar todos estes “pratinhos”? Muitas vezes nos impomos uma escolha sobre a que vamos nos dedicar.

É preciso ter cuidado com estas “armadilhas”! E, talvez, esta seja minha maior contribuição para as mulheres maravilhosas que tive e ainda tenho o privilégio de conhecer e trabalhar: dizer sempre que não somos infalíveis, que vamos errar sim, vamos estar ausentes às vezes, mas vamos superar. Até hoje, estive ausente em apenas uma apresentação de capoeira de um dos meus garotos e, bingo, fui “cobrada”. Não pelo meu filho, mas por outra mãe. 

Por mais que a gente erre, ou pense que está errada, devemos nos perdoar. No fim das contas, acertaremos muito mais vezes e o impacto disso será muito maior. Estaremos presentes e m grande s momentos e, no futuro, nem lembraremos dos verdadeiros malabarismos que fizemos para estar junto. Só teremos as memórias compartilhadas e seremos a melhor mãe que nossos filhos já tiveram e a melhor companheira que conseguimos ser! 

Em casa, o apoio do meu marido foi e é pleno e alternamos os papéis numa boa. Vejo cada vez mais os colegas homens se desdobrando também com trabalho, casa, filhos. Andamos muito e andamos juntos. 

Hoje, atuo na Direção Geral do Hospital Erasto Gaertner e sei que estou em uma organização saudável em que as diferenças da liderança masculina e da feminina são complementares e sinérgicas. Nossos líderes e liderados sentem-se responsáveis pelo desenvolvimento e expansão do Câncer Center. Os sonhos e objetivos são compartilhados e o trabalho desenvolvido é tão ou mais valorizado que o próprio resultado em si.

Percebo diariamente a luta das nossas colaboradoras e são muitas. Representamos 83% da força de trabalho na nossa instituição e vejo esse time cuidando, crescendo, ensinando e aprendendo. Algumas características femininas que eventualmente foram consideradas em algum momento fragilidades, são usadas por elas para a gestão, com habilidade, como a preocupação com o outro e com suas necessidades, a afetuosidade, a flexibilidade (que não é fraqueza ou falta de convicção), a capacidade de adaptação rápida e facilidade, ou humildade, em reconhecer o erro e aprender. E o contrário também vale, pois estamos cada vez com mais força nas decisões e com a determinação, praticidade e resolutividade tão característica das lideranças masculinas.

Não encaro como uma corrida de gêneros ao poder, isto não será saudável para nenhum dos lados e muito menos para as organizações. Deve haver igualdade nas oportunidades e respeito independentemente de gênero, raça, condição social, etc. No mais, dependerá do empenho e dedicação pessoal.

por Carla Martins, Diretora Geral – Hospital Erasto Gaertner.