A inteligência artificial no setor público entrega seu maior valor quando o algoritmo opera sobre uma infraestrutura técnica madura e transparente. Ela precisa de dados bem tratados, sistemas integrados, redes estáveis, contratos de nuvem bem desenhados, centros de dados com elasticidade, servidores equipados e cidadãos atendidos com previsibilidade. Eis o ponto decisivo. O Brasil pode ter ambição correta, bons casos de uso e discurso moderno. Ainda assim, a inteligência artificial só vira serviço público melhor quando encontra uma base tecnológica capaz de sustentar volume, risco, auditoria e continuidade.

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Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024–2028 coloca essa ambição em escala nacional. O plano prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028 e inclui a criação de um supercomputador entre os 5 mais potentes do mundo, voltado a ampliar capacidade de pesquisa e processamento de dados. O Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial (OBIA) reforça a mesma direção. O PBIA prevê R$ 23 bilhões em quatro anos, com foco especial no setor público, na melhoria da qualidade de vida, na otimização de serviços e na inclusão social. O país já formulou a promessa. Agora precisa executar a parte menos vistosa e mais determinante.

Há bons sinais. Dados de 2025 do Governo Digital apontam 182 soluções de inteligência artificial em operação no Poder Executivo federal, 144 órgãos com planos para adotar assistentes de IA e 41 órgãos com diretrizes de IA definidas. O número impressiona, claro, mas também revela maturidades distintas. Uma solução em operação vale pouco quando permanece confinada a um fluxo interno, sem integração com bases confiáveis, sem critérios claros de risco e sem capacidade de escala. A diferença entre piloto e política pública aparece justamente nesse ponto.

Nos municípios, a inteligência artificial já ensaia contato direto com o cidadão. O SP156 testou, em 2025, um recurso que permite ao usuário enviar uma foto para que o sistema sugira o serviço adequado. A fase inicial identificava seis tipos de serviços; a plataforma reúne mais de 700 serviços, cerca de 10 milhões de acessos e 2 milhões de solicitações resolvidas por ano. Parece simples. Não é. Para o cidadão, a inteligência aparece como resposta rápida. Para a administração, ela exige classificação de demandas, integração entre secretarias, qualidade de cadastro, disponibilidade do aplicativo, registro de evidências e proteção de dados pessoais. O atendimento inteligente começa no balcão digital, mas depende de uma engenharia institucional inteira por trás.

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Essa é a conversa que costuma perder espaço para a novidade do modelo. Infraestrutura de TI significa servidores, redes, conectividade, centros de dados, nuvem, armazenamento, cópias de segurança, monitoramento, identidade digital, gestão de acesso, segurança cibernética, governança de dados e muito mais. Em linguagem direta, é o conjunto que permite que aplicações, e-mails, sistemas administrativos, bancos de dados e serviços ao cidadão permaneçam ativos, íntegros e rastreáveis. Sem essa base, a inteligência artificial vira um enfeite caro sobre uma casa antiga.

O problema ganha peso no setor público porque governo lida com direitos, dinheiro público e assimetrias sociais. Um erro em recomendação comercial causa irritação. Um erro em saúde, educação, assistência social ou concessão de benefício causa dano concreto. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) analisou 200 casos de uso de IA em governos e identificou que 57% apoiam automação, simplificação ou personalização de processos e serviços; 45% aprimoram decisão, interpretação ou previsão; e 30% miram prestação de contas e detecção de anomalias. A oportunidade é enorme. O risco também tem tamanho institucional.

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Por isso, infraestrutura e governança formam uma única discussão. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) atualizou seus princípios de IA em 2024 e recomenda ecossistemas digitais com dados, tecnologias de IA, infraestrutura computacional e conectividade, além de transparência, explicabilidade, segurança, robustez e responsabilização. Para diretores e gerentes de tecnologia do setor público, essa diretriz tem consequência prática. Antes de contratar uma solução de IA, convém perguntar no mínimo onde estão os dados, quem acessa, como o modelo explica decisões, qual o plano de contingência, quais métricas medem erro, viés e disponibilidade, e como o órgão presta contas ao cidadão.

A infraestrutura também define soberania. O relatório AI Index 2026, da Stanford University, informa que os Estados Unidos hospedam 5.427 data centers, mais de 10 vezes qualquer outro país. O dado expõe algo que o debate público às vezes suaviza. A inteligência artificial tem corpo físico. Consome energia, depende de chips, redes, refrigeração, armazenamento, enlaces, segurança e arquitetura. País que deseja aplicar IA em políticas públicas precisa de capacidade própria ou de arranjos contratuais muito bem governados. Caso contrário, delega decisões sensíveis a uma cadeia técnica que mal consegue auditar.

Banco Mundial resume a questão por meio dos quatro Cs da inteligência artificial. Conectividade, computação, contexto de dados e competências. A fórmula é útil porque corta o encanto retórico. Computação sem dado contextualizado gera respostas frágeis. Dado sem conectividade preserva ilhas administrativas. Conectividade sem competência aumenta dependência de fornecedores. Competência sem infraestrutura condena bons servidores a improvisos heroicos. Nada disso combina com escala pública.

Quando a base existe, os benefícios aparecem com menos propaganda e mais consequência. Na saúde, modelos podem apoiar triagem, prever demanda e orientar alocação de equipes. Na educação, sistemas podem identificar lacunas de aprendizagem, personalizar materiais e reduzir tempo de resposta administrativa. Na assistência social, cruzamentos auditáveis de dados podem melhorar focalização de benefícios e reduzir desperdícios. Em todos esses casos, a inteligência artificial presta serviço ao cidadão quando opera dentro de uma arquitetura confiável, explicável e segura.

A maturidade real virá da combinação entre investimento, governança e disciplina operacional. Governos municipais, estaduais e federais precisam tratar infraestrutura como política pública. Isso vale para capacitação de servidores, contratação de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), desenho de indicadores e segurança cibernética. Inteligência artificial responsável custa planejamento. Custa método. Custa continuidade administrativa. O Brasil tem uma janela relevante. O PBIA sinaliza ambição computacional; o Governo Digital mostra adoção em curso; a agenda internacional já deixou claro que infraestrutura, dados e governança definem a diferença entre eficiência e frustração. O próximo passo exige menos fascínio pelo protótipo e mais respeito pela base. A inteligência artificial pode tornar o Estado mais ágil, transparente e próximo do cidadão. Pode também repetir velhos vícios com linguagem nova. O divisor será a infraestrutura. Um governo inteligente começa quando a tecnologia deixa de encantar gestores e passa a servir pessoas, todos os dias, sem espetáculo e sem desculpa. Com inovação e, antes de tudo, eficiência.

(*) Marielva Andrade Silva Dias é vice-presidente de Negócios para Instituições Públicas da Positivo Tecnologia