Escrevo este texto com dor, revolta e indignação profunda. Não apenas como colunista, mas como cidadão que se recusa a aceitar que a crueldade seja normalizada. A morte do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis, não foi um acidente, nem uma brincadeira que saiu do controle. Foi um ato brutal, e precisa ser tratado como tal.
Orelha viveu por mais de dez anos naquele espaço. Era conhecido, cuidado, alimentado e respeitado pela comunidade. Não representava ameaça alguma — era parte da vida de moradores, pescadores e comerciantes da região. Ainda assim, foi espancado até não resistir, ficando com ferimentos tão graves que precisou ser sacrificado por motivos de bem-estar animal.
Ação judicial e mobilização da comunidade
A Polícia Civil de Santa Catarina identificou quatro adolescentes como suspeitos de espancarem Orelha. A delegada responsável informou que há indícios de autoria e que os pais desses jovens devem prestar depoimento.
+ Causa animal em 2026: avanços legislativos, pressão social e desafios persistentes
Indignados com tamanha crueldade, moradores organizaram um protesto pacífico no último sábado (17). Mais de 100 pessoas caminharam em direção ao edifício onde os adolescentes residem, pedindo justiça pelos animais e punição pelos responsáveis.
Segundo moradores da região, além de Orelha, um segundo cão comunitário chamado Caramelo também teria sido morto pelos mesmos jovens, isso sendo confirmado já podemos dizer que são psicopatas?
Como tudo pode piorar, o porteiro do prédio onde moram esses adolescentes e que filmou o crime, foi demitido, mais uma forma de esconder os fatos, os pais em vez de agir com severidade ainda querem apagar todo mal cometido pelos seus filhos.
Revolta como pai e cidadão
Falo aqui não apenas como colunista, mas como pai. Tenho três filhos — Benjamin, de 10 anos; Alícia, de 15; e Paula, de 18 anos — e, junto com minha esposa Karol, desde cedo ensinamos que toda forma de vida merece respeito. Isso não é discurso vazio: é princípio ético básico, fundamento de empatia e civilidade.
+ Leia também: Você usa calçados, eles não: o perigo invisível do calor para cães
Ver um grupo de adolescentes cometer um ato dessa crueldade revela que ainda há muito a ser feito, urgentemente, nas nossas famílias, nas nossas escolas e na formação de valores das novas gerações.
Educação e prevenção: o que precisamos fazer de verdade
Não acredito que maus-tratos sejam um problema apenas de punição. Eles são, acima de tudo, um sinal — e os estudos sociais que embasam a Teoria do Elo mostram que atos cruéis contra animais, especialmente na infância e adolescência, podem estar associados a padrões de violência mais amplos no futuro. Ignorar essa conexão é fechar os olhos para um problema que pode crescer e atingir outras vítimas, inclusive humanas.
+ Leia também: O amor que envelhece com eles: a delicada jornada dos pets idosos
Por isso, não basta apenas responsabilizar legalmente os adolescentes. É preciso que pais e responsáveis também sejam chamados a responder, especialmente se houver qualquer indício de negligência ou tentativa de interferir na apuração dos fatos. E é igualmente essencial que palestras, cursos e educação sobre respeito à vida animal façam parte da base curricular das escolas, em todas as idades. Isso não deve ser tratado como extra ou opcional — deve ser prioridade pedagógica e social.
Justiça por Orelha — e por nós mesmos
A perda do cachorrinho Orelha não deve ser apenas mais uma manchete que se dilui no tempo. A reação da população nas ruas mostrou que há um limite moral que precisa ser reafirmado. A violência contra animais é crime, é sintoma e é um alerta que não pode ser ignorado.
Minha indignação é porque Orelha era indefeso.
Minha indignação é porque tentam minimizar o que aconteceu.
Minha indignação é porque testemunhas merecem proteção e respeito.
E minha indignação é porque sei que, sem consequências reais e educação sólida, outros casos virão.
Justiça por Orelha não é slogan. É exigência ética, social e humana.
