Estamos novamente em época de eleição. E basta a campanha começar para aparecer candidato de tudo quanto é lado abraçando cachorro, visitando abrigo e dizendo que sempre foi defensor dos animais.
Quanto mais gente defendendo a causa, melhor. O problema é saber quem realmente tem compromisso e quem descobriu agora que cachorro e gato também dão voto.
Como militante da causa animal há décadas, acompanhei boa parte dessa história de perto. E faço questão de lembrar: a causa animal não começou agora e muito menos nasceu nas redes sociais.
Muito antes de existirem seguidores, curtidas e vídeos de resgate, já havia gente cobrando governos, discutindo leis, organizando entidades, resgatando animais e lutando para transformar proteção animal em política pública.
Setembro ganhou a cor “caramelo” no Paraná; entenda a campanha
Eu estava nessa luta. Fui um dos primeiros a levar propostas da causa animal para um plano de governo, numa época em que essa pauta ainda causava estranheza e quase não aparecia entre as prioridades do poder público.
Hoje fico feliz em ver a causa ocupando espaço nas eleições. Mas também vejo muita gente usando os animais sem sequer gostar de bicho. Descobriram que animal gera engajamento, rende uma boa foto e, principalmente, voto.
Antes de escolher seu candidato, converse com quem conhece essa história. Procure ONGs, protetores e pessoas que estão na causa há anos, muitas delas há décadas. Pergunte sobre os candidatos. Quem vive a causa tem memória, e memória em época de eleição é fundamental.
Mais do que pets
Também é preciso entender que causa animal não é só cachorro e gato.
Quem realmente defende os animais precisa olhar para a fauna silvestre, combater o tráfico, preocupar-se com atropelamentos, queimadas, desmatamento e preservação dos habitats. Não existe proteção animal de verdade sem responsabilidade ambiental.
Mustangs, os “cavalos selvagens”, a US$ 25: quando a liberdade termina no frigorífico
E essa cobrança precisa chegar também aos candidatos a governador e a presidente da República. O próximo governador do Paraná e o próximo presidente precisam ter uma visão clara para a causa animal e para as políticas ambientais. São governos que podem transformar boas intenções em programas, orçamento e políticas públicas permanentes.
Outra coisa que aprendi nesses anos todos: não confunda número de seguidores com trabalho realizado.
Um vídeo de resgate pode ter milhões de visualizações. Uma política pública talvez nunca viralize. Mas é ela que pode evitar que milhares de animais precisem ser resgatados amanhã.
Muita gente construiu essa causa quando não existiam redes sociais, quando defender animais não dava voto, curtida ou visibilidade. Essas pessoas abriram caminho para chegarmos até aqui.
Depois do resgate de um animal, quem fica com a conta?
Depois da eleição, as fotos somem, os santinhos vão para o lixo e os vídeos de campanha deixam de circular.
Os problemas dos animais continuam.
Depois de décadas nessa luta, aprendi que a causa animal não precisa de salvadores de época de eleição. Precisa de gente comprometida com ela durante todo o tempo. Gente que continue a fazer o certo, ganhando ou não.
A causa animal é para a vida inteira.
Precisamos de pessoas na luta pelos animais, não na luta para seu próprio proveito.
