O debate sobre a realização de rodeios em Guaratuba não pode ser tratado como simples divergência de opinião. Trata-se de uma discussão sobre valores, identidade cultural e, sobretudo, respeito ao bem-estar animal. Diante disso, cresce o entendimento de que o município deve proibir esse tipo de evento, seguindo o exemplo de cidades como Curitiba, onde práticas com animais em espetáculos já foram vetadas.
Diferentemente de regiões do interior do país onde o rodeio está historicamente associado à formação cultural e econômica, Guaratuba tem sua identidade ligada ao litoral, à pesca artesanal, ao turismo de praia e à Mata Atlântica. Não há enraizamento histórico que justifique a classificação do rodeio como tradição local. Importar esse tipo de evento não o transforma automaticamente em patrimônio cultural.
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A discussão também passa por princípios amplamente reconhecidos de proteção animal, como as “cinco liberdades”, que defendem que os animais devem estar livres de dor, medo, estresse e sofrimento. Provas de montaria e outras modalidades típicas de rodeio são alvo constante de críticas de especialistas e entidades de proteção animal justamente por submeterem os animais a situações de intensa pressão física e psicológica.
Se há dúvida razoável sobre a integridade e o bem-estar dos animais envolvidos, cabe ao poder público agir com prudência. A administração municipal tem o dever de zelar não apenas pelo entretenimento, mas também por princípios éticos e legais relacionados à proteção da fauna.
Cultura não é argumento absoluto
É comum que defensores do rodeio invoquem o argumento da tradição. No entanto, cultura não é conceito estático nem justificativa automática para qualquer prática. Ao longo da história, diversas atividades foram revistas ou abandonadas conforme a sociedade evoluiu em sua compreensão sobre direitos, dignidade e ética.
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Guaratuba tem potencial para investir em eventos culturais, esportivos e turísticos alinhados à sua vocação natural, sem recorrer a práticas que dividem a comunidade e levantam questionamentos éticos. Festivais gastronômicos, celebrações ligadas ao mar, à sustentabilidade e à cultura caiçara são exemplos de iniciativas mais coerentes com a identidade local.
Um posicionamento necessário
Ao proibir rodeios, o município não estaria negando cultura — estaria afirmando valores. Assim como Curitiba já adotou medidas restritivas em relação a espetáculos com animais, Guaratuba pode optar por um caminho que privilegie o respeito à vida e à sensibilidade contemporânea.
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Mais do que decidir sobre um evento específico, trata-se de definir que tipo de cidade se quer construir: uma que reproduz práticas controversas ou uma que se posiciona de forma clara em defesa do bem-estar animal. A proibição do rodeio seria um passo coerente com uma visão moderna, ética e alinhada às expectativas de uma sociedade cada vez mais consciente.
Por que Guaratuba deve proibir o rodeio: um passo ético e alinhado ao bem-estar animal
O recente movimento contrário à realização de provas de rodeio durante a Expo Guaratuba reacende uma discussão necessária sobre os valores e prioridades culturais do município. Diferentemente de cidades que historicamente acolheram rodeios como parte de sua tradição rural, Guaratuba — conhecida por suas praias, turismo litorâneo e vocação turística — não possui esse evento como traço cultural genuíno. E é exatamente por isso que a proposta de proibição merece apoio.
Uma petição pública que circula na plataforma Petição Pública Brasil, intitulada “Não ao Rodeio em Guaratuba”, já reúne centenas de assinaturas e foi dirigida ao prefeito, aos vereadores de Guaratuba e ao Ministério Público do Paraná. A iniciativa pede que as autoridades municipais retirem provas de montaria e demais competições com uso de animais da programação da Expo Guaratuba — tradicional evento que movimenta a economia local e atrai visitantes todos os anos.
A petição é encabeçada por organizações de proteção animal como a SOS Vira-Lata e a APAUG, que vêm atuando para conscientizar a população sobre o impacto que eventos como rodeios podem ter sobre os animais envolvidos. Para essas entidades, não se trata apenas de contestar um espetáculo, mas de exigir que práticas que envolvem sofrimento e risco físico aos animais sejam afastadas de eventos públicos.
Contrastando com cenas de cavalos e touros em arenas de cidades do interior, Guaratuba não tem sua memória cultural ligada ao rodeio, ainda mais a um rodeio “estilo americano”. A cultura de uma cidade não deve ser inventada às pressas sob a justificativa de entretenimento ou lucro. Tradição cultural é expressão genuína de uma população ao longo do tempo — não algo imposto ou importado para preencher lacunas de programação.
Além disso, princípios amplamente reconhecidos internacionalmente sobre bem-estar animal — como as chamadas “cinco liberdades”, que incluem a proteção contra dor, medo e estresse — são invocados pelos defensores da petição para demonstrar que provas de montaria, por sua própria natureza, colocam em risco a integridade física e emocional dos animais.
Um exemplo a ser seguido
Cidades brasileiras como Curitiba já adotaram restrições e políticas que afastam práticas com animais de suas festas e eventos públicos, privilegiando formas de entretenimento que não envolvem sofrimento animal.
Guaratuba tem a oportunidade de seguir esse mesmo caminho, alinhando sua programação cultural e turística a valores éticos que respeitam a vida e respondem ao clamor de uma parte crescente de sua população. A proibição do rodeio na Expo Guaratuba não apenas preservaria a identidade do município como também demonstraria sensibilidade às demandas contemporâneas sobre proteção animal — um posicionamento que merece ser ouvido e levado a sério.
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