Depois de compreendermos os principais investimentos de renda fixa e iniciarmos uma nova etapa da Jornada do Investidor dedicada aos fundos, chegou o momento de conhecer uma categoria que oferece muito mais liberdade ao gestor: os fundos multimercado.
Esses fundos podem investir em títulos públicos, ações, juros, dólar, inflação, crédito privado e ativos internacionais. A possibilidade de buscar oportunidades em diferentes mercados parece uma grande vantagem, mas também amplia a complexidade e os riscos assumidos pelo investidor.
A pergunta, portanto, não é apenas se o fundo pode investir em vários ativos. É se a equipe responsável sabe utilizar essa liberdade e se a estratégia combina com os objetivos de quem está aplicando.
Como funciona um fundo multimercado?
Enquanto um fundo de renda fixa concentra seus investimentos nessa classe e um fundo de ações mantém parcela relevante do patrimônio no mercado acionário, o multimercado possui maior flexibilidade.
Se os juros estiverem elevados, o gestor pode aumentar a participação da renda fixa. Se acreditar na valorização da Bolsa, pode ampliar a exposição a ações. Também pode montar posições em moedas, inflação, crédito privado e mercados internacionais.
Essa capacidade de adaptação é a essência do produto. Entretanto, dois fundos multimercado podem possuir carteiras e riscos completamente diferentes. A categoria informa que o gestor pode atuar em vários mercados, mas não revela como utilizará essa liberdade.
Nem todo multimercado segue a mesma estratégia
Os fundos macro procuram identificar grandes tendências econômicas. Seus gestores analisam juros, inflação, crescimento, política monetária, câmbio e cenário internacional para definir as posições da carteira.
Os fundos livres possuem ainda mais flexibilidade e podem alternar entre diferentes estratégias. Já os fundos long and short trabalham com posições compradas e vendidas, buscando ganhar com a diferença de desempenho entre ativos.
Existem também os fundos balanceados, que mantêm uma distribuição mais estruturada entre diferentes classes de investimento.
Essas diferenças ajudam a explicar por que alguns fundos apresentam resultados excelentes em determinado cenário enquanto outros decepcionam. Mesmo gestoras reconhecidas podem alcançar desempenhos distintos porque seguem filosofias e estratégias diferentes.
Liberdade não significa garantia de resultado
Uma das principais vantagens dos multimercados é a gestão profissional. O investidor passa a contar com economistas, analistas e gestores que acompanham diariamente diferentes mercados e procuram identificar riscos e oportunidades.
Outra vantagem é a diversificação. Com uma única aplicação, é possível obter exposição a várias classes de ativos e a estratégias que seriam difíceis de executar individualmente.
Contudo, profissionais experientes também erram. Mudanças nos juros, inflação, moedas, conflitos internacionais e acontecimentos inesperados podem contrariar as posições montadas pelo fundo.
Além do risco de mercado, existe o risco de gestão: o resultado depende diretamente da qualidade das decisões tomadas pela equipe. Há ainda custos, como taxas de administração e performance, e possíveis restrições de liquidez.
O problema não está na liberdade concedida ao gestor, mas na expectativa de que essa liberdade produzirá bons resultados automaticamente.
Cinco perguntas antes de investir
– Qual é a estratégia do fundo? Antes de analisar a rentabilidade, descubra como o gestor pretende gerar resultados e em quais mercados poderá investir.
– Quanto a cota pode oscilar? Verifique o comportamento do fundo em períodos favoráveis e desfavoráveis e avalie se você suporta essas variações.
– Quem toma as decisões? Analise a experiência da equipe gestora e a consistência de sua atuação em diferentes cenários econômicos.
– Quanto custa a gestão? Confira as taxas de administração e performance e avalie se os resultados justificam esses custos.
– O fundo combina com seus objetivos? Uma boa estratégia pode ser inadequada quando não corresponde ao prazo, ao perfil e à finalidade daquele dinheiro.
Quando faz sentido — e quando não faz
Os fundos multimercado podem fazer sentido para investidores que desejam diversificação, aceitam oscilações e preferem delegar parte das decisões a profissionais. Também podem facilitar o acesso a estratégias mais sofisticadas e a mercados difíceis de acompanhar individualmente.
Por outro lado, não costumam ser adequados para quem busca a previsibilidade de uma aplicação conservadora, precisa do dinheiro no curto prazo ou não compreende os riscos assumidos.
Leia também: Fundos de renda fixa valem a pena? Veja quando delegar a gestão pode ser uma boa escolha
Autonomia sem competência não produz resultado
Quem administra uma empresa sabe que oferecer liberdade para um profissional tomar decisões não garante, por si só, que ele entregará bons resultados. Autonomia somente se transforma em desempenho quando é acompanhada por competência, critérios, gestão de riscos e capacidade de interpretar cenários.
A lógica dos fundos multimercado é semelhante. O gestor possui liberdade para migrar entre juros, moedas, ações, crédito e mercados internacionais, mas precisa saber quando entrar, quanto alocar, quais riscos aceitar e quando mudar de posição. A quantidade de alternativas disponíveis pode ampliar as oportunidades, mas também aumenta a possibilidade de decisões equivocadas.
Por isso, o empresário não deveria avaliar um multimercado apenas pela rentabilidade acumulada. Assim como faria ao contratar alguém para uma posição estratégica na empresa, precisa analisar quem está tomando as decisões, qual é o método utilizado, como essa equipe atuou durante momentos difíceis e quais limites orientam sua atuação.
Também é necessário separar o patrimônio pessoal dos recursos operacionais da empresa. Dinheiro destinado à folha de pagamento, impostos, fornecedores ou capital de giro não deveria ser colocado em uma estratégia sujeita a oscilações relevantes ou com prazo de resgate incompatível com as obrigações do negócio.
Delegar a gestão do patrimônio pode ser uma decisão inteligente. Delegar sem conhecer a estratégia, sem acompanhar os resultados e sem compreender os riscos é apenas transferir uma responsabilidade que continua pertencendo ao investidor.
Fundos multimercado não são melhores do que a renda fixa apenas porque podem investir em mais ativos. Também não representam uma fórmula automática para superar o mercado. Sua qualidade depende da estratégia, da competência do gestor e da compatibilidade com os objetivos de quem investe.
Antes de escolher pela rentabilidade passada, é necessário compreender como o resultado foi construído. Afinal, a rentabilidade mostra o que já aconteceu; a estratégia ajuda a entender os riscos que continuarão presentes.
No vídeo abaixo, explico com mais detalhes como funcionam os fundos multimercado, apresento suas principais estratégias e mostro quando a liberdade concedida ao gestor pode representar uma vantagem — ou apenas aumentar os riscos da carteira.
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