Quando o investidor encontra um Tesouro Prefixado oferecendo 14% ou 15% ao ano, a primeira reação costuma ser bastante positiva. Afinal, a possibilidade de garantir uma taxa elevada durante vários anos parece reunir duas características desejadas por praticamente qualquer pessoa: boa rentabilidade e previsibilidade.
O problema começa quando a decisão é tomada olhando apenas para a taxa apresentada na tela da corretora. O Tesouro Prefixado pode ser uma excelente oportunidade em determinados momentos da economia, mas também pode se transformar em uma escolha inadequada quando o investidor não considera inflação, prazo, expectativa para os juros e, principalmente, quando aquele dinheiro será utilizado.
Antes de investir, portanto, é importante compreender como esse título realmente funciona.
Como funciona o Tesouro Prefixado?
Ao comprar um título do Tesouro Direto, você está, na prática, emprestando dinheiro ao Governo Federal. No caso do Tesouro Prefixado, a taxa de rentabilidade é conhecida no momento da aplicação.
Imagine um título oferecendo 14% ao ano. Se o investidor permanecer com ele até o vencimento, receberá a rentabilidade contratada, respeitadas as regras e a tributação aplicável.
É justamente essa previsibilidade que torna o Prefixado tão atraente. Entretanto, existe um detalhe que muitos investidores descobrem somente depois de comprar: o preço do título oscila durante o caminho.
Renda fixa não significa necessariamente preço fixo.
Seu investimento pode cair mesmo sendo renda fixa
Essa oscilação acontece por causa da chamada marcação a mercado. Apesar do nome técnico, o funcionamento pode ser compreendido com um exemplo simples.
Imagine que você compre hoje um título pagando 15% ao ano. Algum tempo depois, a inflação melhora e as taxas de juros oferecidas por novos títulos caem para 11%. Seu investimento antigo, que continua oferecendo 15%, torna-se mais atrativo e, consequentemente, seu preço no mercado tende a subir.
Agora imagine o contrário. Você compra um título pagando 12%, mas posteriormente os juros aumentam e novos títulos passam a oferecer 15%. Por que outro investidor pagaria o mesmo preço pelo seu título de 12% se pode comprar um novo pagando 15%? Para compensar essa diferença, o preço do título antigo cai.
É por isso que alguém pode abrir o aplicativo e descobrir que está momentaneamente “perdendo dinheiro” em um investimento de renda fixa.
Se permanecer até o vencimento, porém, prevalecem as condições contratadas na compra. O problema aparece quando o investidor precisa vender antecipadamente, justamente durante um período de desvalorização.
Quando o Tesouro Prefixado pode ser interessante?
Existem situações em que esse investimento pode ocupar um espaço bastante interessante dentro de uma carteira.
– Quando os juros estão elevados e existe expectativa de queda: travar uma taxa elevada antes de um ciclo de redução dos juros pode proporcionar uma boa rentabilidade até o vencimento e também gerar valorização do título no mercado durante esse período.
– Quando existe um objetivo com prazo definido: quem pretende utilizar determinado recurso daqui a alguns anos pode encontrar no Prefixado uma maneira de aumentar a previsibilidade do planejamento financeiro.
– Quando faz parte de uma carteira diversificada: o título pode cumprir a função de oferecer previsibilidade enquanto outros investimentos da carteira buscam liquidez, proteção contra inflação, renda ou crescimento patrimonial.
O importante é compreender que uma taxa elevada, isoladamente, não torna um investimento necessariamente bom.
Quando ele pode virar uma armadilha?
Existem também situações em que o Prefixado exige muito mais cuidado.
A primeira delas é a reserva de emergência. Como o preço do título pode oscilar antes do vencimento, existe o risco de precisar do dinheiro justamente durante um período de desvalorização. Para recursos destinados a emergências, investimentos com maior estabilidade e liquidez, como o Tesouro Selic, costumam fazer mais sentido.
Outro cuidado importante envolve a inflação. Um Prefixado pagando 14% ao ano pode parecer excelente, mas o que realmente interessa para a construção de patrimônio é o ganho real, ou seja, aquilo que sobra depois de descontada a inflação.
Se a inflação permanecer elevada durante boa parte do período, a rentabilidade real poderá ser muito menor do que aquela imaginada no momento da compra.
Antes de comprar, observe cinco pontos
Em vez de escolher o Tesouro Prefixado apenas pela taxa oferecida, o investidor deveria analisar:
– Inflação: qual poderá ser o ganho real daquele investimento?
– Expectativa para os juros: as taxas atuais estão próximas de um pico ou ainda podem aumentar?
– Prazo: existe possibilidade de precisar do dinheiro antes do vencimento?
– Objetivo: qual função esse investimento terá dentro da carteira?
– Tolerância às oscilações: você conseguiria manter a estratégia mesmo vendo o valor do título cair temporariamente?
Quanto maior o prazo, maior pode ser a sensibilidade do preço às mudanças nas expectativas de juros. Por isso, escolher um vencimento distante apenas porque apresenta uma taxa mais atraente pode criar um risco desnecessário.
O melhor investimento depende da estratégia
O Tesouro Prefixado não é, por definição, um investimento bom ou ruim. Sua qualidade depende do momento econômico, da taxa contratada, da inflação durante o período, do prazo escolhido e dos objetivos de quem está investindo.
Esse entendimento também ajuda a explicar por que uma carteira não deveria depender de uma única classe de ativos. Liquidez, proteção contra inflação, previsibilidade, geração de renda e crescimento patrimonial são necessidades diferentes e podem exigir investimentos diferentes.
No mercado financeiro, a maior taxa disponível na tela nem sempre representa a melhor oportunidade. Muitas vezes, a decisão mais inteligente está justamente em compreender o que existe por trás daquele percentual antes de comprometer o dinheiro pelos próximos anos.
Se quiser se aprofundar no assunto, assista ao vídeo abaixo. Nele explico detalhadamente como funciona o Tesouro Prefixado, a marcação a mercado e em quais situações esse investimento pode representar uma oportunidade ou uma armadilha para sua carteira.
Leia também: Capítulo 4 – Você pode estar usando o Tesouro Selic do jeito errado – e só descobre quando precisa do dinheiro
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