Reduzir o número de casos e ampliar o acesso ao tratamento são os principais desafios na luta
contra a hanseníase.

O dia 31 de janeiro é lembrado como o Dia Mundial de Luta Contra a Hanseníase, uma doença que, apesar de ter um mínimo risco de contágio e com altíssimas taxas de cura, sofre um estigma que prejudica seus portadores fazendo-os, muitas vezes, viver à margem da sociedade. No passado, não havia tratamento e os doentes eram isolados. Hoje, porém, a doença é bem conhecida. Pode ser tratada e curada. O tratamento é longo, mas leva à cura. Não é o caso do sapateiro Reinaldo Matos Carvalho, de 58 anos, que aos 11 anos foi vítima da doença, hoje classificada como doença de pele, mas que antigamente era conhecida por lepra ou mal de Lázaro.

Reinaldo, que nasceu em Manaus, no Amazonas, contará sua história de vida, de perseverança, de reabilitação e de luta contra a discriminação social no 17.º Congresso Internacional de Hanseníase, que acontece na Índia a partir desta quinta-feira. ?Referir-se à pessoa como leproso, sem dúvida, é a palavra que mais ofende?, exclama o sapateiro. A doença, que não é hereditária, só se transmite através da respiração de uma pessoa infectada que esteja eliminando o agente causador – o bacilo de Hansen – pelas vias respiratórias. Por conta da data, o Ministério da Saúde promoverá um trabalho de conscientização da comunidade, no sentido de detectar de forma precoce a doença, possibilitando a cura dentro do mais curto espaço de tempo. O tratamento é totalmente gratuito.

Diagnóstico tardio

O Brasil é o segundo país com a maior incidência de casos, perdendo apenas para a Índia. ?De acordo com alguns estudos, a concentração dos casos de hanseníase ocorre em áreas mais pobres e superpopulosas?, diz o dermatologista do Hospital Nossa Senhora das Graças, Maurício Shigueru Sato. Inicialmente, a pessoa infectada apresenta lesões de pele como manchas esbranquiçadas ou avermelhadas com perda de sensibilidade no local, que podem aparecer em qualquer parte do corpo, com maior freqüência no rosto, orelhas, braços, nádegas, pernas, costas e mucosa nasal. Quando não é tratada no início, ocorrem problemas nos nervos, deixando-os engrossados e doloridos e diminuindo a sensibilidade na área afetada. ?Essas lesões são responsáveis pelas incapacidades e deformidades características da doença?, esclarece o médico.

Segundo Ewalda Von Rosen Seeling Stahlke, da Associação Paranaense de Hansenologia, por ser uma doença crônica e os seus sintomas serem confundidos com os de outras doenças, a demora no diagnóstico é freqüente. Para a especialista, isso acontece porque o paciente que apresenta uma mancha na pele não valoriza o problema, demorando a procurar o auxílio especializado de um dermatologista. ?Muitas vezes, ele acredita que se trata de algum tipo de micose?, constata a médica.

Com efeito, a estatística sobre a doença no Brasil se mantém alta, já que um bom número de portadores pode transmitir a doença sem saber. ?Um diagnóstico feito no início ajuda a cortar a cadeia de transmissão da doença e favorece o tratamento?, explica a especialista, ressaltando que, ao contrário do que se imagina, o paciente em tratamento pode conviver com a família, no trabalho e na sociedade, sem qualquer restrição. Atualmente, os tratamentos contam com o apoio de equipes multidisciplinares que incluem médicos, psicólogos e assistentes sociais.

É importante saber que:

* 90% das pessoas possuem resistência natural ao bacilo de Hansen, portanto, mesmo em contato, não contraem a doença

* De sete pessoas contaminadas, apenas uma oferece risco de contágio

* Só os portadores da forma multibacilar são transmissores e, mesmo assim, o contato precisa ser íntimo e freqüente.

* Assim que se inicia o tratamento, boa parte dos bacilos é eliminada, diminuindo o risco de contaminação

* Não se transmite o bacilo por meio de relação sexual

Sinais na pele

* Manchas avermelhadas ou esbranquiçadas

* Ausência ou diminuição do suor nessas manchas

* Rarefação de pêlos no local

* Surgimento de caroços ou nódulos

* Aparecimento de ferida ou úlcera nas mãos e pés

A doença

A hanseníase é causada pelo bacilo de Hansen (médico norueguês que o descobriu, em 1673), um parente do agente causador da tuberculose. Ela pode afetar os nervos periféricos, que ligam o sistema nervoso central a diversos órgãos, internos e externos, a pele, a mucosa do trato superior, os olhos e outras estruturas.

Começa com uma ou mais manchas esbranquiçadas ou avermelhadas na pele, em qualquer parte do corpo. Em cima dessas manchas, a pele fica com sensibilidade diminuída ou sem sentir calor, dor ou o toque. Na maioria das vezes, as manchas nem são notadas, pois não coçam, não doem ou incomodam.

"As manifestações clínicas da hanseníase são resultantes de uma resposta do sistema imunológico à invasão do bacilo que combate a expansão do bacilo, mas destrói os tecidos e as áreas atingidas", explica Ewalda Stahlke.

O período de incubação, que vai do momento do contato até o aparecimento dos primeiros sintomas, é de cinco anos.

A transmissão se dá diretamente de pessoa para pessoa, através das vias aéreas superiores, no convívio íntimo e prolongado da pessoa sadia com o doente da forma multibacilar não tratado. Para diagnosticar a doença é feito um exame clínico e uma pesquisa de bacilos na linfa da pele, além de uma biópsia, se necessário.