A divulgação de um estudo sobre desnutrição e obesidade no Brasil mostrou que o número de obesos está ultrapassando o de desnutridos e, que sem uma urgente reeducação alimentar, no futuro, poderemos ser conhecidos como o país dos gordinhos.

Os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em conjunto com o Ministério da Saúde e divulgados recentemente, apenas comprovam aquilo que qualquer pessoa percebe andando pelas ruas e, ainda, confirmam a tendência que os médicos já vinham constatando nos consultórios: o número de obesos cresce vertiginosamente no Brasil. Conforme o levantamento, mais de 38 milhões de pessoas em nosso país estão com o peso acima do recomendado e, desse total, em torno de 10 milhões são considerados obesos. Para quem achava que o problema da obesidade ficava restrito aos americanos – exportadores do modelo fast food, o estudo surpreendeu.

Ficou provado que o Brasil não escapa desse negro quadro. Para a Organização Mundial de Saúde, a obesidade é a principal epidemia do começo do século e, para os especialistas brasileiros, a importação de novos e piores hábitos alimentares contribuiu em muito para que o país entrasse nesse fatídico clube. O estudo mostra que estamos passando por uma espécie de transição nutricional. "De um país de subnutridos estamos caminhando para um contingente de obesos", reconhece Henrique Lacerda Suplicy, endocrinologista do Ambulatório de Obesidade do Hospital de Clínicas da UFPR, alertando que para reverter essa expectativa, de difícil controle, somente a prevenção pode contribuir.

Reeducação alimentar

Para o especialista, a obesidade é uma doença crônica e como tal deve ser tratada. "Muito além de um problema estético, o excesso de peso se associa a um grande número de comorbidades e, por isso, deve ser priorizada com urgência na saúde pública", reitera, salientando que a doença pode ter conseqüências desastrosas. Além de estar relacionada com o fator físico, a doença causa grande impacto social na vida das pessoas, uma vez que ocasiona, freqüentemente, problemas psicológicos, como por exemplo, perda da auto-estima, ansiedade e depressão. Suplicy explica que o excesso de peso é fruto da interação entre fatores genéticos e ambientais. Apenas número reduzido de casos se deve a outras causas, como doenças endócrinas, síndromes genéticas ou tumores, por exemplo.

A esmagadora maioria dos profissionais de saúde concorda que o tratamento da obesidade deve passar por uma série de medidas reeducativas. Elas vão desde o comportamento e hábitos alimentares à alteração de estilos de vida sedentários em que a população faz cada vez menos exercícios, ao mesmo tempo em que aumenta o consumo de gorduras. Na concepção dos médicos, muitos fatores contribuem para a obesidade, entre eles, a tendência genética, contra a qual pouco se pode fazer, o sedentarismo, e o hábito de comer muito e gastar poucas calorias. "Fatores que podem ser combatidos pela reeducação alimentar e, também, por mudanças de hábitos de vida", orienta Suplicy.

Cantina saudável

As pessoas, no entender do médico, devem ser estimuladas à prática de uma atividade física programada, aquelas feitas em academias ou parques, com indicação médica, além disso, devem estimular os exercícios não-programados, como subir escadas e caminhar diariamente. Nesse sentido, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, junto com a Associação Brasileira de Estudos da Obesidade, em parceria com o Ministério da Saúde, desenvolve o Programa Escola Saudável. O objetivo é fazer com que as crianças adquiram hábitos alimentares saudáveis. O programa inclui a oferta de produtos menos calóricos nas cantinas das escolas e palestras sobre nutrição para pais, alunos e professores.

Segundo Suplicy, existem evidências claras de que uma redução no peso, por mínima que seja, em torno de 10% do peso corporal inicial, é suficiente para proporcionar melhorias clinicamente significativas das questões de saúde associadas à obesidade. "Este pode se tornar um objetivo inicial", sugere o médico, desde que a pessoa se esforce para mantê-lo nesse patamar. A opção para o tratamento da obesidade passa, necessariamente, por um plano alimentar com restrição calórica, combinado com uma atividade física adequada ou, quando não se consegue resultados satisfatórios, associados com o uso de medicamentos. As metas desse tipo de tratamento são a redução dos fatores de risco para doenças associadas, como a hipertensão arterial e a diabetes, assim como a redução do peso corporal.

Números que pesam

41% da população brasileira se encontra acima do peso.

As mulheres obesas somam 42%; os homens, 38%, e as crianças, 35%.

Apenas 27% dos solteiros estão com sobrepeso, contra 52% dos casados e 59% dos viúvos.

12% dos adolescentes estão acima do peso e 58% dos idosos estão nesse grupo.

46% das pessoas com alta escolaridade são obesas, contra 44% daquelas com baixa escolaridade.

44% dos gordinhos estão na Região Sul.

59% das pessoas com problemas de saúde estão acima do peso.

O consumo de refrigerantes e leite condensado é 20% maior nos domicílios com obesos. Maionese, 75% maior que a média, e salgadinhos, 66%.

Fonte: IBGE