Ainda existe preconceito contra pessoas que sofrem mentalmente. Se alguém tem diabetes, hipertensão arterial, úlcera de estômago, artrite, doenças pulmonares, mesmo câncer, entre outras doenças físicas, é bem recebido, obtém compreensão, apoio, incentivo e até afeto. Mas isto não ocorre quanto esta mesma pessoa passa a sofrer mentalmente, pois pode ser rotulada de fraca, dependente, covarde, sem força de vontade, supersensível, esquisita.

Isto não é justo, até mesmo porque as doenças são, de alguma forma, psicossomáticas, ou seja, corpo e mente atuam juntos para evitar o adoecer e mesmo no adoecer. Por exemplo, já se sabe que doenças autoimunes, certos tipos de câncer, febres “estranhas”, manchas e outras lesões na pele, hipertensão arterial, diabetes, enxaquecas, etc., têm uma parcela importante do mundo emocional na formação da enfermidade. Não se adoece só numa parte do corpo. Corpo e mente vivem juntos, sendo uma unidade indivisível como corpo e alma.

A ciência provou que, por ex., casais casados há 50 anos ou mais, ao morrer um, o outro teve diminuição de glóbulos brancos (linfócitos) por 6 meses como resultado da tristeza pela morte do companheiro(a). Mulheres sob alto estresse têm uma perturbação da função de uma parte dos cromossomos chamada “telômero” resultando em encurtamento do tempo de vida. Mulheres, mais que homens, apresentam manchas vermelhas na pele, especialmente nas coxas e pernas, quando sob pressão emocional forte, etc.
Em certas condições a mente apresenta seus transtornos em evidência, como a depressão, doença do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, distúrbio bipolar, fobias, as complexas doenças psicóticas como a esquizofrenia, etc. Transtorno mental não seleciona raça, nem classe social e econômica. Ricos e pobres “surtam” e se deprimem. Há doutores e iletrados com fobias e com esquizofrenia. O Prof. Jair diz: “Como convencer as pessoas de que adoecer mentalmente é tão normal quanto ter hipertensão arterial, ou diabetes, ou hemorragia?”

Não vamos convencer. A pessoa deveria aprender isto na escola, ou quando se torna um profissional da área, quando sofre o problema ou quando a boa mídia educa. Já atendi muitas pessoas, homens e mulheres, acima dos 50 anos de idade que haviam sido muito produtivas na vida, e ao virem à consulta demonstravam raiva de si mesmas, rejeição de si mesmas por estarem em necessidade de um psiquiatra! A frase comum delas é: “Nunca pensei que fosse ter um problema assim! E eu que criticava e debochava das pessoas com problemas mentais, achando-as fracas!” Pode demorar vinte, trinta, quarenta anos para a dor emocional surgir à tona da consciência produzindo um transtorno mental e, finalmente, a pessoa parar e reconhecer que precisa ajuda para o que era canalizado, quem sabe, na vício do trabalho, em doenças no corpo, mas nunca admitidas como sendo algo não equilibado na mente.

Estima-se que 25% da população adulta experimentará algum tipo de sofrimento mental que exigirá cuidados profissionais. Em qualquer momento 480 milhões de pessoas no mundo sofrem um transtorno mental. A depressão atinge de 10% à 20% da população, 10% tem a doença do alcoolismo e 1% esquizofrenia. Segundo a Organização Mundial da Saúde – dados de Setembro 2007 – três mil pessoas se suicidam por dia no mundo, uma a cada 30 segundos.

Não tenha vergonha do seu sofrimento mental. Já basta sofre-lo. Todo ser humano tem ansiedade. A diferença é o grau, a maneira com ela se manifesta, a consciência ou inconsciência dela e a intensidade dela. Claro, alguns administram bem sua ansiedade e por isso conseguem viver com equilíbrio emocional. Outras são dominadas por ela e sucumbem em algum transtorno mental de gravidade leve, média ou grave, com ou sem sintomas psicóticos. Mas em geral podem se recuperar, com exceções.

Saúde mental é a capacidade de administrar suas lutas interiores, seus conflitos, sua angústia, de maneira que você possa trabalhar, recrear-se, produzir, amar, conviver socialmente de maneira construtiva e amistosa, com consciência de si, de suas limitações e capacidades. Seja humilde e procure ajuda, se precisar. É possível que seu sofrimento possa acabar.